A chave para solucionar a pandemia de Covid-19 pode estar no nariz

Há uma proteína no nariz que aparenta ter um papel fundamental no contágio pelo novo coronavírus. Em declarações à TSF, o professor Leonel Luís explica a importância desta descoberta.

O diretor do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria, Leonel Luís, considera que o estudo efetuado por investigadores da Universidade de Medicina Johns Hopkins, nos EUA, e publicado terça-feira pelo European Respiratory Journal, é mais um passo para perceber como o novo coronavírus afeta as células. A investigação dá também pistas para formas de tratamento e medidas de prevenção da doença.

O estudo revela que a ACE-2, uma proteína que existe na membrana da maior parte das células, muito especialmente nos pulmões, artérias, coração, rins, intestinos e também no sistema nervoso central, está muito presente no nariz, mais do que nos pulmões ou na traqueia, por exemplo.

Esta proteína é o ponto de entrada de alguns coronavírus, incluíndo o SARS-Cov-2.

No estudo realizado, explica o professor Leonel Luís, os investigadores demonstraram pela primeira vez que a proteína ACE-2 está presente não só na mucosa nasal (mucosa respiratória), mas também no neuroepitélio nasal, o que justifica o facto da infeção por este vírus provocar anósmia, ou seja, a perda de olfato, um sintoma em cerca de 85% dos que contraíram o vírus.

O que significa esta descoberta?

"É mais um passo, um pequenino passo, diz Leonel Luís, que acrescenta que "não é nada de totalmente revolucionário, já sabíamos muitas destas coisas. O estudo vem demonstrar pela primeira vez que o vírus consegue atingir o neuroepitélio, mas nós já inferíamos que isso acontecia, pelos sintomas dos doentes que perdiam o olfato".

O diretor do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria adianta ainda que também já se sabia que esta proteína era o termo de ligação para este vírus, pelo que "o estudo é mais um passo para sabermos todos os meandros usados pelo vírus".

Qual a importância da proteína Ace-2?

Nesta conversa com a TSF, Leonel Luís que é também professor associado convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), explica que "esta proteína é o local onde o vírus consegue ligar-se para entrar e infetar as células". "Os vírus não são totalmente autónomos, necessitam de seres vivos para se conseguirem reproduzir e a fechadura que usam para abrir a porta das células é esta proteína." Por isso, adianta, as células que têm esta proteína em maior quantidade são as que têm mais probabilidade de serem infetadas.

O médico explica ainda que "já se sabia que o nariz é uma porta de entrada do vírus", recordando que "é aí que estão a ser feitos os testes, não estão a ser feitos na expetoração, no sangue ou na pele". O vírus, diz ainda, atinge o sistema respiratório, mas a porta de entrada é a mucosa nasal e muito perto deste epitélio, com o qual conseguimos cheirar. Essas células têm mais recetores destes, "mais fechaduras destas", e, por isso, o vírus consegue afetar mais esta zona do nariz do que, por exemplo, o pulmão, os brônquios ou a traqueia.

Quem tiver mais esta proteína tem mais probabilidade de ser infetado?

É isso que acredita o otorrinolaringologista Leonel Luís, admitindo que ainda não existe uma evidência, porque ainda não existem estudos, mas é isso o esperado.

Leonel Luís explica que nos doentes que foram infetados são encontradas mais moléculas do vírus nesta zona nasal (neuroepitélio) do que na via respiratória mais terminal, ou mais do que na traqueia. "Onde há mais recetores, há mais vírus também", explica.

Uma das justificações da baixa incidência de casos em crianças, admite o médico Leonel Luís, pode ser o facto de as crianças terem menos "fechaduras" (menos proteínas ACE-2) - tendo menos "fechaduras" são menos infetados.

O diretor do serviço de Otorrinolaringologia dá outro exemplo: "os obesos, têm mais "fechaduras" ao nível pulmonar e, portanto, a probabilidade de terem um quadro clínico mais expressivo é maior. De uma forma muito simples, tudo isto faz sentido" conclui.

Perante o estudo, que medidas de prevenção se podem adotar?

Leonel Luís afirma que neste campo é tudo ainda muito especulativo, mas admite que "pode passar pelo típico duche nasal com água do mar ou soro fisiológico" que as pessoas estão habituadas a fazer às crianças para amenizar alguns sintomas nasais. Outra medida de prevenção "pode passar pela utilização a nível local de algumas soluções iodadas que são usadas para desinfetar topicamente outras zonas" e que, se calhar, diz o médico, "podem ser usadas numa fase inicial para tentar controlar a presença do vírus". Leonel Luís admite que "estas são medidas de prevenção totalmente especulativas, mas que o estudo permite imaginá-las como potenciais formas de, logo numa fase inicial, controlar a presença do vírus".

Será complicado encontrar tratamentos antivirais?

"É complicado porque o tempo está contra nós. De facto, tudo é simples de uma forma abstrata e teórica, mas depois, no terreno, conseguirmos respostas rápidas em dias, semanas, meses, é muito muito difícil", aponta.

O diretor do serviço de otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria diz que "tivéssemos nós tempo para pensar, estudar e organizar todos os tratamentos, obviamente, seria fácil". Leonel Luís sublinha que "até o desenvolvimento de uma vacina, é relativamente simples, agora contrarrelógio é tudo extraordinariamente difícil".

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

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