
Fernando Alves
TSF
A vontade de ler "O Jardineiro e a Morte", de Gueorgui Gospodinov, nasceu de uma entrevista que o vencedor do Booker Prize deu, há uns tempos, a Isabel Lucas, no Público. A urgência talvez tenha surgido da revelação de uma ligação amável entre o búlgaro e a cidade de Lisboa, da vénia que ele faz a Pessoa, do modo como é aflorado, na conversa, o luto do pai. Mas o que estabeleceu verdadeiramente um critério de prioridade para a leitura de "O Jardineiro e a Morte" foi a legenda que Isabel Lucas fez correr sob a fotografia em que o grande escritor búlgaro nos fita, braços cruzados sobre o peito. Essa legenda dá conta de que o leitor atravessará esta obra sentindo que é desafiado a revisitar as suas perdas. O livro trata da morte do pai e da memória das histórias que ele contava enquanto fazia crescer no quintal da casa, longe da capital, um sumptuoso jardim.
É um livro que não pede comiseração. Na verdade, nada pede. Começa pelo fim, interrogando-se, interrogando-nos sobre "onde começa o fim". Começa assim: "O meu pai era jardineiro. Agora é um jardim."
Isto basta para nos sentarmos ao lado do desconhecido que permanece junto à cama de seu pai, sem lamúrias, sem nada mais desejarmos ser senão, repetindo Ramos Rosa, uma "pequena folha na felicidade do ar", povoando o jardim, "mundo de pequenas coisas".
Nada pede este livro, apenas que haja luz nas suas páginas. Ainda que a morte seja para aqui chamada, o autor acautela que não estamos perante um livro sobre a morte, mas "sobre as saudades da vida que acaba". Porque só as histórias sobrevivem.
Gospodinov semeia histórias como um jardineiro. Escritores como ele dispensam reflexões sobre a carpintaria da obra, mas reclamam a disponibilidade do leitor para esta outra arte da jardinagem.
Várias vezes, lendo este livro, me lembrei de meu pai, da secreta arquitectura do seu jardim que era uma horta que era um pomar e das histórias que ele nos contava na hora vespertina das regas, quando os pássaros declinavam.
Chegado à página 26 deste livro que vos recomendo percebi o quanto a legenda de Isabel era certeira. Gospodinov vai num avião para a Índia quando lhe trazem um queijo de cabra com uma folha de hortelã. O meu pai tinha pela hortelã um gosto particular, sublinhando, ao mastigar as suas folhas, a fortíssima adstringência. Lembro-me de ouvir de meu pai, com razoável frequência, esse sublinhado de um paladar posto à prova.
A memória de meu pai ficou a pairar enquanto de novo mergulhei na página do livro. Sentei-me ao lado do autor, num voo para a Índia e retomei a leitura: "No avião para a Índia, serviram um queijo de cabra com uma folha de hortelã. E essa folha adstringente ao ser mastigada desfralda no céu da boca - e também no azul do céu - o quintal do meu pai." Nesse momento, senti que o meu pai lia comigo o livro de Gospodinov. Caminhava comigo pelo jardim que este livro é.
