
Fernando Alves
TSF
Num outro 5 de Março, há precisos cem anos, o jornal Diário de Lisboa publicava passagens de um livro de Júlio Brandão, "Bustos e Medalhas". O jornal privilegiava a descrição das famosas tertúlias que se realizavam em casa de Alexandre Herculano, junto à Real Biblioteca da Ajuda que o autor de "Eurico, o Presbítero" dirigiu. A casa, conta Júlio Brandão, era "um lugar de reunião de alguns dos mais altos espíritos de Portugal", embora a Ajuda fosse, ao tempo, uma espécie de ermo, nos arrabaldes. Júlio Brandão destaca a presença habitual de Bulhão Pato nesse porto de abrigo em que Garrett, outro bravo do Mindelo, se refugiou algum tempo, curando males de amor. Outro dos convivas era o jovem rei D. Pedro V, de quem Herculano chegou a ser perceptor. Júlio Brandão partilha, a propósito, relatos que escutara a Bulhão Pato sobre a presença assídua do monarca. O rei chegava a pé, sozinho: "Chegando ao fim da Tapada, um dia - contou Bulhão Pato a Júlio Brandão - encontrou um pequenito que soltou um gorjeio, como um passarinho na balsa." Brandão desenrola o fio:
"D. Pedro V, moço, com os reviramentos próprios da idade, voltou-se alegre para a criança, que lhe dizia: -Sr militar, vai para casa do sr Herculano? Eu bem sei onde ela fica. E saltitando, como a arvéola, no charlar infantil - teria uns seis anos - lá o foi acompanhando, perguntando-lhe quem era, e donde vinha, com o maior desassombro."
Continuo a ler Júlio Brandão, cem anos depois:
"Quando D. Pedro voltou, trouxe-lhe um papeliço de bolos. O pequenito, que já estava amestrado para o tratar com todo o respeito, exclamou: -Muito obrigado, senhor rei. Vossemecê quando volta cá? Nesse dia, à despedida, D. Pedro V disse para Herculano: - Já me tenho demorado muito. Está lá fora à espera o meu amigo Caracóis."
Reza a crónica que o jovem rei tinha à entrada do palácio uma caixa verde para os desabafos francos e sugestões do povo. E que só ele tinha a chave da caixa. O povo chamou-lhe O Bem Amado; por alguma razão terá sido.
A poucos dias da posse de um mais alto magistrado, passo-vos estas notas sobre um rei que procurava o convívio dos sábios do seu tempo.
Possa e queira o novo Presidente dispensar o fogo fátuo mediático e procurar, com razoável frequência, os Herculanos, ainda que eles já não morem na Ajuda e tenham ido em busca de um presumido sossego numa qualquer Vale de Lobos.
