"A minha motivação é ajudar." Portuguesa testa vacina para a Covid-19 produzida pela China

Patrícia Fidalgo vive em Abu Dhabi e está a participar como cobaia no estudo da vacina chinesa. Em declarações exclusivas à TSF, diz que já tomou as duas doses previstas e sente-se bem.

Nos Emirados Árabes Unidos vivem pessoas de cerca de 200 nacionalidades. Terá sido esta uma das razões pelas quais o laboratório chinês Sinopharm escolheu estes territórios para aplicar a terceira de fase de testes da vacina contra a Covid-19. "Há tantas pessoas de tantas partes do mundo que somos uma boa amostra da população mundial", diz à TSF Patrícia Fidalgo, 49 anos, portuguesa emigrada em Abu Dhabi há seis anos.

A professora universitária é uma das 15 mil pessoas recrutadas para a terceira fase de testes através de uma campanha divulgada nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais pelas autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Patrícia "já tinha pensado que seria bom participar num estudo destes" e "poder contribuir de alguma maneira" para ajudar a que seja encontrada uma solução para esta pandemia que "está a causar sofrimento a tanta gente". Por isso, não hesitou quando viu a campanha: "Não podia ser melhor do que ser na cidade onde vivo", explica a voluntária para quem "a principal motivação é ajudar".

O processo foi simples e rápido. Um telefonema a oferecer-se, ir ao hospital no dia indicado, fazer testes físicos, uma consulta e uma entrevista com o médico. "Tem de se ser razoavelmente saudável e não se pode ter tido Covid", explica Patrícia. Com os critérios de seleção preenchidos, "passados dois ou três dias", a portuguesa foi chamada para iniciar o processo que prevê a toma de duas doses da vacina.

A 29 de julho, Patrícia recebeu a primeira inoculação "muito entusiasmada" e não teve efeitos secundários "praticamente nenhuns". "No local da picada dói um bocadinho se eu mexer o braço, mas nada mais". Contudo, quando quando chegou a casa, Patrícia sentiu "algum desconforto". Teve "receio" e vacilou: "Estive ali umas horas em que pensei para mim mesma: Meus Deus, o que é que eu fui fazer, onde é que me fui meter?". Apesar de poder desistir do projeto "a qualquer momento", a voluntária decidiu continuar. "Pus à disposição das pessoas o meu corpo, a minha saúde e em última instância a minha vida para testar um medicamento. E pensei: Mas caramba, se não houver voluntários nunca haverá vacina. Isto é para levar até ao fim".

A segunda dose foi tomada a 20 de agosto e Patrícia continua a sentir-se bem, sem registar efeitos secundários. Não sabe se tomou um placebo ou a vacina propriamente dita. Explicaram-lhe pouco sobre os aspetos técnicos do estudo. "O que me foi explicado é que esta é uma vacina com o vírus inativado que até agora, na 1º e na 2ª fase os efeitos secundários foram alguma febre, alguma vermelhidão no local e que, em poucos casos, algumas pessoas desenvolveram sintomas semelhantes ao da gripe. Não há muitos detalhes científicos em relação à vacina". Dentro de duas semanas, Patrícia vai fazer análises e então já poderá saber se está imune ou não.

Oficialmente, o estudo prolonga-se por 12 meses e implica consultas presenciais e teleconsultas. Sublinhando que pode desistir a qualquer momento, "sem nenhum tipo de consequências", Patrícia explica que o consentimento está permanentemente a ser renovado. "Cada vez que lá vou presencialmente explicam-me de novo todo o processo, perguntam se tenho algumas dúvidas, explicam-me todos os possíveis efeitos secundários e tenho que assinar o meu consentimento. O texto não muda, mas tenho de assinar para reforçar que eles me informaram. Eles sabem que o que está em causa é muito importante e fazem questão que as pessoas estejam sempre muito bem informadas".

E quanto a benesses, o que ganha quem está a servir de cobaia neste estudo? Patrícia Fidalgo garante que "os voluntários não são pagos". Aquando da segunda toma da vacina, a portuguesa recebeu apenas "pequenos mimos" como "uma t-shirt, um smartwatch e uns vouchers de valor relativamente pequeno para fazer compras no supermercado". Nada que pague o risco de oferecer o corpo à ciência: "Foi uma atenção, foi muito simpático da parte deles, mas está longe de ser considerado um pagamento".

O maior presente que a emigrante portuguesa quer é saber que está imune ao vírus da Covid e poder vir a Portugal no Natal visitar a família e os amigos. "Ficaria muito feliz, seria a melhor notícia para mim se daqui a 15 dias soubesse que tenho anticorpos e que estou imunizada", refere.

Até saber os resultados, a vida da professora universitária decorre com a normalidade possível em Abu Dhabi. Patrícia vai continuar em teletrabalho "pelo menos até janeiro", depois de um longo período de confinamento com "medidas muito rígidas" que incluíram "vários meses sem poder sair de casa à noite" e onde poucas pessoas desafiaram as medidas de distanciamento impostas ou uso obrigatório de máscara. "Faz parte da cultura das pessoas que as regras são para serem seguidas", lembra a portuguesa que vive em Abu Dhabi desde 2014.

Com cerca de 10 milhões de habitantes, os Emirados Árabes Unidos têm apostado numa política de testes massivos para controlar a doença. "O número de testes diários é absolutamente extraordinário, é acima dos 50 mil testes por dia", diz Patrícia Figueiredo elogiando as condições dos serviços de saúde em Abu Dhabi. "Tenho a sensação de que se adoecer, os cuidados de saúde que me vão ser prestados serão muito bons".

Quanto à situação em Portugal, Patrícia mostra-se preocupada: "A pandemia é a mesma, ainda não existe uma vacina nem uma cura. Como é que as pessoas regressaram a tanta normalidade na vida delas quando o risco é exatamente o mesmo que era há dois, três, quatro, cinco, seis meses?", questiona. Esta é mais uma razão para a portuguesa querer ver rapidamente resultados práticos da vacina que está a testar. "Fico contente por poder ajudar os outros", conclui.

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