Conta-me como foi. Como a telescola abriu uma janela para o mundo nas aldeias isoladas
Covid-19

Conta-me como foi. Como a telescola abriu uma janela para o mundo nas aldeias isoladas

Na escola do "encornanço", entrou uma caixa mágica e o ensino nunca mais foi o mesmo. A telescola era um admirável mundo novo para professores e alunos.

"Foi uma experiência extraordinária", conta à TSF o professor Fernando Elvas. Entre 1971 e 1975 chegava à sala de aula, ligava a televisão e acompanhava as aulas, ajudando os alunos, pela primeira vez, a estudar com recurso a imagens e sons.

Aulas outrora "expositivas", em que os alunos se limitavam ao "encornanço", a decorar a matéria dos livros ou debitada pelo professor, transformaram-se em aulas dinâmicas. "Na telescola nada era feito que não se apelasse à compreensão através do meio audiovisual."

Mesmo que vivessem numa aldeia da Beira Baixa, como era o caso das turmas do professor Fernando Elvas. Graças à televisão os alunos podiam ver o castelo de Guimarães nas aulas de história, por exemplo, ou aprender palavras como "ascenseur", em francês, enquanto viam pela primeira vez o que era, e como funcionava, um elevador.

Os resultados eram tão bons que ao chegar ao secundário, muitas vezes, os professores da cidade perguntavam aos alunos se tinham estado em França, conta Fernando Elvas. "Não, estive na telescola", era a resposta.

A telescola foi pioneira de métodos de ensino modernos, considera Fernando Elvas. "Na matemática tradicional não sabíamos de onde é que as coisas apareciam, só eram decoradas." Com a telescola era mais fácil explicar de onde vinham as fórmulas e como as usar para calcular o volume ou a área. E também mais eficaz para recordar a matéria aprendida.

O ensino através da televisão era uma forma de chegar a todos, num país de aldeias isoladas. Tal como o programa Estudo em Casa, que esta segunda-feira arranca na RTP, é uma forma de chegar aos alunos confinados devido ao novo coronavírus.

"Era uma forma nada chata, nem aborrecida, das crianças estarem sentadas numa cadeira", sossegadas, a ouvir a aula. "Era um processo dinâmico", diz o professor. O antigo aluno António Vieira concorda.

Interrompemos a telescola para uma notícia de última hora...

Na televisão, ainda a preto e branco, António Vieira, tinha então 11 anos, assistia às aulas com prazer, mas ficava especialmente entusiasmado quando as emissões em direto eram interrompidas.

"Na altura das viagens da Apollo à lua aquilo era um festim", recorda. No regresso ao planeta Terra, as cápsulas "amaravam por volta das 7h00 nos Estados Unidos, que eram 15h00 em Portugal, então as aulas eram interrompidas. Vimos todas as amaragens das missões Apollo, fartámo-nos de ouvir o José Mensurado."

Com estreia em 1965, a Telescola dirigia-se apenas a alunos que queriam fazer o 5.º e 6.º anos, já que a maioria dos portugueses deixava de estudar quando saía da "Primária", o 1.º ciclo.

António Vieira pagava cerca de de 120 escudos para frequentar a telescola no quinto e sexto anos de escolaridade, enquanto as aulas no colégio da vila mais próxima custavam 500 escudos, fora deslocações.

"Tivemos muito bons resultados", garante Fernando Elvas. Em cinco anos de ensino como professor monitor da telescola, em turmas com mais de 20 alunos, só contou duas reprovações.

O professor acompanhava e completava as aulas de português, matemática, francês, história, ginástica, trabalhos manuais e educação visual, moral e religião transmitidas na televisão, e até quando os alunos iam a exame se recorriam às novas tecnologias.

Em dia de avaliação final chegava à escola na aldeia um gravador com as perguntas e as respostas dos alunos eram gravadas e enviadas o Centro Coordenador dos programas e suportes da telescola, em Vila Nova de Gaia.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A COVID-19

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de