EDP acusada de limpar sinais do início do incêndio em Pedrógão Grande

Autor do estudo pedido pelo governo diz que Ministério Público tentou, mas não travou a limpeza debaixo das linhas elétricas nos dois locais onde se suspeita que nasceram as chamas.

O Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, que fez o relatório para o Ministério da Administração Interna sobre o fogo de Pedrógão Grande, pediu ao Ministério Público para travar qualquer ação de limpeza da floresta nas duas zonas, debaixo de linhas elétricas, onde suspeita que nasceram as chamas a 17 de junho, um pedido comum em outras investigações a fogos.

O coordenador do Centro, Xavier Viegas, adianta à TSF, no entanto, que a ação das autoridades não chegou a tempo: já depois da divulgação do relatório, que apontava para fortes indícios de que as chamas surgiram devido ao contacto das linhas com ramos numa zona mal limpa pela elétrica, a EDP foi aos dois locais fazer uma limpeza das árvores.

O professor de Coimbra sublinha que o Ministério Público acabaria por informá-lo que avisou a empresa, já depois da limpeza, que não podia voltar a fazer qualquer intervenção na zona

EDP justifica-se

Contactada pela TSF, a EDP Comercial não confirma nem desmente esse aviso das autoridades, justificando as ações que fez dizendo que "os incêndios que ocorreram na região de Pedrógão afetaram significativamente as redes elétricas de distribuição e todas as intervenções posteriores tiveram o objetivo de repor as condições de segurança das redes e assegurar o abastecimento elétrico às populações".

A empresa acrescenta que "as intervenções foram de caráter pontual e delas foi dado conhecimento a todas as autoridades competentes", sendo que "a limpeza das faixas de proteção das linhas elétricas é uma atividade que a EDP Distribuição desenvolve a nível nacional com caráter regular nos períodos permitidos por lei".

Contactada há três dias, a Procuradoria-Geral da República ainda não respondeu às questões enviadas pela TSF.

Vítimas admitem pensar em ocultação de provas
Do lado das famílias, a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande "refere que os atos falam por si" e sublinha que existiram "duas situações de cosmética de cenários onde aconteceram mortes".

A presidente da associação, Nádia Piazza, refere-se não apenas à limpeza pela EDP mas também pela Ascendi que gere a trágica Estrada Nacional 236.

A representante das famílias diz que o facto do Ministério Público ter chegado tarde, já depois da limpeza da EDP, é "sintomático", sublinhando que as fotografias mostram "o antes que não estava limpo e o depois já limpo" demonstrando que "há sérias dúvidas sobre o toque de sobretudo um carvalho na linha elétrica".

A associação recorda que a ignição do incêndio tem de ser investigada e a ordem do Ministério Público para não limpar a zona "fala por si e é um sintoma da atitude da EDP", não sendo possível, admite, fugir da ideia que a empresa terá tentado esconder provas.

Xavier Viegas acredita, contudo, que a limpeza da floresta debaixo das linhas elétricas onde terão começado as chamas não é muito grave pois há fotografias do antes e do depois, apesar de admitir que "seria importante preservar a zona".

"Útil para encontrar sinais de descargas elétricas"

O especialista da Universidade de Coimbra não acredita que a limpeza "prejudique a investigação". No entanto, a limpeza feita debaixo das linhas, mas também na EN236, "é um mau princípio", sublinhando que podia ser necessário manter as áreas intactas "para uma análise com cuidados, detalhes e tempo que não existiu durante o período de realização do relatório".

Uma preservação dos locais que, como explica, seria por exemplo útil se for preciso encontrar sinais das descargas elétricas na vegetação.

Xavier Viegas admite ainda que é possível que a limpeza tenha acontecido por causa do relatório que fizeram sobre as causas do início do incêndio de Pedrógão Grande e acrescenta que a limpeza feita depois do fogo prova que a limpeza da floresta não estava bem feita debaixo das linhas elétricas e da berma das estradas onde morreram dezenas de pessoas.

EDP garante limpeza

Recorde-se que na semana passada a TSF noticiou que um parecer jurídico pedido pela Ascendi conclui que esta empresa não pode ser responsabilizada pela eventual falta de limpeza na EN236 devido à falta de aprovação do Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Uma desresponsabilização que também se pode estender à EDP pela mesma razão, numa interpretação da lei que não é unânime e pode acabar por ter de ser resolvida em tribunal.

A EDP tem dito que "independentemente da existência de Planos Municipais" aprovados tem sempre garantido a limpeza da floresta, nomeadamente em Pedrógão, numa faixa de 15 metros debaixo das linhas de média tensão como aquelas que segundo o relatório pedido pelo governo causaram o incêndio que matou mais de 60 pessoas.

(Siga aqui a Emissão Especial TSF Incêndios 2017 - A reconstrução contra o esquecimento)

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