Será que as gaivotas estão por trás da contaminação na Praia de Matosinhos? Especialistas dividem-se

Praia de Matosinhos
Créditos: Pedro Correia (arquivo)
A poluição da água em Matosinhos coloca a praia em risco de perder o estatuto balnear. A origem da contaminação divide especialistas, entre os que apontam as gaivotas e os que defendem que os esgotos não tratados são a principal causa
A origem da contaminação da água na praia de Matosinhos está a dividir os especialistas. Se, por um lado, há quem aponte o aumento significativo do número de gaivotas como um fator relevante na degradação da qualidade da água, por outro, há quem rejeite essa hipótese e atribua a responsabilidade sobretudo às descargas de esgotos não tratados que chegam ao mar através dos rios.
Ouvido pela TSF, o hidrobiólogo Adriano Bordalo e Sá, professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, disse que "pelo menos metade da contaminação [na Praia de Matosinhos] não é de origem humana, mas sim de origem animal" e sublinhou que, os últimos anos, "a quantidade de aves marinhas disparou, nomeadamente gaivotas".
"Temos contado pelo menos dois grandes bandos com um número até dez mil unidades, que durante a noite ocupam o areal e defecam e que, durante o dia, à medida que os banhistas vão chegando à praia, se afastam para a água", afirmou.
Para o hidrobiólogo, o problema exige medidas articuladas que incluam o controlo das populações de gaivotas, mas não só: "Este aumento progressivo deve-se a vários fatores, incluindo um tão simples que é as pessoas que as alimentam."
Além disso, referiu Adriano Bordalo e Sá, o lixo deixado nas ruas e nos areais acaba por atrair estes animais e favorecer a sua concentração junto à costa.
Uma leitura bem diferente é feita pelo diretor da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Também em declarações à TSF, Pedro Neto explicou que a "E. coli vem de descargas de esgotos não tratadas e, portanto, essa será uma das fontes mais importantes para este tipo de poluição e que é perigoso para os seres humanos".
"Os animais marinhos só consumindo lixo - e aí sim pode ser de facto um problema lixo a céu aberto - é que poderiam quanto muito transportar essas doenças depois nas suas próprias fezes. Agora, não estou a ver que o número de indivíduos de animais seja tão significativo que possa causar problemas ambientais aos humanos. Não creio que sejam as aves a causar essa poluição e a trazer essas bactérias que são perigosas para a saúde humana e para toda a saúde de todos os seres vivos", sustentou.
A Praia de Matosinhos esteve interdita a banhos durante 14 dias em 2025 devido à contaminação por E. coli e a Agência Portuguesa do Ambiente colocou em consulta pública uma proposta que poderá retirar-lhe o estatuto de zona balnear em 2026, caso não sejam implementadas medidas corretivas eficazes por parte das autoridades locais.
*Com Maria Ramos Santos