"Vitória da dignidade sobre o ódio." Comunidade cigana diz que derrota de Ventura é "democracia a funcionar"

Eduardo Costa/Lusa
À TSF, o líder da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos em Portugal, Paulo Domingos, confessa que, devido a "tantos anos de uma integração fraca, ninguém acreditou que os tribunais" pudessem dar razão à comunidade "contra o segundo partido político"
O presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos em Portugal não esconde a "emoção" após conhecer a decisão do tribunal que condena André Ventura a retirar os cartazes que dizem "Os ciganos têm de cumprir a lei".
Em declarações à TSF, Paulo Domingos acusa o líder do Chega de ter utilizado a comunidade cigana "como um meio para alcançar um fim, sem se importar de humilhar todo um povo, crianças, mulheres que têm feito um esforço tremendo de integração social".
"O prejuízo que estes atos racistas têm trazido a esta nova geração que tenta uma integração social e profissional foi devastadora, devastadora."
E é com estes argumentos que este representante da comunidade cigana explica que entende a decisão do tribunal como uma "vitória da dignidade humana sobre o ódio".
"O ódio racial foi sempre a questão. Isto nunca foi uma questão pessoal entre o André Ventura e os ciganos", sublinha.
A decisão do tribunal, completa, "no fundo, é uma vitória da democracia, que está a funcionar". Paulo Domingos diz ainda que a luta foi também uma forma de mostrar ao povo cigano que é possível lutar pelos seus direitos na justiça.
"Devido a tantos anos de esquecimento - não é marginalização, porque isso é uma palavra muito forte -, de uma integração fraca, de um trabalho que tem sido feito de integração medíocre, do medo, falta de coragem política para nos defender, ninguém acreditou que os tribunais nos pudessem dar a razão contra o segundo partido político, que hoje movimenta milhões", sublinha.
Indo mais longe, Paulo Domingos garante que esta foi uma verdadeira "guerra entre David e Golias". E, mais uma vez, foi David quem venceu.
"Com este tipo de pessoas nunca sabemos aquilo que podemos esperar, porque eles hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra, isto é constantemente. Ele é o político português que mais mentiu nos últimos 50 anos", atira.
Recusando fazer previsões sobre os próximos passos de André Ventura, o presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos em Portugal prefere apenas apelar a uma Justiça universal.
"O direito à Justiça é uma coisa da qual todos os portugueses e também os portugueses ciganos têm direito. E que se faça justiça sobre tudo aquilo que tem sido dito e feito sobre nós nos últimos tempos", pede.
É com este apelo que confessa que está acompanhado de várias pessoas que também estão "muito emocionadas" com a situação.
O tribunal condenou esta segunda-feira o Chega a retirar todos os cartazes da campanha presidencial de André Ventura que visam a comunidade cigana, estipulando um prazo de 24 horas para que tal aconteça.
A juíza Ana Barão condenou ainda Ventura "a abster-se de, no futuro, determinar ou promover, direta ou indiretamente, a afixação de cartazes de teor idêntico ou equivalente".
Por cada dia de atraso, por cada cartaz que permaneça na via pública para além do prazo de 24 horas definido pelo tribunal para a retirada, ou por cada novo cartaz que possa vir a ser colocado, o líder do Chega terá de pagar uma multa de 2500 euros, ordenou ainda a sentença.
A juíza argumentou que não é negado o direito à liberdade de expressão, nem à liberdade de expressão política de André Ventura, mas que lhe é exigido que o exerça com "responsabilidade no sentido da proteção dos direitos humanos de todos e no sentido do combate à discriminação, designadamente racial ou étnica".
Ao ter admitido em tribunal saber que existem ciganos que cumprem a lei, mas reiterar a sua convicção de que nenhum o faz, "o réu não pode deixar de saber que a sua convicção assenta em ideias discriminatórias e atenta contra uma minoria étnica", defendeu a juíza.