Indemnizações insultuosas? "Adjetivo não foi o melhor." Patriarca de Lisboa recusa resposta "ambivalente"

Manuel Clemente reconhece um erro de linguagem na forma como se referiu a possíveis indemnizações às vítimas de abusos sexuais, mas defende que fez "apenas eco" do que tinha ouvido da comissão independente.

O Cardeal Patriarca de Lisboa rejeita a acusação feita pelo coordenador da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa de que a reação da Igreja ao relatório sobre abusos foi "ambivalente".

Ouvido pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República, Manuel Clemente afirmou que até pode haver discussão, mas depois de tomada uma decisão pela Conferência Episcopal, "não há ambivalência".

Esta tarde, o coordenador da comissão, Pedro Strecht considerou que a reação da igreja ao relatório foi "evolutiva, mas muito ambivalente e, a partir de determinada altura, eu acho que beneficiou do efeito do próprio grupo em geral, porque eu também acho que depois houve senhores bispos que perceberam que se não participassem, como outros estavam a participar, seria difícil para eles próprios assumir isso perante o público em geral".

Na resposta, Manuel Clemente indicou que se Strecht se referia "a que nem todos agimos e reagimos imediatamente da mesma maneira, que temos ou não temos todos a mesma sensibilidade, que temos ou não temos todos a mesma estratégia em relação aos casos", então tal é apenas "humano e também aconteceria" na sala onde decorria a audição "em relação fosse ao que fosse".

"Agora, no que diz respeito às posições que nós tomamos no plenário da assembleia da Conferência Episcopal (CEP) e que depois a presidência da CEP leva por diante, em relação a isso, meus amigos, não há ambivalência", garantiu.

Já quando questionado sobre as declarações em que afirmou que indemnizar as vítimas de abusos sexuais na Igreja seria insultuoso para as próprias, Manuel Clemente defende que fez "apenas eco" do que tinha já sido defendido por Pedro Strecht.

"E o que é que ele nos tinha dito? É que nenhum dos queixosos pediu ou falou em indemnização e ​​​​ligar a questão da indemnização pecuniária à atitude que as pessoas tiveram, de desabafar, poderia ser insultuoso por causa delas não terem querido ligar", explicou o patriarca, reconhecendo não saber "se o adjetivo foi o melhor".

Manuel Clemente garante também que não está, "de maneira nenhuma, restringido qualquer tipo de apoio a qualquer vítima que seja", especificando que, em Lisboa, há um acordo com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), "que está mais do que treinada - passe o termo - para resolver situações destas".

Já o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, José Ornelas, ouvido também em audição no Parlamento, assumiu que a Igreja Católica não está acima da lei, e que, se a Justiça determinar, irá indemnizar vítimas.

"Sendo um termo jurídico, na medida em que houver um processo de indemnização, não estamos acima da lei e vamos, de facto, cumprir a lei, aquilo que for determinado", garantiu, admitindo, contudo, que nem todos os casos "entram no campo jurídico", e também que, para que clérigos sejam afastados pela Igreja, as denúncias feitas têm de ser "plausíveis".

Questionado ainda sobre a questão do segredo de confissão, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa reafirma que ele é inviolável, porque "pertence a Deus" e não ao padre a quem é revelado.

"O segredo da confissão é algo que uma pessoa pode ter a certeza de que, falando (...) para encontrar luz e perdão, isto não vai sair dali. Se não, baralhávamos tudo (...). Isso não vai mudar", assegurou.

Uma posição partilhada pelo cardeal patriarca de Lisboa, que, ouvido antes, reiterou que o segredo da confissão é "absoluto" e que os padres não podem denunciar abusos que lhes sejam revelados em confissões, mas apenas aconselhar as vítimas a fazer a denúncia às autoridades.

Esta tarde, Pedro Strecht tinha realçado, por outro lado, a importância da revisão do segredo da confissão, notando que "está prevista, também, noutras estruturas profissionais, incluindo a dos próprios médicos, quando há questões que se sobrepõem".

Notícia atualizada às 20h45

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