Opinião

Era o que nos faltava que chegassem de novo os Calabotes

Artur Machado

Para a maioria dos ouvintes e leitores nascidos já neste século XXI, o nome João Pinto não trará nada de especial à memória. De forma que, para perceberem melhor o que se segue, é necessário fazer uma micro biografia. O João Pinto a que me refiro foi um grande defesa-direito da equipa do FC Porto, nos anos 80 do século XX, um daqueles de quem se dizia ser "um jogador à Porto". Coisa, diga-se, que já não existe, nem à Porto, nem à clube nenhum. Só para ficarem com mais uma ideia da sua grande carreira como futebolista, foi ele que, enquanto capitão de equipa, levantou a Taça dos Clubes Campeões Europeus, em Viena, em 1987, depois de uma vitória épica sobre o Bayern de Munique, que era, e continua a ser, um dos colossos do futebol mundial. Foi um grande jogador, e isso é o mais importante.

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Mas, a verdade é que me lembrei dele a propósito da mais célebre das suas frases: quando interpelado por um jornalista, antes de um jogo (nessa altura os jornalistas ainda podiam falar com os jogadores sem pedir autorização), sobre o que se poderia passar, respondeu com uma frase lapidar: "Prognósticos só no fim do jogo." A frase ganhou vida própria e é, seguramente, uma das mais citadas de sempre.

E porque me lembrei eu de João Pinto e da sua frase? Porque falta um mês para as presidenciais e, quanto mais sondagens são divulgadas, mais empatados parecem os candidatos favoritos na corrida a Belém. Ao ponto de ser prudente, mesmo ao mais desbocado dos comentadores políticos, citar o grande João Pinto, e responder, se lhe perguntarem quem tem mais hipóteses de passar a uma segunda volta, que, "prognósticos só no fim do jogo".

O problema é que a vida dos comentadores políticos não existe se houver contenção. A certeza é tudo, a dúvida é nada, ou seja, não dá audiências. E, portanto, estando eu, pelo menos nesta crónica, a fazer o papel de comentador político, vou fazer pela vida.

Não vou adivinhar quem serão os dois finalistas da Taça dos Campeões, ou seja, os dois candidatos com mais hipóteses de passar à segunda volta, que isso só depois de atirar os dados e não tenho nenhum par à mão. Fico por um prognóstico mais fácil. Passe ou não à segunda volta, há um candidato que não será eleito Presidente da República. Por única e exclusiva vontade do povo português, não pelo que dizem as sondagens.

Que soem os tambores... trata-se de André Ventura. O líder do Chega bem o sabe. Ainda esta semana se lamentou, no debate com Henrique Gouveia e Melo, que "vão unir-se todos contra mim". Na verdade, foi só uma choraminguice. A verdadeira razão é que a esmagadora maioria dos portugueses não quer o líder da extrema-direita a presidente de coisa nenhuma.

E volto por isso a citar o grande João Pinto, com mais uma frase emblemática, atirada na noite de 1 de dezembro passado, quando recebeu um Dragão de Ouro: "Era o que nos faltava que, passados 60 anos, chegassem de novo os Calabotes."

Eu sei, é uma afirmação críptica, implica cruzar história política, com história socioeconómica, incluindo a do desporto-rei. Infelizmente, já não há tempo disponível na antena da Rádio. Quem não percebeu, terá de ir perguntar ao ChatGPT. Parece que é o que está na moda isto de deixar que os algoritmos pensem por nós.

Rafael Barbosa