"Meu Deus, parece que eu estou no centro do mundo." Chiziane "nas nuvens" com prémio Camões
Entrevista TSF

"Meu Deus, parece que eu estou no centro do mundo." Chiziane "nas nuvens" com prémio Camões

O telefone ainda não parou de tocar na casa da escritora moçambicana. Ao fundo da conversa, surge amiúde uma voz masculina noutro telefone. Tem sido assim nas últimas 24 horas, chamada atrás de chamada. No bairro da periferia de Maputo, Paulina Chiziane vive um sonho : "Estou nas nuvens um pouco, mas vou caindo na real". E numa gargalhada rouca, conta que a notícia do Prémio Camões foi tão inesperada que ia pegando fogo à cozinha, deixando a panela ao lume: "fiquei sem jantar".

"Parece que o mundo me entendeu"

Paulina Chiziane ainda não está em si. O sorriso embala-lhe as palavras, ao explicar o turbilhão das últimas horas, "é o reconhecimento dum trabalho de quase metade da minha vida, o reconhecimento da minha identidade, porque a minha literatura foi sempre isso, negociar a minha identidade como africana, como negra, como mulher, com os nossos medos, as nossas tradições, as nossas crenças. Então eu digo, bem, parece que o mundo me entendeu."

Os telefonemas chegam de todos os cantos do mundo: "O planeta Terra é redondo, e qualquer ponto do planeta é o centro do mundo, senti um pouco isso quando recebi mensagens de tantos lugares, de tantas pessoas, Deus, meu Deus parece que eu estou no centro do mundo".

"A humanidade das mulheres"

As mulheres percorrem a obra de Paulina Chiziane, ela que foi a primeira mulher e escritora moçambicana a publicar um romance em 1990: "Eu vivo na periferia da cidade de Maputo, e a voz de qualquer um dos meus personagens ao longo do país, é uma voz que afinal tem eco no coração de qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo. É muito bonito", acrescentando que "as histórias parecendo ser de um indivíduo, podem ter reflexo no universo inteiro. É claro que eu falei das mulheres mas eu não falei só deles. Eu falei da humanidade a partir das mulheres, é outra coisa."

O livro mais recente " A voz do Cárcere", publicado este ano parte de uma pesquisa feita nas prisões de Moçambique, com Dionísio Bahule.

O irmão Mia e o pai Craveirinha

Pela terceira vez, o Prémio Camões é atribuído a um autor moçambicano, depois de José Craveirinha, em 1991, e Mia Couto, em 2013.

"Eu olho para o Mia como um irmão gémeo, porque fazemos anos na mesma altura, eu tenho 66 e ele também fez, o Mia é um companheiro de marcha. O José Craveirinha é uma espécie de pai que deixou uma obra muito reflexiva, que me ajudou a fazer algo mais do que eu imaginei que pudesse fazer"

" A cozinha ia pegando fogo"

Mas voltemos ao primeiro telefonema. O que confirmou a distinção atribuída à escritora, por unanimidade : "Eu? Quando me ligaram a dizer Prémio Camões, eu não, nem pensar" , confessa a escritora julgando ser brincadeira.

"Estava sentada, tranquila, estava a cozinhar umas verduras que eu gosto, folhas de abóbora com amendoim, e esqueci completamente da panela que estava no fogo. Virou uma fumaça que a vizinhança veio dizer, olha a sua cozinha está a arder. Fiquei sem jantar, acabei comendo pão com queijo".

E agora, como vai ser?

" Ainda estou assustada porque tudo muda. O prémio é uma autoridade que se impõe. É uma mudança de vida", remata.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de