É impossível sermos indiferentes à história de vida de Cristiano Ronaldo. Do Funchal a melhor jogador português de todos os tempos foram três décadas de distância, muito cheias de trabalho e de títulos. O país e o mundo veneram o madeirense, orgulho de uma nação inteira em tantas batalhas da bola. O povo prestou e presta-lhe o devido tributo. Mas Ronaldo é apenas um jogador de futebol.
Visto de fora, nem sequer um bom capitão da Seleção é, dentro balneário desconheço, portanto, posso admitir que seja. Mas quererem fazer dele uma espécie de embaixador do país ou voz do povo, calma lá, porque é um bocadinho diferente. Pelo que só posso discordar quando o selecionador nacional diz precisamente o contrário, a propósito da visita de Ronaldo à Casa Branca.
Aliás, se me preocupasse com estas coisas ou tivesse tempo para andar com todos os males do Mundo às costas, a presença do jogador na receção e jantar de segunda-feira em Washington só me devolveria um sentimento: vergonha. Desde logo porque Ronaldo ganhou lugar à mesa por acompanhar a comitiva da Arábia Saudita. Com todos os problemas, Portugal é um país democrático, nos antípodas do regime saudita, um dos mais opressores do Planeta, onde vigora a pena de morte e onde direitos das mulheres, dos trabalhadores, das minorias e a liberdade de informação são violados todos os dias. Mesmo assim, Ronaldo é servido, ou aceita ser servido, ou pagam-lhe para ser servido em bandeja dourada com molho de petróleo como embaixador do futebol saudita.
Tudo isto de sorriso fútil na cara, orgulhoso por estar associado ao país onde a modalidade depende dos fundos de um Estado que se aproveita do desporto para, junto da comunidade internacional, limpar a terrível imagem que tem. Ora, os portugueses não podem nem merecem ser associados a isto. Apenas um português pode, e esse é Cristiano Ronaldo.