"Inoportuno e manipulador." Associação Zero critica anúncio da barragem de Girabolhos

Créditos: Nuno Veiga/Lusa
A associação ambientalista refere que, neste momento, "o que importa é fazer face às necessidades das populações e agir perante esta emergência" e considera que o anúncio da barragem de Girabolhos é "um aproveitamento"
A organização ambiental ZERO considera que o anúncio da barragem de Girabolhos é "inoportuno e manipulador" e que esta construção será um erro estratégico que não elimina o risco de cheia e desviará recursos de outras soluções eficazes. Em declarações à TSF, Sara Correia, da associação ambientalista Zero, critica o timing do Governo e sublinha que a prioridade, nesta altura, é dar respostas às populações afetadas pelas cheias.
"Neste momento, aquilo que importa é fazer face às necessidades das populações e agir perante esta emergência. Estar a anunciar uma barragem numa altura destas parece-nos um aproveitamento desta situação para manipular, de alguma forma, a opinião pública para que seja mais facilmente aceite o investimento numa infraestrutura que é dispendiosa e que vai ter impactos bastante significativos", explica à TSF Sara Correia.
Além disso, a associação ambientalista fez as contas entre o dia 3 e 12 de fevereiro e tem dúvidas de que a barragem de Girabolhos tivesse evitado as cheias do baixo Mondego.
"Tendo em conta aquilo que seria a área da bacia hidrográfica que ia escoar para esta barragem de Girabolhos e aquela que seria a capacidade de encaixe desta barragem, consegue-se facilmente perceber que, para níveis de precipitação tão elevados como aqueles que ocorreram, esta barragem não seria a solução, ou seja, não teria capacidade para encaixar tais níveis de precipitação", sublinha, acrescentando que a construção de uma barragem exige uma análise séria.
"Além de ser um anúncio precipitado, não tem por base um documento técnico que permita dizer que aquela é a solução", reforça.
Recorda também que há um projeto de produção energética que nunca avançou.
"A ideia da sua construção já vem de 2007, do Plano Nacional de Barragens. A própria Endesa abandonou o projeto já em 2016 e o projeto já tinha passado por um estudo de impacto ambiental, já tinha uma declaração de impacto ambiental emitida. A verdade é que a Endesa abandonou a ideia, porque achou que não seria rentável e, na altura, dizia-se que a barragem seria exclusivamente para produção energética. Não havia qualquer referência a que fosse para controlo de cheias", refere.
A ambientalista afirma ainda que "chegou-se a falar nesta barragem num contexto de seca". "Se chove muito, seria solução para cheias. Se não chove, seria solução para abastecimento. Portanto, elas são solução para tudo, aparentemente", remata.
A Zero reagiu desta forma ao anúncio do Governo de que incumbiu a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de lançar o concurso público para a construção e exploração da barragem de Girabolhos até final de março.
A associação lamenta que esta medida esteja a ser apresentada como solução para o problema das cheias na bacia do rio Mondego, numa altura em que a região de Coimbra enfrenta consequências imediatas de fenómenos extremos de precipitação.
"Esta proposta constitui uma falsa solução, tecnicamente questionável e politicamente instrumentalizada numa altura de grande fragilidade das populações afetadas", lê-se no comunicado divulgado pela organização.
Para a Zero, "infraestruturas hidráulicas desta escala exigem uma análise séria, com processos de decisão sustentados em estudos atualizados que abranjam vertentes como a hidrologia, o ordenamento do território, análises de custo-benefício e impactes ambientais, todos eles distanciados do contexto emocional provocado por eventos recentes, não podendo nunca ser substituídos por anúncios políticos enganadores em contexto de crise".
Considera esta organização que, "entre projeto, avaliação ambiental, financiamento e execução da obra, decorrerão vários anos até à eventual entrada em funcionamento, não respondendo, portanto, às necessidades imediatas das populações afetadas pelo que, não fará qualquer sentido que seja apresentada como solução para a emergência que se vive".
No comunicado explica como a construção desta barragem não resolveria os episódios de cheia: "Considerando os dados de precipitação no período decorrido entre 03 e 12 de fevereiro, na estação meteorológica de Mangualde/Chão de Tavares, localizada nas proximidades do local previsto para a construção da barragem, foram registados valores acumulados de precipitação de 315,6 litros por metro quadrado ao longo de nove dias".
"Aplicando este valor à área da bacia hidrográfica associada à famigerada barragem, estimada em 980 Km2 (não chega a 15% do total da área da bacia hidrográfica do rio Mondego), obtém-se um volume potencial de cerca de 309,3 milhões de metros cúbicos de água, valor superior à capacidade total de encaixe da barragem, que é de 244,7 milhões de metros cúbicos (193 hm3 de Girabolhos + 51,7 hm3 no contra-embalse de Bogueira)".
Para a Zero, isto significa que, "num cenário idealizado de retenção total, que na realidade nunca ocorreria, a barragem poderia teoricamente encher em cerca de sete dias num cenário de precipitação semelhante".
E defende que "deve ser dada prioridade absoluta às medidas de resposta rápida, à proteção das populações e à mitigação rápida dos impactos, devendo qualquer reflexão sobre soluções de fundo ocorrer num quadro temporal próprio, com distanciamento técnico e participação pública efetiva para que não se corra o risco de optar por escolhas erradas e irreversíveis tomadas num momento manifestamente inadequado".
