Pandemia piorou capacidades cognitivas e memória dos idosos

Investigadora admite que não esperava efeitos tão fortes em poucos meses. Estudo só avaliou os efeitos do isolamento na primeira vaga da pandemia.

As medidas de isolamento provocadas pela pandemia de Covid-19 diminuíram de forma muito mais acelerada a autonomia, mas também as capacidades cognitivas e funcionais dos idosos que não vivem em lares, com aumentos drásticos das queixas de perda de memória.

Estas são algumas das conclusões de um estudo feito por uma equipa da Universidade de Coimbra que tentou avaliar o impacto da pandemia sobretudo no bem-estar físico e psicológico de idosos, especialmente no desenvolvimento de psicopatologia e no risco de declínio cognitivo.

A investigação, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), seguiu cerca de 150 adultos com mais de 50 anos, em grande parte idosos e respetivos cuidadores, tendo a vantagem de serem pessoas que já eram acompanhadas antes pelos autores do estudo.

Mais lentos

Por agora, só foram avaliados os primeiros meses da pandemia, a chamada primeira vaga, e mesmo assim notam-se mudanças significativas, como explica Sandra Freitas, coordenadora do trabalho feito no Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Os efeitos cognitivos surgiram tanto em homens como em mulheres: "Os domínios que encontrámos afetados foram a 'velocidade de processamento', ou seja, idosos mais 'lentificados', com menor capacidade de processar a informação envolvente."

Depois notou-se uma redução da chamada "memória de trabalho", o que significa, na prática, "não ter presente a informação que preciso para a tarefa que estou a desempenhar, numa espécie, segundo a linguagem comum, de menor concentração".

Queixas de memória

Por norma, "não é expectável que num espaço de tempo tão curto, como a primeira vaga da Covid-19, exista alteração cognitiva, mas ainda assim o estudo verificou um aumento drástico das queixas subjetivas de memória: os idosos sentiam-se mais esquecidos, mais confusos e depois confirmámos que esta perceção dos próprios era exata em alguns domínios e funções cognitivas", num conjunto de conclusões que leva Sandra Freitas a ter receio "sobre o impacto que longos períodos de isolamento, ou a sua repetição, pode ter sobre os idosos portugueses".

Por outro lado, ainda na área cognitiva, há registo de uma maior dificuldade de "resolução de problemas, de planeamento e de monitorizar" aquilo que o próprio quer fazer, tendo-se notado uma perda de capacidade funcional" dos idosos, ou seja, perda de autonomia em questões básicas como a higiene, alimentação, bem como compras, medicação ou assuntos financeiros.

Interação social era protetora

Problemas causados pela pandemia numa faixa etária em que as alterações de rotinas e as readaptações do dia a dia são muito mais difíceis, sabendo-se que "a interação social [que diminuiu com a pandemia] é, por norma, altamente protetora".

As restrições impostas na primeira vaga levaram grande parte dos idosos a "delegar a terceiros" tarefas que antes faziam na rua o que criou a referida falta de independência e de autonomia que depois é mais difícil de voltar a ganhar.

"Num idoso é muito mais lento o retomar de uma rotina ou o voltar àquilo que era a atividade prévia pré-pandemia pois as aptidões nos idosos são menos elásticas", detalha a investigadora.

Sandra Freitas sustenta as conclusões a que chega com o estudo que coordenou na Universidade de Coimbra, mas também com a sua prática clínica que lhe mostra que "as pessoas mais idosas tiveram um declínio muito significativo durante estes primeiros meses de pandemia".

Muitas das consequências, sobre a saúde mental dos mais velhos, só se vão notar, completamente, mais tarde.

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