"Há um despertar." Desilusão política leva cada vez mais jovens à maçonaria

Lisboa recebe este fim de semana o maior encontro anual da maçonaria liberal em Portugal.

A capital portuguesa recebe, este fim de semana, o maior encontro anual da maçonaria liberal em Portugal. O local é secreto, tal como ainda são alguns dos rituais, regras e simbolismos das obediências maçónicas. A juventude como motor de mudança será um dos temas discutidos no encontro deste fim de semana.

Pedro Rangel é maçom e faz parte do CLIPSAS - Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo, que está a organizar o encontro. À TSF conta que há cada vez mais jovens a aderir a este tipo de organizações que, apesar desta tendência, ainda são bastante envelhecidas. Procuram a maçonaria por estarem desiludidos com a política.

"A faixa etária da obediência Grande Loja Simbólica de Portugal é muito jovem, na volta dos 30/40 anos em termos médios. É um case study na maçonaria europeia, mas de facto há outras obediências em que a faixa etária é bastante mais elevada. A juventude, nomeadamente no campo universitário, tem uma grande atração por estes valores e princípios que defendemos, que são universais. Cada vez mais as pessoas estão afastadas das atividades políticas e há um despertar para este tipo de áreas. Há uma geração muito jovem a entrar na maçonaria", explicou Pedro Rangel.

O politólogo e maçom José Adelino Maltez também já deu conta desta tendência, mas ressalva que não há estudos significativos que abranjam todas as organizações maçónicas portuguesas.

"Em Portugal há três estruturas relativamente grandes: a Grande Loja Simbólica, do Pedro Rangel, a Grande Loja de Portugal e o Grande Oriente Lusitano. Depois há muitas outras. Ainda na semana passada fazia contas e havia 20 obediências. Neste momento há uma grande dispersão. Claro que há muita juventude e ela curiosamente aparece quando há uma campanha antimaçónica. Há, mas não é o suficiente para poder dizer que a estrutura está rejuvenescida, falta muito", afirmou José Adelino Maltez.

O especialista também concorda que a principal razão por trás do interesse de cada vez mais jovens pela maçonaria é o desinteresse pela política. Na opinião do politólogo, há um problema clássico no associativismo em Portugal: os portugueses têm muita dificuldade em manter instituições da sociedade civil, como é o caso dos partidos políticos.

"As grandes organizações, nomeadamente as partidárias, não são atraentes porque são sistemas quase fechados onde os que lá estão andam sempre em lutas internas e têm modelos ultrapassados porque as próprias organizações de juventudes dos partidos são ainda mais fechadas do que as velhas. Em Portugal estamos muito agarrados a modelos dos anos 70, quando em França, por exemplo, a política já não se faz tanto só em partidos mas também em clubes políticos. Em Portugal, esse tipo de experimentação não tem vindo a ser feita, embora hoje já se note alguma coisa porque os partidos começam a admitir a existência de associações para fins muito específicos, como a organização de colóquios, etc.", justificou o politólogo.

Poder da maçonaria sobre a política? "Não passa de uma lenda"

Em 2012, o Diário de Notícias dava conta de que, na Assembleia da República, nove em cada dez deputados estavam ligados à maçonaria. Mais recentemente, no ano passado, o presidente do PSD, Rui Rio, acusou o PS de obedecer à Maçonaria depois de os socialistas se oporem à proposta de os políticos serem obrigados a declarar todas as associações a que pertencem. No entanto, José Adelino Maltez garante que o poder da maçonaria na política não passa de uma lenda que veio à baila por causa de Rio.

"Não passa de uma lenda neste momento porque os objetivos da maçonaria não têm a ver com política. Tudo o que conheço de maçonaria, destas 20 obediências e lojas, têm militantes partidários, mas de vários partidos e vamos para ali para não discutir o que discutem no partido. Não pode haver influência da maçonaria porque cada maçom tem o seu partido e juntam-se na maçonaria, mas não é para continuarem a atividade partidária, de que muitos estão fartos. Não conheço nenhuma estrutura maçónica que não seja plural em termos partidários", garantiu o maçom.

Além disso, considera que esta tentativa de fazer uma lista de maçons, por parte do Estado, é "ridícula".

"Todos sabem quem são, qualquer um pode dizer que o é, mas não gostamos que entrem cá em casa, ninguém gosta de ser devassado e espiado. Não é fácil haver uma transmissão televisiva de uma cerimónia maçónica, todos sabem o que é, mas ali não entram", sublinha.

Tal como o poder sobre a política, o secretismo que envolve a maçonaria também vem sendo cada vez menor com o passar dos anos, segundo o maçom. Os rituais e significados dos símbolos estão espalhados pela internet, para todos os que quiserem ver. Atualmente até é possível manifestar-se a intenção de aderir à maçonaria por e-mail, mas o mistério, esse, vai sempre existir por ser uma entidade iniciática.

"A atividade iniciática, aquilo que caracteriza a maçonaria e tem a ver com mistérios antigos, pode parecer estranha aos olhos de quem pensa que a vida não tem segredos organizacionais, mas essa é que é a beleza do ato. Não é um ato religioso, mas de teatro espiritual e isso continuará sempre a existir. Têm as suas cerimónias como têm desde 1717 e faz-se em Portugal exatamente da mesma maneira do que na Índia, Indonésia ou nos EUA", disse José Adelino Maltez.

Maçonaria em Portugal está de boa saúde? Opiniões dividem-se

Enquanto Pedro Rangel, do CLIPSAS, defende que a maçonaria em Portugal está de boa saúde, com as pessoas a terem uma necessidade cada vez maior de encontrar "um caminho espiritual e de livre pensamento que não têm noutros fóruns, sejam políticos ou sociais", José Adelino Maltez pensa o contrário.

"Portugal não está de boa saúde moral e cultural, como é que a maçonaria pode estar de boa saúde? Estamos como está a sociedade portuguesa, num momento complexo e difícil de certos valores fundamentais: liberdade, igualdade e fraternidade. Além disso estamos em guerra. Como é que podemos estar de boa saúde? Quem acredita nesses valores terá muito trabalho para fazer e não será durante a sua vida que esses valores vão fortificar, mas pelo menos há a consciência de que estes valores não são repartidos por todo o mundo", acrescentou o politólogo.

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