
Global Imagens/Orlando Almeida (2014)
«Os deuses concederam-lhe a graça de ser um grande poeta (...) que combateu como ninguém à sombra de Camões». Foi neste termos que Eduardo Lourenço se referiu a Vasco Graça Moura, na homenagem que lhe foi prestada na Fundação Gulbenkian, e na qual o Presidente da República lhe atribuiu a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Considerado um dos maiores poetas portugueses, romancista e tradutor e ensaista, conquistou o mundo literário a partir do Porto, onde nasceu.
Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro, no Porto, a 3 de janeiro de 1942. Licenciou-se em direito na Universidade Clássica de Lisboa, e exerceu a advocacia entre 1966 e 1983. A partir da década de 80 enveredou definitivamente pela carreira literária, onde se consagrou como um nome central da literatura portuguesa. Poeta, romancista, ensaísta, e tradutor, conjugou a atividade literária com várias incursões na política.
Logo após a revolução democrática aderiu ao PPD de Sá Carneiro, de quem, de resto, era particular amigo. Integrou as listas deste partido como candidato a deputado à constituinte, mas, apesar de eleito, não chegou a ocupar o seu lugar no hemiciclo de São Bento, já que assumiu o cargo de secretário de estado da segurança social no IV governo provisório, funções que interrompeu durante o designado período gonçalvista. Voltou ao executivo no VI governo provisório, liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo, como secretário de estado dos retornados.
Em 1978 foi diretor do primeiro canal da RTP, e de 1979 a 1989 foi administrador da Imprensa Nacional Casa da Moeda, a que se seguiu o cargo de comissário-geral para as comemorações dos descobrimentos portugueses, de 1989 a 1995. A partir de 1996 passou a dirigir o serviço de bibliotecas e apoio à leitura da Fundação Caloust Gulbenkian.
Em 1999 foi eleito deputado ao Parlamento Europeu nas listas do PSD, cargo que desempenhou durante dois mandatos, até 2010. Em 2012 , Vasco Graça Moura foi nomeado pelo secretário de estado da cultura para presidir à Fundação do Centro Cultural de Belém, substituindo no cargo António Mega Ferreira.
Mais de seis dezenas de obras publicadas
A obra literária de Vasco Graça Moura é vasta e plurifacetada, sendo constituída por mais de seis dezenas de títulos publicados, para além de centenas de artigos dispersos, publicados em jornais e revistas. Muitas das suas obras foram traduzidas para italiano, francês, alemão, sueco e espanhol.
Vasco Graça Moura é autor de numerosos ensaios, alguns deles premiados, e de excelentes traduções, que vão desde os sonetos completos de Shakespeare, a obras clássicas italianas como a "Divina Comédia" e "Vita Nuova", de Dante Alighieri, e ainda "Rime" e "Trionfi", de Francesco Petrarca.
Como tradutor de clássicos italianos, Vasco Graça Moura foi galardoado em 2007 com o prémio tradução do Ministério da Cultura de Itália, apoiado pela União Europeia. O prémio, que tem o patrocínio do Chefe de Estado italiano, é atribuído anualmente e distingue o melhor tradutor e editor estrangeiros, tendo Graça Moura vencido na primeira categoria, uma decisão unânime do júri.
Segundo uma nota justificativa do júri deste prémio, divulgada a quando da sua atribuição ao escritor português, Vasco Graça Moura foi distinguido pela «rica e vasta atividade como tradutor, que contribuiu de forma especial para a divulgação, em Portugal e nos países lusófonos, das mais marcantes obras da literatura italiana, em versões de alta qualidade estética e de escrupuloso respeito pelos originais».
Reconhecido em todos os quadrantes
A obra de Vasco Graça Moura recebeu o reconhecimento de alta qualidade em todos os quadrantes, mesmo daqueles que, ideologicamente, lhe eram distantes. Para ele, a poesia era «uma questão de técnica e de melancolia», crescendo d' A Furiosa Paixão pelo Tangível através de uma densa rede metafórica que combina a intertextualidade, relacionada especialmente com Camões, Jorge de Sena, Dante, Shakespeare e Rilke, objetos privilegiados do seu estudo, e uma tendência ironicamente discursivista assente na agilidade sintática.
Eduardo Lourenço chamava-lhe "o cavaleiro Vasco", aquele que «combateu como ninguém à sombra de Camões e camonianamente». De facto, Vasco Graça Moura é autor de três ensaios sobre Camões: Luís de Camões: Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) e Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (2000).
Em 1996, a sua obra foi reunida em volume. Dos seus títulos, é de salientar Concerto Campestre, os romances Quatro Últimas Canções (1987) e Meu Amor Era de Noite (2001), os livros de poesia Uma Carta no Inverno, que lhe valeu o prémio da APE, e Poemas com Pessoas (ambos de 1997). Recebeu o Prémio Pessoa em 1995, a medalha de ouro da Comuna de Florença em 1998, ambos atribuídos à sua tradução da Divina Comédia de Dante.
Foi ainda distinguido com os prémios de poesia do PEN Clube Português, e a coroa de ouro do festival de poesia de Struga, na Macedónia, o prémio Vergílio Ferreira, e a Ordem de Santiago da Espada, a que se juntou ultimamente a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Na cerimónia de entrega desta última condecoração, em janeiro de 2013, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, enalteceu o «cidadão empenhado, que ao longo das últimas décadas tanto contribuiu para a valorização da nossa vida democrática, (...) e para a consolidação, entre nós, de uma sociedade que preza os valores da liberdade e da cultura».
(Fontes consultadas em feveiro de 2014: releituras.com; publico.pt; wikipedia.org; wook.pt; revistaepoca.globo.com; portaldaliteratura.com; dn.pt)