"Um grande orgulho para Guimarães." Irmandade condecorada por servir ceias de Natal há 710 anos

Créditos: Câmara Municipal de Guimarães
Em declarações à TSF, Dario Silva, juiz da Irmandade de São Crispim e São Crispiniano, conta que todos os anos são distribuídas entre "110 a 130 refeições" na véspera de Natal. A este apoio chegam não só as famílias mais carenciadas, mas também aqueles que moram sozinhos e as pessoas que estão há pouco tempo no país
A Irmandade de São Crispim e São Crispiniano recebe esta terça-feira a Medalha de Mérito Social pelo Presidente da República. A distinção reconhece mais de sete séculos de ceias de Natal dedicadas a quem mais precisa. À TSF, o juiz Dario Silva diz que ficou "na lua" quando recebeu a notícia.
"Um grande orgulho para Guimarães." É desta forma que o juiz da irmandade reage à notícia da distinção por Marcelo Rebelo de Sousa. Dario Silva não esconde, por isso, a facilidade que sente por ver o trabalho desenvolvido ao longo de 710 anos ser agora reconhecido.
Em declarações à TSF, o juiz Dario Silva conta como que soube deste reconhecimento: "Eu fui contactado no dia 23 e fiquei na lua."
Inicialmente, Dario Silva escolheu guardar para si a informação, mas na consoada decidiu partilhá-la com o autarca de Guimarães, Ricardo Araújo, que visitou as instalações da Irmandade onde decorria a ceia de Natal. "Pedimos ao presidente da câmara que fizesse esse anúncio", detalha.
"É um grande orgulho para Guimarães e para todos nós, porque, [quando] chegamos a casa nesse dia 24 à noite, sentimos o dever de que o nosso trabalho finalmente foi reconhecido", confessa.
A tradição de oferecer uma ceia a quem mais precisa começou no século XII. "A Irmandade organiza [a ceia de Natal] desde 1315, através dos santos, naquela altura o São Crispiniano e o São Crispim, dois irmãos gémeos que vieram de Itália. A partir do final da tarde do dia 24 até à madrugada do dia 25, eram servidas refeições para as pessoas mais desfavorecidas e, desde essa altura, esta tradição tem-se mantido, atualizada aos tempos modernos. Agora, todos os anos, temos entre 110 a 130 refeições, incluindo não só as pessoas mais desfavorecidas como também as pessoas que moram sozinhas e aquelas pessoas que estão há pouco tempo no país e que não têm onde fazer a sua refeição de Natal. Também temos pessoas que acham melhor estar na sua casa e trazem os tupperwares e nós também acedemos a esse grupo de pessoas".
Atualmente, a ceia é muito parecida com aquela que é vivida em casa dos portugueses. No prato principal, são presença assídua o bacalhau, a batata e o azeite. Já a lista de doces é mais extensa.
"Temos o pão de deus - que é uma das imagens de marca da Irmandade -, bolo rei, pão de ló, letria, rabanadas, sonhos (...), vários tipos de bolos", resume.
Enquanto que alguns são comprados pela irmandade, outros são fruto da solidariedade das próprias pastelarias, que oferecem os produtos que não conseguem vender até ao final do dia.
Além da refeição, quem vem à consoada leva também algo para casa, doado por "benfeitores". "Desde edredões, cobertores, mantas, pijamas, camisas, calças, vários tipos de material. Também temos sempre a tradicional prenda por parte do município de Guimarães, que este ano foi uma mochila que é muito útil para as pessoas poderem viajar e na sua vida, como também o tradicional chocolate", refere o juiz Dario Silva.
A condecoração vai acontecer esta terça-feira às 17h00, no Palácio de Belém. O juiz Dario Silva vai receber a medalha em nome da comunidade.
