
Fernando Alves
TSF
Li há dias que ornitólogos australianos estão a recrutar aves selvagens, tentando que elas transmitam a outras, nascidas e mantidas em cativeiro, o canto primitivo dos bandos de que se perderam. O objectivo é conseguir que os pássaros "tutores" libertem os outros, cativos, de um estranho mutismo. Esse mutismo acompanha o acentuado declínio da espécie. Reaprendendo a pauta do bando, talvez os pássaros engaiolados retomem a arte do canto, central nos rituais de acasalamento.
Este vento não há-de ser bom para pássaros, pensei com os meus botões, ao estacionar o carro aqui perto, era ainda noite no dia. Dei um grito ao vulto que adiante estugava o passo contra o frio e o vento. Bom dia, Manuel. E viemos crocitando, o Manuel Acácio e eu, pigarreando por entre as Torres de Lisboa, floresta de vidro e de betão povoada por corvos e outras aves raras. A nenhum de nós terão ocorrido, nesse relance de aves ainda dormindo, aqueles versos de Rimbaud, pedindo a um amável Senhor de todos os "anjos do ar" que fizesse "descer dos céus preciosos" os "caros corvos". Poucos minutos depois, sei que o Manuel, preparando a revista de imprensa, demorou o olhar e o coração diante da foto de Miguel Manso na capa do Público. Quando espalhei os jornais sobre a mesa, fiquei preso ao rosto do homem com olhar de águia, tão duro como o das crianças que não se perderam das aves selvagens. No olhar do homem, deste homem que nos fita nas capas dos jornais, cabe toda a explicação dos pássaros.
Aqui há tempos li que, por nossa causa, as aves estão a cantar mais uma hora por dia. É o efeito da poluição luminosa. Estava o dia ainda fechado na gaiola do escuro, veio-me isso da Explicação dos Pássaros, um tipo que vai morrer, que vai chamar a morte junto à ria, um tipo inventado por este que nos olha na capa dos jornais. O tipo que vai morrer olha as gaivotas pousadas no pontão, repara no mendigo que comia pássaros. O restaurante está cheio de pássaros.. O empregado de mesa que lhe traz um ovo cozido é "um pobre pássaro de avental entontecido pelos pedidos dos clientes", passa na ria um pequeno barco tripulado por dois homens pequenos "parecidos com um casal furibundo de pardais", camionistas ao balcão fazem lembrar "papagaios nos poleiros". A minha memória já não é o que era, ave de gaiola, trouxe o livro para não me perder rente às águas da ria, deixa cá ver, página 172: "Agora o restaurante achava-se completamente cheio de pássaros e o próprio homem da bomba de gasolina lá fora saltitava como um pardal coxo, a verificar os pneus de uma camioneta de cimento."
Aqui na redacção, cada qual no seu galho, tossicamos o mundo, "se tu sonhasses como me sinto/ já vejo a morte nunca te minto", ele reconhecia os vitorinos, belas aves canoras, ele que se comovia por tudo e por nada, ficou assim a olhar para nós enquanto olhava para Miguel Manso, a testa pousada no antebraço, um anel no mindinho da mão direita. Fita-nos com um olhar de águia, talvez triste, ele que se comovia por tudo e por nada, olha-nos como se estivesse já despedindo-se ou como se fossemos gaivotas no pontão da ria.
