Redes sociais, fake news e radicalização dos jovens: combate à promoção online de violência é "quase impossível"

Pedro Correia (arquivo)
No Fórum TSF, a Polícia Judiciária avisa que "há grupos que promovem a violência pela violência, a violência como um serviço ao serviço de outros e, no limite, o terrorismo"
A Polícia Judiciária (PJ) acredita que os casos de radicalização dos jovens estão a crescer em Portugal, com um maior número de grupos que promovem a violência online.
As redes sociais, as fake news e a radicalização dos jovens foram o tema em debate no Fórum TSF e Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ explica a dimensão do problema em Portugal
"Há grupos que promovem a violência pela violência, a violência como um serviço ao serviço de outros e, no limite, o terrorismo. Nós temos casos concretos e evidenciados de situações em que esta exposição a conteúdo de extrema violência escala e vem-se a concretizar em atos violentos concretos e no limite também em situações criminais, com o limite do homicídio também e de atos terroristas", afirma.
Patrícia Silveira confirma que estes casos ocorrem em Portugal: "Quando falamos destas questões é da experiência da Polícia Judiciária e especificamente da Unidade Nacional Contraterrorismo, em relação a investigações que temos tido e ações concretas e detenções que temos feito de situações ocorridas em Portugal ou determinadas em Portugal."
A diretora da Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ admite que o combate é muito difícil.
"A recolha da prova digital em plataformas que não estão sediadas em Portugal necessita não só da autoridade judiciária competente, mas também de uma cooperação internacional e em que é difícil obter a prova. Nós temos que pensar que a maior parte das plataformas, por exemplo, estão sediadas nos Estados Unidos. É quase impossível, muitas vezes, conseguir obter a prova através destas cartas rogatórias, por exemplo, que é desse instrumento penal que falamos", esclarece.
Por isso mesmo, aponta Patrícia Silveira, é difícil "sinalizar estes atos e estas determinações à partida, porque normalmente a Polícia Judiciária, quando é alertada para estes factos, já está num patamar da prática dos crimes".
Do ponto de vista da Polícia de Segurança Pública (PSP), a comissária Patrícia Firmino, da divisão de polícia de proximidade, revela que no ano letivo passado foram apreendidas 54 armas, sobretudo brancas, pela Escola Segura, sendo que 34 delas foram apreendidas dentro do recinto escolar.
"Temos situações em que houve mesmo o uso das armas por parte dos jovens para tentarem resolver conflitos entre eles. E depois temos outras situações que estão relacionadas só com a mera exibição ou com a mera posse. Podem não ter sido utilizadas para nada, mas importa aqui referir que é proibido portar ou exibir uma arma, seja ela de que calibre for no interior do recinto escolar", refere.
Por isso, é importante passar a mensagem aos jovens: "Nós tentamos todos os dias, através dos nossos polícias que pertencem às equipas do programa Escola Segura, nomeadamente em ação de sensibilização, passar esta mensagem: posse e uso de arma é proibido."
Relativamente ao que se passa nas redes sociais e perante o estudo sobre desinfoirmação nas presidenciais, Branco di Fátima, investigador do Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior, explica o fenómeno.
"Começamos a falar de um conjunto de ações que, por um lado, tentam descredibilizar os veículos de comunicação social, os jornalistas, mas também de conteúdos que são manipulados, a falsificação de informação, a utilização de informação em contextos falsos, a criação de conteúdos totalmente sem conexão com os factos da realidade, conteúdos altamente emocionais", descreve.
E o ataque ao meios de comunicação tradicionais é o mais feroz: "Se nós formos pensar no tipo de desinformação que nós encontramos no nosso trabalho, quase metade das publicações estão associadas à descredibilização dos media e dos jornalistas. Essa descredibilização fragiliza a democracia e influencia de forma significativa a maneira como o eleitorado, como o cidadão pensa o seu voto. No fundo, nós estamos a tentar eliminar um dos principais mediadores de referência da compreensão dos fenómenos sociais mais complexos, e os processos eleitorais são um desses fenômenos."