"Vejo barbaridades nas cidades." Sem "planeamento sistémico" nem "estruturas resilientes", Kristin saiu por cima

Paulo Novais/Lusa
Perante o temporal que provocou destruição um pouco por todo o país, no Fórum TSF apelou-se a uma "visão estratégica" e preventiva
A dimensão dos estragos causados pela depressão Kristin voltou a marcar o debate no Fórum TSF. Esta sexta-feira, o planeamento prévio das infraestruturas esteve em cima da mesa, com especialistas a apelarem a uma "visão estratégica" que poderá ser "cara".
Maria José Roxo, geógrafa e professora catedrática na Univerisdade Nova de Lisboa, pediu no Fórum TSF uma nova "visão estratégica para o território", recusando a distinção entre litoral e interior.
Exemplifica com a inundação da baixa de Silves, no Algarve, devido ao transbordo das margens do rio Arade: "Estes rios vêm de áreas do interior. As consequências nas áreas urbanas estão ligadas ao que se faz no interior e, neste caso, às bacias destes cursos de água."
A geógrafa defende que o "planeamento deve ser sistémico", analisando "todas as componentes".
Sugere, também, que as autarquias promovam formação dentro das comunidades, de modo a criar "uma cultura de proteção civil". Mas, para isso acontecer, considera que seria necessário que as câmaras municipais "tivessem capacidade não só financeira, mas também técnica".
"Falamos muito em ordenamento do território e em planeamento urbano, mas quando ando pelo campo (e como geógrafa passo muito tempo no mesmo) vejo barbaridades nas cidades", reflete Maria José Roxo.
Casos como o de "árvores com caldeiras mínimas e, consequentemente, com o enraizamento complicado" que acabam por cair ou "a impermeabilização sem estratégia em função dos canais de escoamento dessas águas" preocupam a geógrafa.
Por seu lado, o vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, Jorge Liça, destacou que as estruturas de eletricidade não estão planeadas para as velocidades de vento que se fizeram sentir: "Os critérios dos projetos das infraestruturas que foram danificadas estão definidos para ventos máximos de determinadas velocidades, que não está na escala dos 180 quilómetros por hora."
Nesse sentido, acredita que se devem "rever os critérios para dimensionar estruturas mais fortes e mais resilientes", que "serão mais caras".