O barranquenho já tem proteção. Agora falta quem o ensine e quem o mantenha original

Foi no final de novembro que o Parlamento aprovou, por unanimidade, uma lei para proteger a identidade cultural do dialeto. No concelho, poucos o falam na sua versão original. O futuro pode passar pelas escolas, mas surge outro problema: se ainda vive nas bocas de poucos, que tem a arte de o passar aos próximos?

A Barrancos chegou, este domingo, uma notícia que terá sido celebrada em português, mas também em barranquenho. Este dialeto próprio do concelho, que faz fronteira com Espanha, viu ser aprovado a 26 de novembro, por unanimidade no Parlamento, uma lei que o reconhece e protege, num esforço para salvar a sua identidade cultural.

O barranquenho, usado sobretudo em contexto de contrabando, foi caindo em desuso e quase só os mais velhos ainda o falam. O maestro Roque Nunes, da sociedade filarmónica que é já centenária, confirma na antena da TSF que os jovens "falam pouco".

Nas idades mais avançadas - nas faixas dos 60, 70 ou 80 anos - "fala-se espanhol, não falam barranquenho". Anda agora pelas bocas de quem tem à volta de 50 anos, que fala "entre o barranquenho e o espanhol".

Mas também anda pela sala de ensaios da banda, onde "80% das vezes" ainda se fala barranquenho, por exemplo, para corrigir um compasso que não soa como devia. O maestro Roque Nunes partilhou com a TSF a que soa um reparo nesses termos:

A tradição do dialeto tem sido a oral. O presidente da câmara, Leonel Rodrigues, vai utilizando o que sabe nas conversas com os amigos, mas das escolas não devem sair muitos mais falantes formados de forma mais tradicional. "Fala-se barranquenho nos corredores, fala-se nos intervalos, mas essa questão não se ensina, é oral e aprende-se sobretudo no contacto com os pais e os colegas", explica o autarca.

Está previsto que o barranquenho passe a fazer parte das atividades extracurriculares e surja, à boleia da nova lei, noutras iniciativas. Na escola de Barrancos, garante Leonel Rodrigues, só não o fala quem não é do concelho.

A autarquia quer avançar com um "centro de interpretação e conhecimento do barranquenho" e está a pensar utilizar o dialeto nas "legendas da informação turística" para criar maior familiaridade. "Há também a questão da gravação da oralidade do barranquenho, com pessoas que o falam realmente, mais idosas", para proteger e guardar os seus sons. Mas falta quem o ensine.

"Está a ser muito difícil manter o barranquenho"

O problema é identificado pela presidente da junta de freguesia de Barrancos, Idália Pica, que confessa que gostava muito que o dialeto fosse de facto ensinado. "Qualquer coisa que seja ensinada na escola tem de ter uma gramática", assinala. E como é a gramática barranquenha? "É difícil, muito complicada." Para as crianças "seria muito complicado ler aquilo". Ainda assim, "seria bonito".

Mas quem podem, então, ser os herdeiros do barranquenho? Idália Pica admite que está a ser "muito difícil" mantê-lo porque os novos "vão estudar fora" e os mais velhos "vão morrendo".

Assim, manter o barranquenho de "antigamente" torna-se uma missão complicada. "A minha filha tem 11 anos e já não fala como falava o meu avô, a minha mãe e o meu pai", lamenta a presidente da junta de freguesia.

As crianças em Barrancos estão a "perder o hábito" de falar o barranquenho e até quem o fala se vê obrigado a adaptar o dialeto ao interlocutor. Aos microfones da TSF, Idália Pica admite que falar com outro barranquenho "é completamente diferente".

"Talvez numa conversa comigo e com um barranquenho o meu barranquenho também seja diferente." Caso contrário, é preciso fazer um esforço para que quem ouve, sendo de fora, consiga perceber.

Ou seja, para ouvir falar barranquenho, nada melhor que ir a Barrancos. E foi precisamente isso que a TSF fez.

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