Rodrigo Tavares

Rodrigo Tavares

Um País em 56 artigos

O convite foi espontâneo, mas acabou por tornar-se um ofício prazeroso. No final de 2018, a direção da TSF pediu-me que escrevesse sobre Portugal. O que vê um emigrante de quase duas décadas quando regressa, com 40 anos de idade, ao seu país? Escrevi, com apego, mais de meia centena de artigos (41 deles hyperlinkados abaixo). Entrevistei algumas pessoas, conversei com mais, observei todas. Aprendi e desaprendi em contrição. Aproximando-se o final de 2020, esta será a última das minhas colaborações na TSF. Neste período, rodopiei dentro de mim, como um pião, por quase todos os estados de alma até conseguir olhar para o país com uma certa calma, sem latejos ou agitações. Ainda não dei repouso à frustração, mas um certo orgulho começa a despontar. Portugal ainda é um país muito igual, mas também já é diferente.

Rodrigo Tavares

O que o casamento com uma brasileira pode ensinar a um português sobre a sua própria língua

Aquilo que nós somos está exposto na forma como nos expressamos. Vocábulos, pronúncia, entoações, sintaxe revelam a nossa classe social, nascedouro, rotas migratórias, idade, raça, perfil psicológico. A língua é um armazém de experiências. Mesmo quando decidimos trair-nos com bens materiais ou redes sociais para iludir uma audiência, a expressão linguística é um espelho frio à frente de um corpo desamparado.

Rodrigo Tavares

Dos Montes da Senhora eu Consigo Ver o Futuro

Nesta aldeia beirã de algumas centenas de gentes, a Idade Média tardou-se até meados do século XIX. Sitiados entre fartas torrentes de água - o Ocreza, a Fróia, o Alvito - e entaipados pela Serra das Talhadas, os montenses nunca tiveram o privilégio da locomobilidade. Até a Estrada Real 10 e quatro pontes de xisto serem construídas entre os reinados de D. Maria II e D. Luís I, a ligar Castelo Branco a Proença-a-Nova, os habitantes da aldeia movimentavam-se apenas até aos limites do repique do sino da igreja. Mesmo o século XX chegou lá tarde. A eletricidade, apenas em 1970. A água canalizada, em 1955. O alcatrão, em 1960. O saneamento, nos anos 90. Até ao 25 de Abril, a ordem pública era imposta por um "regedor", em representação do Estado, e por um "julgado de paz", a versão beirã dos sobas de Angola.

Rodrigo Tavares

E se for uma lei europeia a salvar a Amazónia?

Leis, medidas provisórias, instruções normativas, emendas constitucionais, decretos, portarias e atos declaratórios. O Brasil emite cerca de 800 textos normativos por dia. É por isso que a cada nova lei aprovada costuma-se aguardar "que pegue", como se costuma dizer por lá. Muitas leis relativas ao meio ambiente pegaram (como a lei Lei 9.605/98 sobre crimes ambientais) enquanto outras ainda não pegaram, como a do Código Florestal (Lei 12.651/12).

Rodrigo Tavares

Porque é que não se discute a política externa portuguesa?

A política orçamental de qualquer governo português, liderado por qualquer partido, é dissecada por inumeráveis analistas e comentadores. O mesmo com saúde, educação e tantas outras políticas públicas. A exceção é a política externa. A comunicação social portuguesa conta com cerca de 10-20 comentadores regulares de temas internacionais, a maioria de perfil generalista que analisa os temas globais que entram na roda da imprensa diária. Mas dificilmente usam o bisturi para dissecar as ações internacionais do próprio país.

Rodrigo Tavares

Deveremos reivindicar os bens saqueados pelos franceses?

Disse o rececionista do hotel, no fim de semana passado, que parte do espólio do Convento do Espinheiro, nos arredores de Évora, foi saqueado pelos generais franceses Junot e Soult e encontra-se em museus em França e Nova York. Estas estórias, que retratam a desumanidade das invasões francesas ocorridas entre 1807 e 1811, fazem parte do património oral de transmontanos, beirões e alentejanos. Ouro e arte foram extirpados abrutadamente de conventos, castelos e palácios, deixando um rasto de desterro identitário, de míngua financeira e de cólera muda.

Rodrigo Tavares

A guerra colonial ainda não acabou

A crença de que Portugal é um país seguro e pacífico tem inibido o debate sobre as vísceras bélicas do nosso passado recente. Entre 1961 e 1975, cerca de 1 milhão de jovens portugueses lutou na guerra colonial e, para a vasta maioria, foi a experiência individual mais avassaladora das suas vidas. Depois disso houve casamentos, filhos e netos, conquistas profissionais e outros momentos marcantes, mas os anos da guerra em África foram o ferrete mais quente.