
Fernando Alves
TSF
Há uma curiosa geometria na foto de André Rolo que regista, esta manhã, no JN, a inquietação dos moradores de Massarelos. Eles descrevem à repórter Ana Correia Costa a angústia provocada pela indefinição da Metro do Porto quanto ao seu realojamento temporário, devido às obras da futura ponte Ferreirinha. A linha dos olhares e dos dedos apontados ao pilar de betão, que avança como um duplo telhado das casas da Associação de Moradores de Massarelos, desenha um triângulo suspenso sobre a Calçada da Boa Viagem. A notícia fica escorada em duas vigas breves: a construção da ponte obriga a que 14 famílias saiam de suas casas por precaução. O processo é pacífico, mas ainda não foram pagas as rendas dos novos alojamentos. Uma das moradoras resume a situação, como se ancorasse o coração ao Cais das Pedras. Ela justifica a ansiedade: "Isto não é a mesma coisa que pegar numa mala e ir de férias."

- Créditos: André Rolo
Volto à foto de André Rolo: as casas da associação de Massarelos não têm telhados tradicionais de duas ou quatro águas, nem platibandas, nem qualquer ornamento cerâmico que pisque o olho à memória da Real Fábrica de Louça dos seus dias gloriosos. Têm placas rasas, um chão altivo mais perto do céu.
Isto dos telhados tem o seu quê, imagino que tenha o seu quê. Pontes famosas de outros tempos transpunham os rios com o telhado às costas, todos nos lembramos das de Madison County que Clint Eastwood eternizou no cinema. A de Coruche e a da Chamusca, agora reaberta com semáforo e tudo, não são bem pontes com telhado. Os manuais chamam-lhes pontes treliçadas metálicas.
Não deixeis que me distraia da Massarelos assarapantada com o betão da nova travessia do Douro. Este não é um lugar qualquer. Na Calçada da Boa Viagem, onde os moradores se queixam de uma indefinição, gente de todas as idades pintou há uns anos, não muitos, um formidável mural ladeando as escadinhas íngremes, dando corda a um projecto chamado Olhó Nobelo. Não são de pasmaceiras, os de Massarelos. Não vai muito tempo, os da Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos mobilizaram criadores musicais como Sérgio Godinho, Rui Veloso ou Miguel Araújo para iniciativas que visavam manter vivo o museu local e o telhado da igreja. O telhado é um chapéu, um abrigo, um Cais das Pedras com sotão. Só na canção de Tom Zé podemos compensar a perda do telhado com a conquista das estrelas.
Esta é uma história entrelaçada de coberturas. Os de Massarelos não é que temam o pilar de betão pronto a suspender um telhado duplo sobre as suas cabeças. Na verdade, apenas esperam, tal como os amantes sem dinheiro do poema de Eugénio, "o milagre de cada dia / escorrendo pelos telhados".
