Celebração Navaratri
Religião

"Ele é um avatar de amor." A comunidade hindu do Porto que adora o guru de Rui Patrício como deus

Impera o silêncio. Frente a um altar privado, ajoelham-se um a um, e as cores dos saris são como um ponto colorido a desviar as atenções de uma explosão de matizes. Parou a música, mas é ainda como se reverberasse entre paredes, onde o ar é todo perfume de rosas, incenso e velas que ardem. Ouvem-se pássaros a chilrear na varanda do prédio antigo, praticamente justaposto à baixa do Porto. Há muito tempo que não estavam assim, a comemorar a fé em uníssono, no mesmo espaço. Esta é a festividade que os traz de volta.

Vergam-se porque é preciso que as divindades os vejam, que lhes reconheçam a reverência. Esta é uma história de devoção, de que a celebração Navaratri ocupa apenas nove noites, dedicadas à vitória do lado feminino sobre o orgulho e, mais concretamente, a Durga, que, no hinduísmo, é a mulher de Shiva. Ou, por outra, a maior representação da clemência a deus. A estes devotos não são pedidos jejuns de vários séculos, mas o culto é custoso, exige pesquisa e estudo.

As celebrações são feitas em sânscrito, uma língua morta das escrituras clássicas religiosas da Índia. Sucedem-se cânticos e uma associação entre gestos e mantras provenientes de várias escrituras. "Eu ofereço", dizem os devotos com os seus meneios. As oferendas destinam-se, em primeiro lugar, a Swami Vishwananda, um guru à imagem e (muita) semelhança de Vishnu, um dos deuses principais do hinduísmo constituintes da tríade sagrada, que usa cabelos longos, negros e aos caracóis, atirados para trás das costas. Vishwananda é um vulto ausente cujo retrato é posicionado sobre uma cadeira majestosa e também numa parede, à esquerda.

"Todas as nossas orações começam por ser primeiro a ele. Nós entendemos que ele é o nosso intermediário. Intermediário não é propriamente a palavra correta... Na cultura hindu, o guru é deus." É José Pedras, o devoto que inaugura as festividades, com o sopro de um búzio, que o esclarece. Quando o reconhecem enquanto guru e mestre, o ser que "alcançou o estado de iluminação" ascende ao estatuto de deus. "Qualquer pedido que nós façamos fazemos sempre primeiro ao nosso mestre, e qualquer dos rituais que nós fazemos é sempre feito segundo as suas orientações."

O grupo de sete pessoas sente-se "em casa" e não se vê emaranhado nas camadas e nos detalhes que tem de imprimir ao cerimonial. "Na Índia, há um lado muito kitsch", diz José Pedras, referindo-se à cor e à abundância que o cerca. Há rosas e panos vermelhos, plumas, pavões e divindades, e uma estátua de deusa em roupa de banho, a que são entregues todos os elementos: o leite, o iogurte, a manteiga clarificada, o mel, o açúcar e uma mistura de todos os componentes, num gradiente que vai desde o mais perecível ao mais durável e que representa o caminho do ser humano.

O grau de entrega vai sendo noticiado de outras formas. José Pedras revela que, para se converter à "religião eterna" - a que nunca começou e não tem um fim -, teve de aprender sânscrito, tem de conhecer todos os rituais, fazer uma prática espiritual diária, não comer qualquer animal, não consumir álcool nem drogas. "Não nos é permitido esse tipo de coisas, graças a Deus..."

Hoje, o homem que é José Pedras e as circunstâncias que o fizeram afastam-no de uma identidade a que chama de civil. Por isso, declara, de frente para o grupo: "Enquanto hindus, é estranho vermo-nos com estas cores pálidas. Há um ano conhecemos um santo na Índia que nos disse: 'Vocês não são europeus, vocês já foram indianos, por isso é que se reconhecem agora como hindus. Vocês só nasceram lá para poder propagar os ensinamentos do vosso guru.'"

José Pedras, 46 anos, não tinha ideias de andar de joelhos quando, há cinco anos, foi até Fátima para conhecer Swami Vishwananda, um homem originário das ilhas Maurícias que vive na Alemanha e que ficou conhecido em Portugal por, na altura do Euro 2016, ter surgido ao lado do guarda-redes Rui Patrício.

Depois, acabou por capitular; garante que por força das dores que sentia no corpo. "Temos uma ideia de que Deus só faz coisas boas, não é? No hinduísmo isso não existe, Deus faz tudo." Como escreveu o homem que José Pedras reverencia, "para nos tornarmos num instrumento, temos de nos entregar". Agora devoto hindu, rememora que a pequena comunidade começou quando resolveu criar um altar pessoal, que rapidamente cresceu e passou a templo privado. "Como elas sabiam que eu fazia as orações aqui, começaram a juntar-se..."

"Há dois anos tivemos a sorte e a bênção de o nosso mestre ter estado cá. Esteve sentado naquela cadeira. Normalmente, é só a fotografia dele que ali está. Foi um momento muito importante para nós, para assegurar a nossa fé e que, quando nós pedimos muito, ele concede." É nisso que acreditam o único homem e as seis mulheres que se reúnem para celebrar o culto hindu. Por Vishwananda, já foram até à Alemanha, onde um retiro espiritual conduzido pelo mestre pode custar mais de dois mil euros.

Há devotos do mundo inteiro em torno deste guru que terá atingido "a iluminação". De acordo com Swami Vishwananda, há, neste momento, em todo o mundo cinco mestres supremos. "Ele não divulga quais são", admite José Pedras, que lhe reconhece a capacidade da "visão do divino", que consiste em "olhar para as pessoas, reconhecer as almas delas e fazer-lhes limpezas". Neste momento, é feita online. No site português do Bhakti Marga, a página para inscrição em atividades lideradas por Swami Vishwananda, há opções que vão desde ioga e meditação à dita "visão do divino". Algumas exigem o pagamento de mais de uma centena de euros, outras são gratuitas, mas sem esquecer a menção ao "donativo bem-vindo".

"Ele é um avatar de amor, uma encarnação de amor. Está a criar uma ordem de linhagem para que toda a gente possa ser aceite." Para José Pedras, o guru das Maurícias é digno de todos os elogios. "Ele fazia-nos a visão do divino uma vez por mês. Agora está a ser feita online todas as semanas. A ideia de ter alguém que sabe melhor do que eu qual é o caminho descansa imenso, porque eu não tenho de conduzir. Conduz ele."

"Porque confiamos nele"

"O meu nome civil é Carolina [Vishwananda atribui aos seus devotos um novo nome, de tradição hindu], tenho 41 anos, e sou professora de Genética." É desta forma que Carolina Lemos se apresenta à TSF. Foi há dois anos que mudou de vida, também pela mão do guru que, diz, orienta as suas vidas, mesmo que à distância. "Sempre achei que faltava qualquer coisa que não tinha ainda encontrado. Comecei a pensar: 'Se calhar isto é aquilo que eu tanto procurava.'"

Depois da viagem à Alemanha, cessaram em Carolina Lemos todas as dúvidas. Diz não saber explicar por que reconhece o homem, por arte de retrato omnipresente, enquanto mestre. "Devíamos todos conhecer o guru. Por palavras jamais conseguirei descrever o que senti. Acho que foi a maior sensação de liberdade que eu já tive."

Uma mulher das ciências, a devota não vê atritos entre esta crença que adotou e o método científico das suas aulas, nas quais questionar é o primeiro passo para o conhecimento. "Não tem de haver incompatibilidade, é perfeitamente compatível para mim." E a tranquilidade nas suas palavras tem uma razão simples: "Porque confiamos nele."

Inês Braga, estudante de Psicologia, de 21 anos, também descobriu uma "nova identidade" quando, em 2019, rumou à Alemanha para conhecer o intitulado mestre. "A minha mãe já estava neste caminho desde 2016, quando conheceu o guru..."

"Passei por um período mais complicado da minha vida, e comecei a criar uma ligação com o guru e a perceber que dessa relação saía uma forma de estar e uma força que não tinha encontrado em mais nada", desvela.

Questionada sobre o processo de autoconhecimento que a psicologia por si só providencia, Inês Braga atira: "Um psicólogo pode auxiliar alguém a encontrar o caminho. Quando falamos de um guru, é alguém que sabe melhor do que nós qual é esse caminho. É alguém que está lá, que nos coloca as bênçãos e os obstáculos para o percorrermos, a um nível sobre-humano."

No caminho que agora percorre, como uma pessoa que não é "a mesma" de outrora, diz "perceber que tudo o que está no nosso caminho foi colocado por ele, seja bom ou mau", e que tem "uma família espiritual". Uma família ou comunidade de olhos postos num homem que, de um ponto no oceano Índico, desafia a escala humana.

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