Covid-19

Humanos começam a testar vacina para o Covid-19. O que os cientistas já descobriram

É uma verdadeira corrida contra o tempo, mas também contra o resto do mundo. Vários países estão a tentar descobrir uma vacina que combata a Covid-19. Os avanços são significativos mas a "fórmula mágica" ainda deve demorar mais de um ano a chegar.

Rebecca Sirull, Neal Browning e Jennifer Haller não estão doentes, mas aceitaram que um cientista os injetasse com uma substância experimental num consultório em Seattle. Foram os primeiros a testar a vacina para combater a Covid-19.

Os Estados Unidos querem mesmo ganhar a corrida pela descoberta desta vacina. Depois de ter, inicialmente, desvalorizado a doença, Donald Trump está a fazer de tudo para superar o resto do mundo, incluindo subornar laboratórios e saltar etapas da investigação.

Sem que existam ainda conclusões dos ensaios clínicos feitos em animais, os investigadores do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, subsidiário do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, começaram a testar em humanos uma vacina para prevenir a infeção por SARS-CoV-2.

Não há tempo a perder, defendeu o diretor do Instituto de Alergias e Doenças, Anthony Fauci. Esta é "uma prioridade urgente da saúde pública". Por isso a Fase 1 deste estudo foi lançada "em tempo recorde".

Não há registo se este é, ou não, um recorde - esta é uma corrida contra o tempo para salvar vidas, não uma competição, mas o facto é que os Estados Unidos levaram apenas 65 semanas a chegar até aqui desde que os primeiros investigadores chineses conseguiram sequenciar o genoma do vírus.

Atalhos justificáveis?

A vacina norte-americana foi testada em ratos e a resposta imunitária foi positiva, mas acontece que os ratos parecem não ser suscetíveis ao contágio por Covid-19. Foi, por outro lado, fulcral voltar a estudar as descobertas alcançadas durante as epidemias da MERS e SARS, também provocadas por coronavírus que passaram de animais para humanos.

Para Tal Zaks, diretor do departamento médico da empresa de biotecnologia norte-americana Moderna, que está a desenvolver a vacina em parceria com o Instituto Nacional de Saúde, provar o modelo em animais não é um "fator crítico" para passar aos testes em humanos.

Já os especialistas consultados pela imprensa norte-americana dividem-se. Este não é o protocolo habitual, mas esta também não é uma situação habitual, reconhecem alguns. Outros preocupam-se com eventuais efeitos adversos não previstos, e ainda há quem questione a ética de sujeitar seres humanos a uma vacina tão 'verde'.

Num aspeto, todos estão de acordo: uma vacina tradicional demora entre 15 e 20 anos a desenvolver. Para cortar esse tempo é preciso encontrar novas abordagens.

Outro atalho para ganhara corrida? Pagar para passar à frente dos outros. Segundo o jornal Welt am Sonntag Donald Trump terá tentado garantir para os Estados Unidos o direito exclusivo de uma potencial vacina contra o coronavírus, na qual trabalha o laboratório alemão CureVac, oferecendo em contrapartida elevados "incentivos" financeiros.

Fonte governamental confirmou o interesse norte-americano em adquirir os direitos exclusivos desta vacina e assegura que Berlim tenciona fazer tudo para o evitar, defendendo que nenhum país deve ter o monopólio de qualquer vacina.

Nos Estados Unidos e Alemanha, mas também na China, Japão, Canadá e Austrália há dezenas de potenciais vacinas contra a Covid-19 em estudo - a Organização Mundial de Saúde destaca 41 candidatas - assim como dezenas de medicamentos que podem ajudar a combater a doença, com milhões de euros investidos.

Para não se deixar ultrapassar nesta corrida, horas depois de os EUA terem anunciado os testes em humanos da sua vacina, o Ministério da Defesa da China anunciou que também desenvolveu "com êxito" uma vacina contra o novo coronavírus e autorizou testes em humanos, embora não tenha indicado quando é que estes começam.

Já a União Europeia está confiante que consegue vacina contra novo coronavírus antes do outono. Ursula von der Leyen disse esta terça-feira que vai entregar 80 milhões de euros a um laboratório alemão que está "a trabalhar em tecnologia promissora, para desenvolver uma vacina contra o coronavírus"

Um longo caminho pela frente

Nas próximas seis semanas 45 voluntários, todos adultos saudáveis com idades entre os 18 e os 55 anos, vão ser vacinados nos EUA. Cada um receberá uma dose no músculo do braço e passado 28 dias será administrada uma segunda dose.

Os grupo será dividido em três: 15 pessoas vão ser injetadas com apenas 25 microgramas, outras 15 vão receber 100 microgramas e os últimos 15 com 250 microgramas. Se tudo correr bem, todos receberão a segunda vacina, na mesma dosagem que fizeram inicialmente.

Os voluntários vão ser chamados para oito consultas de follow-up e quatro consultas via telefone ao longo de um ano depois do segundo round de vacinação. Também terão de fazer análises ao sangue para averiguar a resposta do sistema imunitários e todos os dados recolhidos serão avaliados por uma equipa protocolar e por um comité de segurança.

Segundo o site destinado a informar os interessados em participar neste ensaio clínico, caso não falhem nenhuma consulta cada voluntario recebe no total 1100 dólares de compensação (cerca de mil euros).

Se os resultados desta primeira fase se revelarem promissores, o próximo passo é envolver centenas de pessoas em estudos alargados para ver se a vacina é mesmo capaz de proteger as pessoas contra uma infeção por Covid-19. Só é expectável que esteja disponível ao público dentro de um ano ou ainda mais tarde, admite o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas

Isso mesmo estima Celso Cunha, professor e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa. Em declarações à TSF, o virologista lembra que esta não é uma solução para a atual epidemia, mas será muito importante para evitar as próximas. Para já, a única coisa a fazer é "quebrar a cadeia de contágio".

RNA-1273: perfil de uma vacina

A vacina desenvolvida pelos EUA chama-se RNA-1273 e, ao contrário do que é feito para criar vacinas destinadas a prevenir outras doenças, não foi produzida através do vírus e não há o risco de provocar uma infeção.

Em vez de ter como ponto de partida um vírus morto ou enfraquecido, como a vacina do sarampo, por exemplo, esta vacina usa um segmento curto de uma plataforma genética chamada mARN (ARN mensageiro) - o ácido ribonucleico que transfere o código genético do ADN do núcleo da célula, que é produzida em laboratório.

Após injetado, o mARN instrui as células a expressarem uma proteína viral semelhante aos 'picos' encontrados na superfície do SARS-CoV-2 que, por sua vez, suscita uma resposta imune robusta. Só assim é possível preparar o próprio sistema imunitário para combater o vírus.

O objetivo é evitar que, em caso de contágio, o corpo de uma pessoa vacinada consiga responder atempadamente quando o novo coronavíus sequestra uma célula e impedir que este a use para se multiplicar.

A vacina perdida de epidemias passadas

Os cientistas só conseguiram desenvolver esta vacina graças a estudos anteriores sobre os coronavírus que causaram as epidemias de SARS e da MERS, a Síndrome Respiratória Aguda Grave que provocou pneumonias atípicas entre 2002 e 2003 e a Síndrome Respiratória do Médio Oriente que atingiu o mundo em 2012.

No caso da SARS para humanos, o agente patogénico infetava ratos nos testes em laboratório, ainda que de forma restritiva, e no caso da MERS não foi possível infetar ratos de todo, mas os primatas ficavam contagiados.

As dificuldades foram muitas, os ensaios clínicos estenderam-se no tempo e acabaram numa gaveta. Por alguma razão, nunca chegou a ser desenvolvida nenhuma vacina para a SARS ou o MERS. Os investigadores acabaram por desistir quando os contágios começaram a diminuir.

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