Pressão na mola. O pior ainda não passou, mas é bom ter uma curva achatada

Os números apontam para o "achatamento da curva", mas os especialistas dizem que ainda é cedo para tirar conclusões e lembram que o distanciamento social continua a ser a melhor resposta à pandemia.

"Estamos a subir a curva, ainda estamos em ascendência, mas não é exponencial nem abrupta. Temos tido uma ascendência aplanada, mas não sabemos quando vai ser o pico", afirmou a diretora geral da Saúde. E esta última parte da frase de Graça Freitas, diz que tudo.

Ninguém se consegue comprometer, neste momento, com um calendário. Na passada quarta-feira tinha sido do secretário de Estado da Saúde pôr água na fervura. Questionado sobre se o pior já passou? António Lacerda Sales lembrou que "o grau de incerteza é grande" e lembrou que "nos últimos dias tem havido um abrandamento dessa tendência, mas é ainda cedo para tirar essas conclusões", concluiu o governante.

O que dizem os números?

"O que nos interessa neste momento é sobretudo saber o número de doentes que temos por semana para termos a certeza de que os conseguimos tratar adequadamente", afirmava esta quinta-feira Graça Freitas. Mas como é que isso se faz? Recorrendo à curva pandémica ou epidemiológica, como também pode ser chamada.

Portugal tem assistido desde o dia 25 de março a um abrandamento do aumento percentual diário de novos casos de Covid-19, segundo dados divulgados esta quinta-feira pelo Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP).

Carla Nunes, investigadora da ENSP, explica que essa redução do percentual diário de novos casos situa-se entre 7% a 20% (média de 15,7%), bem diferente dos valores das semanas anteriores, cujas percentagens tinham médias de 24,8% e 407%".

Os investigadores do projeto do Barómetro Covid-19, um projeto de investigação que acompanha "passo a passo" a evolução da pandemia em Portugal, apelam, em comunicado, para que haja "cautela na interpretação destes dados", uma vez que "a análise da evolução das curvas espanhola e italiana também tem tido um abrandamento no aumento relativo de casos diários".

Comparativamente à semana anterior, os gráficos do modelo matemático da Escola Nacional de Saúde Pública desta semana do barómetro mostram "uma aproximação a Itália e, em vez de 11, por cada 100 novos casos italianos, Portugal espera agora 14."

"Em relação a Espanha, a curva portuguesa apresenta um ligeiro afastamento: 20 casos novos por cada 100 casos espanhóis, quando na semana anterior eram 22", refere a ENSP.

Além da comparação com países culturalmente e "matematicamente" parecidos com Portugal - Itália, Espanha e Reino Unido -, a equipa do Barómetro Covid-19 alargou a análise à Coreia do Sul, Singapura e Japão, "países que têm sido identificados como eficazes no controlo da pandemia".

"Esta análise comparativa permite-nos perceber claramente as diferenças entre a evolução das curvas latinas, que são exponenciais, e as curvas orientais, que têm um formato achatado", referem os investigadores.

Em comparação, por cada 100 novos casos no Japão são esperados 4.681 novos casos em Portugal, por cada 100 novos casos na Coreia do Sul, são esperados 467 novos casos e por cada 100 novos casos em Singapura são esperados 5.639 novos casos em Portugal. Os dados servem para prever o comportamento da curva portuguesa através da observação do que vai acontecendo em países em que o vírus leva mais dias ativo.

Testar, testar, testar... e distanciamento social

O prolongamento do estado de emergência e as declarações do primeiro-ministro António Costa, avisando que "entrámos no mês mais difícil" e "vamos ter de apertar um bocadinho", reforçam a ideia que o pior pode mesmo não ter ainda passado.

O ceticismo do Governo é partilhado António Diniz. Sem se querer pronunciar sobre nenhuma medida em concreto, o médico pneumologista e colaborador da Direção-Geral da Saúde, defende "genericamente que tudo aquilo que favorece o distanciamento social deve ser aplicado ".

À TSF, o pneumologista reconhece que não é possível "ignorar que o aspeto que a curva tem hoje em Portugal não é o mesmo que têm as de outros países", mas avisa que "ainda estamos no princípio".

"Tem vindo a ser adotado um conjunto de medidas, a última foi a mudança dos critérios para a realização de testes, que ainda têm muito pouco tempo de avaliação", afirma António Diniz salientando que, "não se deve ficar entusiasmado quando os números baixam num dia, tal como não se deve ficar deprimido num dia em que os casos subam mais do que o esperado".

Para o pneumologista, o mais importante, neste momento, é aumentar o número de testes: "Isto tem que ser feito e pode ter impacto na situação da epidemia", resume o médico António Diniz.

De acordo com o boletim epidemiológico divulgado, esta quinta-feira, pela Direção-Geral da Saúde, em Portugal há mais de 20.000 pessoas em vigilância pelas autoridades de saúde e quase 5.000 aguardam os resultados de testes laboratoriais. Dados que não são tidos em conta na elaboração da curva, mas cujo desfecho (a confirmação ou não das suspeitas) são determinantes para a evolução da pandemia.

A curva epidemiológica serve sobretudo para prever prever o comportamento da pandemia no futuro analisando o histórico acumulado. Por isso quanto maior o intervalo de tempo mais informação é recolhida, logo mais seguras e fiáveis são as previsões, explica António Diniz à TSF.

O pneumologista acrescenta que, a informação acumulada vai aumentando assim como o intervalo temporal, portanto com o passar dos dias podemos prever com maior segurança e maior fiabilidade qual vai ser a evolução da pandemia.

"Não é uma gestão da pandemia dia-a-dia, mas implica o conhecimento diário dos ajustes às previsões anteriores para se poder projetar cada vez com mais segurança", conclui António Diniz.

"O que estamos a tentar é que a curva seja deferida no tempo e não atinja os picos que podem comprometer a resposta dos serviços de saúde. Aquilo que estamos a ganhar é capacidade de resposta dos serviços de saúde. Ainda estamos nesta fase", acrescenta o especialista.

Uma ideia que vai de encontro a declarações de Graça Freitas. "O objetivo é tratar bem os doentes", afirmou esta quinta-feira a diretora-geral da Saúde.

O que é que pode levar a que curva pandémica se afaste da realidade?

António Diniz não tem dúvidas: "Informação errada ou utilizar modelos que não sejam os mais ajustados. Se os não foram recolhidos corretamente ou estão atrasados no tempo a previsão que vai estar errada."

Os epidemiologistas, cientistas e matemáticos trabalham habitualmente com vários modelos, "para perceberem a fiabilidade dos mesmos e ajustarem constantemente essa informação", explica o especialista defendendo que "toda a informação deve estar disponível para a comunidade científica".

Quando não houver mais contágios, a curva desaparece e a pandemia acaba. Mas isso não impede que uma nova onda de Covid-19 chegue já a partir do próximo outono.

Salientando que "ainda não é altura para falar disso em pormenor", António Diniz reconhece que é mais provável que venha a ocorrer uma segunda vaga da pandemia Covid-19. "Não há nada que não nos diga não aconteça, antes pelo contrário há mais elementos fazem supor uma nova onda pandémica, do que o contrário".

Segundo o especialista, para travar uma eventual segunda vaga da pandemia será determinante a imunidade, ao vírus, que se venha a alcançar na primeira onda e a disponibilidade, ou não de uma vacina. Até lá, "o distanciamento social continua a ser a nossa maior arma", sublinha.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

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