"Não aceitamos pelouros a qualquer preço"

João Ferreira está disponível para influenciar a gestão da Câmara de Lisboa, mas só com o reforço da votação na CDU. No programa Em Alta Voz, da TSF e do Diário de Notícias, João Ferreira diz que PS e BE falharam na criação de habitação acessível e defende que a oferta de hotéis deve ser limitada. Voto útil? "É uma falsa questão".

É candidato à Câmara de Lisboa pela terceira vez consecutiva. Desta vez, com a polarização entre Medina e Moedas, não receia ser vítima do chamado efeito do voto útil?
Já percebemos que essa é uma polarização encenada. Já noutras ocasiões se procurou forçar essa bipolarização. Toda a gente interiorizou que ela foi em grande medida inculcada artificialmente, até pela intervenção algo desastrada de um desses candidatos, que é uma manifesta ausência de uma visão, de um projeto para a cidade. Creio que é claro que esse não é um problema que se coloca. Aquilo que está em causa nestas eleições é encontrar respostas que permitam melhorar a vida na cidade e permitam responder a problemas que Lisboa vem arrastando há muitos anos. E sem resposta. Faz este ano 20 anos em que Lisboa não conheceu outro Governo da cidade que não fosse ou do PSD e do CDS ou do PS, nos últimos anos com apoio também do Bloco de Esquerda (BE). E aquilo que está em causa é se nós conseguimos ou não encontrar outras respostas do ponto de vista da criação de condições de governo da cidade para atacar problemas como a habitação, um urbanismo de qualidade, mobilidade e transportes públicos, direito à cultura, desporto, lazer, recreio na cidade, uma melhoria do ambiente urbano... é tudo isso que está em causa. Creio que isso não se vai decidir entre esses dois candidatos.

O combate ao voto útil não vai ser uma das estratégias de campanha da CDU em Lisboa?
O que vai haver é um esforço muito grande para demonstrar qual é o voto útil. Não creio que possamos considerar como útil um voto que não transporta consigo nenhuma possibilidade de solucionar problemas que Lisboa vem arrastando há vários anos, com governos, como disse, do PSD/CDS e do PS, neste últimos quatro anos com o BE, sem que os conseguissem solucionar. Repare, em Lisboa, há o problema da habitação. Se olharmos para o parque de habitação público, ele no essencial foi construído no final de um ciclo de 12 anos, em que a CDU teve responsabilidades diretas no Governo da cidade. Desde então, nos últimos 20 anos, praticamente, a oferta de habitação pública estagnou. Aquilo que vou procurar demonstrar é onde é que está a utilidade do voto.

É candidato à câmara de Lisboa pela terceira vez consecutiva. Nas últimas eleições conseguiu eleger dois vereadores, os resultados estiveram ali à volta dos 9,5%. Qualquer fasquia que fique aquém desta será um mau resultado para si e para a CDU?
Um bom resultado passará sempre por reforçar essas posições. Nós partimos dos dois vereadores que disse, dois vereadores em 17, que creio que realizaram um trabalho digno de registo. Nós podemos dizer que não houve aspeto positivo ao longo destes quatro anos, desenvolvimento positivo na cidade, que não tivesse a marca da intervenção desses dois vereadores ou com a sua iniciativa, a maior parte das vezes, ou, no mínimo, com o apoio a iniciativas, que respondessem a problemas concretos e representassem uma melhoria nas condições de vida e de trabalho de todos aqueles que aqui estão nesta cidade. Agora, queremos mais, porque também ficou claro que para avançar mais na resposta a problemas da cidade, para avançar na melhoria do ambiente urbano, para avançar numa luta que hoje se trava pelo direito à cidade, por uma cidade bela, justa, democrática, nós precisamos de ter mais força. E é isso que está em jogo, se nós vamos conseguir, mexendo nas relações de força que têm determinado o Governo da cidade, abrir para outras soluções de Governo.

Portanto, um peso suficiente para a CDU para interferir na solução de Governo, é isso?
E isso requer que a CDU tenha mais peso do que aquele que teve até agora, indiscutivelmente.

A CDU lidera apenas uma das 24 freguesias de Lisboa, preside à junta de Carnide. Não é pouco para uma coligação que sublinha a importância do trabalho autárquico?
Bom, é uma Junta de Freguesia, não é pouco importante. É a expressão de um trabalho notável, uma freguesia que alterou muito a sua composição social ao longo destes últimos anos e que apesar disso se mantém como sendo uma junta CDU, o que não pode ser senão sinal de um extraordinário trabalho que é feito nessa freguesia. Já tivemos outras. Também sabemos que a reforma administrativa da cidade que foi feita aqui há uns anos, por um acordo entre o PS e o PSD, suprimiu a maioria das freguesias da cidade, várias delas eram da CDU. Foi uma reforma muito determinada pelos interesses eleitorais de um e de outro partido que a fizeram...

Há menos de um ano apresentou-se às presidenciais. É legítima a ideia de que faltam quadros, candidatos dentro da CDU? João é o candidato para todas as eleições?
Não, até porque João Ferreira não é um candidato isolado. Nós vamos hoje apresentar a lista de candidatos da CDU à câmara municipal, e mais do que um candidato nós temos uma equipa. Uma equipa experimentada, sólida, competente, capaz, que vai demonstrar que nas várias áreas de intervenção na cidade, em áreas como o urbanismo, a habitação, os transportes, a mobilidade, a cultura, a limpeza e higiene urbana, nós temos gente conhecedora, capaz, testada. A maior parte dos nossos candidatos, apesar de uma média etária relativamente baixa, já teve experiências no plano autárquico, seja na câmara municipal, seja em freguesias, seja na assembleia municipal. E creio que o projeto da CDU em Lisboa vale muito por essa equipa.

Desta vez optou por sair do Parlamento Europeu. Significa isto que podemos esperar da parte do João Ferreira um maior envolvimento na vida política nacional e especificamente dentro do PCP? Estaremos à beira de o ver assumir funções com maior visibilidade dentro do partido?
Eu considero que quando estive no Parlamento Europeu estive bastante na vida nacional. Não tenho o entendimento daquele lugar como uma espécie de exílio, pelo contrário. Durante os anos em que lá estive, foram 12, desempenhei aquele cargo muito ligado à realidade nacional. O mesmo acontece com o lugar que tive na CML, de vereador. Acontecerá também, se for vontade dos lisboetas que seja eleito presidente da CML.

Mas isso não significa, de algum modo, e é preciso recordar o último congresso, em que ascendeu até à Comissão Política do PCP, que há aqui uma progressão interna também por parte do João Ferreira?
É um exercício de outro tipo de responsabilidades...

Que pode antecipar outras?
Sim, de presidente da CML, se for essa a vontade dos lisboetas.

O atual Executivo, liderado por Fernando Medina, fez um entendimento com o BE durante este último mandato. Como é que avalia esse mandato e, já agora, pergunto-lhe se foi melhor para a CDU estar de fora? Há pouco dizia que agora é preciso ter mais votos para ter mais força para negociar, eventualmente, uma participação no Executivo. Mas olhando para estes quatro anos, foi melhor a CDU não fazer parte dessa solução?
Vamos por partes. Primeira pergunta, eu acho que foi positivo a perda da maioria absoluta por parte do PS, foi um desenvolvimento positivo. Ou seja, nós tivemos melhores condições nestes últimos quatro anos do que tínhamos tido nos anos anteriores para intervir, para fazer propostas, para ver propostas serem aprovadas. Isso envolve tanto aquelas forças que tiveram pelouros atribuídos, que fizeram parte da maioria de Governo da cidade, como aquelas forças, como foi o caso da CDU, que mesmo sendo de oposição, não abdicaram nunca de ser uma força de oposição construtiva. Há pouco falava-lhe em desenvolvimentos positivos que tivemos ao longo destes anos. Por exemplo, no domínio da habitação, se hoje existe em Lisboa um programa de arrendamento a custos acessíveis, o PAC, que prevê, entre outras coisas, a provisão de alguma habitação a custos acessíveis, por exemplo, na zona de Entrecampos, isso deve-se aquilo que foi também a intervenção da CDU, dos vereadores da CDU. Se hoje nós temos em Lisboa, numa área como a cultura, algo como um festival internacional literário, que vai projetar no plano internacional Lisboa, em articulação com escolas, com bibliotecas, com livrarias, com livreiros, a leitura e a literatura, isso deve-se à intervenção dos vereadores da CDU. Se nós hoje em Lisboa temos condições, por exemplo, no que toca ao desenvolvimento da rede ciclável, ao incentivo ao uso da bicicleta em segurança, deve-se também a medidas que a CDU propôs e que foram aprovadas pela CML. Se se entendeu em Lisboa, finalmente, ao fim de muito tempo, que eram necessárias formas de conjugar a atividade turística e o seu desenvolvimento com outras funções na vida na cidade e, portanto, introduzir alguma regulação traduzida, por exemplo, no plano do Alojamento Local ou da integração da noção de carga turística nos instrumentos de planeamento da cidade, isso deve-se à intervenção dos vereadores da CDU. Ou seja, são alguns exemplos, entre outros possíveis, que mostram como mesmo sendo uma força de oposição os vereadores da CDU não abdicaram de intervir de uma forma construtiva para responder a problemas concretos da cidade. Pergunta-me: bom, isso poderia ter sido feito tendo a CDU pelouros atribuídos, um papel direto na gestão no Governo da cidade, como já aconteceu, nos tais 12 anos de que lhe falei?

E qual é a resposta?
Creio que para a cidade seria positivo que isso acontecesse. Agora, acho que todos perceberam também que não podem esperar da parte da CDU uma aceitação de pelouros a qualquer preço. E se fizermos uma avaliação do que significaram estes quatro anos de uma maioria PS-BE, nós podemos constatar que à perda de maioria absoluta do PS não correspondeu tudo aquilo que poderia ter correspondido, porque o PS rapidamente encontrou um apoio para desenvolver no essencial o mesmo tipo de política, que cortou muito dessa margem que poderia ter sido aproveitada para procurarmos novos caminhos e novas políticas para Lisboa.

Repare, Lisboa teve nestes últimos anos orçamentos municipais que sistematicamente estiveram acima dos mil milhões de euros. No universo da câmara e empresas municipais, tivemos orçamentos sempre na casa de 1,3 mil milhões de euros. Não há nenhuma outra câmara que tenha ao seu dispor este volume de recursos. A resposta que foi dada a problemas concretos de todos os que vivem em Lisboa ficou muito aquém do que era possível se olharmos para estes recursos. Há um fracasso do ponto de vista das políticas de habitação a preços acessíveis.

As promessas não se cumpriram?
Nós tínhamos promessas que iam dos 5 mil fogos propostos pelo PS, aos 7 mil pelo BE, juntos propuseram casa para 25 mil pessoas a preços acessíveis. Nós ficámos muito longe desses objetivos, algumas poucas centenas de fogos a custos acessíveis e, portanto, ninguém espere ver na CDU a disposição para a troca da aceitação de pelouros depois esperar o caucionar de políticas que não têm respondido como era necessário a problemas da cidade.

Então o que é que é preciso?
O que eu lhe dizia há pouco, é necessário nós mexermos na tal relação de forças. Eu tive, há quatro anos, muita gente que se dirigiu a mim dizendo que via com pena a CDU, apesar de um resultado que na altura foi positivo, não ter entrado nos pelouros, na gestão municipal. A questão é que aquilo que é necessário, aquilo que vai determinar o papel que a CDU terá no Governo da cidade são os resultados. Neste momento, com esta relação de forças, não foi possível garantir as possibilidades de resposta a problemas das pessoas. Não foi possível garantir as condições de um desempenho autónomo, independente, com meios suficientes que permitam responder, fazer aquilo que é importante fazer-se na cidade. Não foi possível garantir essas condições. Se a CDU tiver mais força, creio que as coisas se movem, as coisas não são estáticas. Agora, este é um elemento decisivo. Quem gostaria de ver a CDU com responsabilidades no Governo da cidade só tem uma coisa a fazer, é dar força à CDU para que isso possa vir a acontecer. A nossa disponibilidade para isso existe, agora não o fazemos a qualquer preço. Se olharmos para o que foi o desempenho desta maioria nestes últimos quatro anos, se olharmos até para aquilo que tinha sido proposto e depois aquilo que foi feito, do ponto de vista do urbanismo, da habitação acessível, mesmo do ponto de vista de pelouros como as questões sociais, a educação, a cultura, deixa muito a desejar aquilo que foi feito, até em face dos recursos que estavam disponíveis. É possível fazer mais, é possível fazer melhor.

Quais considera que terão sido os erros capitais do executivo de Fernando Medina e o que é que teria feito de diferente nesta altura de uma crise pandémica?
Acho que há algumas lições a tirar desta pandemia e é importante que essas lições estejam presentes no desenho das políticas municipais para os próximos anos. Em primeiro lugar, uma lição óbvia, a importância dos serviços de saúde. Agora, isso tem que ter uma tradução prática para Lisboa. Nós temos em perspetiva neste momento, por exemplo, encerrar vários hospitais públicos na cidade, como o hospital pediátrico, o Hospital da Estefânia, e outros hospitais. Ora, a CDU já o assumiu antes, com a CDU isso não acontecerá. Ou seja, a construção de um hospital na zona oriental da cidade, que faz falta, que há muito tempo é necessário, que tem sido atrasada, não pode implicar a perda de capacidade do ponto de vista de hospitais públicos na zona central da cidade. Admitindo, todavia, que algumas unidades possam ver reorientada o seu perfil. Por exemplo, no caso da Estefânia não é possível enfiar um hospital pediátrico em dois pisos do novo Lisboa Oriental. Bom, é essa a vontade da atual maioria na câmara municipal. Deu o seu acordo ao Governo para que isso acontecesse. A mesma maioria que ao longo destes anos andou quase com uma política de favor a grupos económicos da área da saúde a permitir que se multiplicassem unidades privadas de saúde pela cidade. Nós precisamos de um SNS em Lisboa. De centros de saúde, de cuidados de saúde primários, de cuidados hospitalares e não devemos admitir o enfraquecimento dessa rede, só o seu fortalecimento, designadamente no que toca aos cuidados de saúde primários. Esta é a primeira lição que temos a tirar.

Há outras, então.
Sim. Nós percebemos com esta pandemia a importância de políticas como as de habitação, as de mobilidade e transportes públicos. Se nós olharmos para o mapa da epidemia em Lisboa, nós vamos encontrar uma concentração de casos não por acaso em zonas da cidade onde sabemos que há uma densidade de ocupação de fogos habitacionais mais elevada. Situações designadamente em bairros municipais, dos quais a câmara é proprietária, onde temos famílias muito numerosas num espaço pequeno. E se há uma lição que temos que retirar é que também temos de ter transportes públicos de qualidade, frequentes, cómodos, seguros e que permitam que as pessoas não viajem como sardinhas em lata seja no Metro, seja na Carris. E se alguma coisa esta pandemia fez foi derrotar uma certa visão neoliberal de cidade. Ou seja, ficou evidente a importância que têm os poderes públicos na organização, no planeamento da cidade, e no acorrer a situações de emergência também. Quando nós deixamos nas mãos do mercado o desenvolvimento da cidade, a cidade fica mais frágil. Uma das lições a retirar desta pandemia é essa necessidade de dar alguma escala humana à cidade, dinâmicas de organização da cidade que criem dinâmicas policêntricas, que criem várias centralidades. Nós precisamos de outras políticas urbanísticas que têm de ser participadas. Isso não tem acontecido em Lisboa, ou seja, têm de ser as pessoas e não o mercado, e não o promotor imobiliário, a dizer o que é que Lisboa deve ser em cada momento e em cada sítio.

E como é que pretende fazer isso?
Através de políticas de participação. Para já de planeamento. Nós temos um Plano Diretor Municipal (PDM) que, no essencial, liberalizou os usos do solo da cidade. Ou seja, em Lisboa acontece em cada momento e em cada local aquilo que o promotor imobiliário entende que deve acontecer. A cidade será o resultado da dinâmica do mercado. Ora, a função do planeamento não é essa. A função do planeamento é verter nos usos do solo da cidade aquilo que é a vontade, os anseios, os desejos, as aspirações das pessoas. E para isso, nós temos que fazer uma coisa, que é ouvir as pessoas. E ouvir antes de decidir, que foi uma algo que não aconteceu ao longo destes anos. Nós tivemos algumas discussões, como imagina, algumas animadas até, com responsáveis da atual maioria em torno das questões do planeamento e da participação pública. E algumas vezes fomos acusados de querermos fazer uma coisa que se chamou o planeamento de folha em branco. Mas é justamente o planeamento de folha em branco que tem que estar no início de qualquer processo de participação. Nós temos que, antes de decidir o que queremos fazer numa praça como o Martim Moniz, ou num Miradouro como o de Santa Catarina, ou num espaço verde como a Tapada das Necessidades, ou onde seja - e há necessidades de intervenção no espaço público diversas -, ouvir as pessoas e perceber o que é que desejam. Ou quando concebemos uma ciclovia, por exemplo.

Há que ouvir os lisboetas.
Temos de ouvir as pessoas, ouvir o comércio e, então, conceber as soluções que vão mais ao encontro das suas expectativas. E depois ao aferir as soluções construídas, há um segundo momento para ouvir a opinião também. Mas isto exige planeamento e exige verter em instrumentos de planeamento, como o PDM, planos de urbanização, planos de pormenor, aquela que é a vontade das pessoas e que são as necessidades da cidade. Nós não conseguimos conjugar as várias funções da vida na cidade deixando nas mãos do mercado o desenvolvimento da cidade. Repare, tornou-se moda, quase, e há aí um candidato que gosta muito de falar da cidade dos 15 minutos, tem um bocado a ver com aquilo que há pouco lhe dizia de criarmos novas centralidades na cidade. Ora, as cidades do ponto de vista europeu que estão mais avançadas na implementação desse conceito, foram as que levaram mais longe o combate a esta visão de que o mercado é que decide o que a cidade é. Pelo contrário, essas cidades tiveram, têm e estão a ter um fortíssimo protagonismo dos poderes públicos na definição do que a cidade deve ser. Inclusive com meios para adquirir propriedades, terrenos, edifícios que permitam aos poderes públicos fazer essa conjugação de funções, essa conjugação harmoniosa da habitação com os serviços públicos, com os equipamentos culturais, com o emprego. Isto exige que os poderes públicos assumam a sua responsabilidade e não seja o mercado a decidir.

Mas é uma crítica que está a fazer? Falou agora do candidato da cidade dos 15 minutos, que é Carlos Moedas, mas essa é uma crítica que está a fazer ao Executivo atual, que é socialista e apoiado pelo BE?
Quanto a Carlos Moedas não tenho dúvidas que ele entenda sequer o conceito de cidade 15 minutos. De outra forma seria ir contra muito daquilo que ele sempre defendeu e defende. Quanto ao que tem sido a atuação desta maioria, de facto não tem contribuído para essa conjugação harmoniosa. Ou seja, a revisão do PDM de que há pouco lhe falei foi uma revisão que resultou de um entendimento entre o PS e o PDS, e foi a tal revisão que resolveu liberalizar os usos do solo. É isso que faz com que hoje Lisboa, em grande medida, não só, mas também, tenha sido atirada numa voragem de especulação imobiliária que afasta da cidade muitos daqueles que aqui desejavam viver.

Embora Fernando Medida tenha feito a promessa agora de fixar em Lisboa famílias jovens, com filhos...
Não, já tinha feito há quatro anos.

Falhou, portanto, na sua leitura, já há pouco o disse.
Há quatro anos manifestamente. Cumprir essa promessa exige seguramente mais habitação a custos acessíveis por iniciativa pública. Mas exige mais do que isso, exige aquilo que eu lhe dizia, exige integrar nos instrumentos de planeamento da cidade essa visão que limita os usos do solo. Ou seja, nós não podemos ter, como temos tido nos últimos anos em Lisboa, mesmo em pandemia, projetos com uma enorme frequência a irem a câmara que em vez de habitação acessível preveem mais hotéis. O caso do quarteirão da Portugália. Tem uma percentagem maior de usos para hotel do que para habitação e menos ainda para habitação a custos acessíveis. Muitas vezes, o atual presidente de câmara o que diz é, bom, então mas querem que a câmara compre todo o solo da cidade? Não é isso, mas os poderes públicos podem, e devem, no exercício das suas funções de planeamento da cidade (e não há cidade 15 minutos sem isto) determinar que tipo de uso do solo deve ter lugar aqui, ali e acolá. Condicionar. Nós precisamos de integrar nos instrumentos de planeamento, por exemplo, o crescimento da oferta turística hoteleira, como se fez com o Alojamento Local. Nós precisamos de definir o tal conceito de carga turística e introduzi-la nos instrumentos de planeamento para conjugar o turismo, que é uma atividade importante, eu diria até fundamental para Lisboa, mas que tem de ser conjugada com as outras funções da vida da cidade.

Julga que não foi feito bem esse equilíbrio entre as outras atividades económicas e o turismo?
Isso é uma evidência. Lisboa viu ser fortemente erodida a sua base económica de desenvolvimento, aquilo a que muitos vão chamando a monocultura do turismo foi uma evidência, é uma evidência, no momento em que nós atravessamos uma pandemia e vemos a cidade despida de muito do que era a sua atividade económica. Mesmo depois com os desconfinamentos, a verdade é que vemos zonas da cidade, sobretudo nos bairros históricos e mais centrais, enfim, vítimas dessa monofuncionalidade, que resultou da política do tudo ao turismo.

Deixe-me voltar ao tema de atração de famílias jovens à cidade para lhe perguntar sobre a proposta de creches gratuitas que Fernando Medina prometeu até ao final do próximo mandato. Concorda com essa proposta?
O PCP fez essa proposta na Assembleia da República. Não se foi mais longe na garantia de creches gratuitas, avançou-se alguma coisa para pessoas de escalões de rendimentos mais baixos. Não se foi mais longe porque o PS não quis. Há sempre aqui um jogo em que o PS de um lado não quer uma coisa, quer no outro em alturas de campanha eleitoral. Depois nos quatro anos vamos ver se é como foi a promessa da habitação também. Creio que é necessário avançar nesse domínio, alargar a oferta de rede pública de creches e de jardins de infância. Acho até, é a minha opinião, que isso deve acontecer em Lisboa como deve acontecer em todo país. Agora, foi uma proposta que o PCP fez, se o PS estiver disponível para levá-la mais longe, ótimo. Mas eu registo, até com alguma satisfação, propostas que o PCP vai fazendo num plano mais geral e que depois acabam por ser reivindicadas no plano local. Como essa das creches por Fernando Medina. Já tinha acontecido um pouco a mesma coisa com os manuais escolares, que o PCP garantiu através da sua intervenção que hoje sejam gratuitos para todo o ensino obrigatório, e que alguns procuraram também reivindicar aqui em Lisboa como uma vitória sua. Mas isso só quer dizer que a nossa iniciativa, a nossa intervenção, vai no sentido correto.

Carlos Moedas disse que a Gebalis, responsável pelos bairros sociais da cidade, é uma empresa que tem de mudar, inclusive a sua gestão. É também essa a sua avaliação?
Eu faço uma avaliação um pouco mais rigorosa, não me prendo a chavões desse tipo. Ou seja, a Gebalis tem uma função, uma função importantíssima na vida da cidade. Nem sempre tem cumprido com a eficácia que nós gostaríamos a função que tem acometida, que é a gestão dos bairros municipais. Lisboa tem mais de seis dezenas de bairros municipais. A função da Gebalis é gerir esses bairros. Creio que são zonas da cidade onde reside uma parte muito importante da população de Lisboa, já foi muito próxima dos 20%, agora é um bocadinho menos. Mas, digamos, que um quinto ou perto de um quinto da população de Lisboa vive em bairros que são geridos pela Gebalis, e numa câmara que tem os recursos à sua disposição que eu há pouco lhe dizia, orçamentos anuais sistematicamente acima dos mil milhões de euros, acho que foi muito pouco aquilo que foi feito do ponto de vista da reabilitação de edifícios, de bairros municipais, da criação de maiores condições de conforto, por exemplo, do ponto de vista energético, na valorização do espaço público, na provisão de alguns serviços essenciais nas imediações desses bairros. Eu esperaria que a Gebalis tivesse uma intervenção mais notória, mais visível, desse ponto de vista, que fizesse uma gestão mais eficaz também do próprio parque habitacional. Nós continuamos a ter muitas queixas de necessidades de habitação que coexistem com fogos devolutos durante demasiado tempo. É certo que não podemos ter assim que há uma desocupação uma ocupação imediatamente a seguir. Muitas vezes são necessárias obras de reabilitação, preparar para quem vier a seguir. Agora, são processos que têm demorado mais tempo do que aquilo que seria desejável do meu ponto de vista.

Têm demorado demais?
Há aqui uma questão importante, que creio que vai ser importante para os próximos anos: Lisboa vai ter à sua disposição, para além dos recursos que teve ao longo destes anos e que não se prevê que venham a diminuir, os fundos europeus, um volume importante de fundos europeus. Esses fundos europeus vão ter um papel em áreas como a reabilitação de habitação e é importante não esquecer estas realidades que foram, de alguma forma, esquecidas ao longo destes últimos anos, ou que viram mesmo os investimentos que foram sendo feitos, e alguns foram sendo feitos, acabarem por se arrastar por muito mais tempo do que aquilo que seria desejável. E outros estão ainda por fazer.

A CDU tem criticado a Linha Circular do Metro. Também ainda esta semana se ouviram novamente as críticas ao aeroporto que está a crescer dentro da cidade. Nestes casos o que é que a CDU propõe e tenciona fazer?
A Linha Circular do Metro não serve a cidade, é uma solução pensada fundamentalmente em função do turismo e da especulação imobiliária. Aquilo que era prioritário, do nosso ponto de vista, era levar o Metro às zonas onde ele não existe, nomeadamente à zona ocidental, a ligação a Loures, a ligação entre Linha Verde e a Linha Azul, na coroa norte da cidade, prolongando a Linha Verde a partir de Telheiras até à Linha Azul, ou no Colégio Militar ou na Pontinha, criando outras opções de mobilidade. Quanto ao aeroporto, é uma questão incontornável no debate destas eleições. É uma questão incómoda para quem, como Fernando Medina, como o PS e mesmo o PSD, a solução que apontam implica a manutenção no aeroporto em Lisboa durante décadas.

É a solução errada?
Nós tivemos, e é importante que o tempo que estamos a viver, de pandemia, não nos apagasse esta realidade fundamental, há dois anos, em julho, mais de 20 mil aviões a sobrevoar as nossas cabeças a baixa altitude. Num mês foram mais de 20 mil aviões. Uma média próxima dos 700 aviões por dia. Isto além do risco que representa, medido na probabilidade da ocorrência de um qualquer acidente, que esperemos que não aconteça, mas este risco mede-se também na certeza de impactos na nossa saúde e no ambiente da cidade. A qualidade do ar deteriorou-se em Lisboa nos últimos anos, alteraram-se os padrões de distribuição de alguns poluentes. As zonas da cidade mais poluídas deslocaram-se. Não por acaso, estamos aqui bem perto de uma das zonas mais poluídas da cidade, este cruzamento entre a 2.ª Circular e o Eixo Norte-Sul, uma zona com alguns locais, bolsas de habitação bastante densas, com equipamentos públicos, como escolas. Ora, isto é indissociável desse fardo pesadíssimo, insuportável, que Lisboa continua a carregar. Nós temos de assumir de uma vez por todas, e eu creio que só a CDU o fez até agora, que é preciso libertar Lisboa deste fardo insuportável. Isso só é possível com a transferência, a substituição progressiva mas definitiva, do Aeroporto da Portela por um novo aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete.

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