Maduro capturado pelos EUA, a "corrida de resistência" que se segue e o aviso de Trump: o que se sabe até agora?
Os Estados Unidos lançaram este sábado "um ataque em grande escala contra a Venezuela", capturaram Maduro e a mulher, que agora serão julgados em Nova Iorque. O julgamento está marcado para as 12h00 locais (17h00 em Lisboa) desta segunda-feira.
A única imagem até agora revelada do Presidente deposto foi no sábado à noite na conta da Truth Social de Donald Trump. Nicolás Maduro surge algemado e de olhos tapados.
Logo depois de divulgar essa imagem, o Presidente norte-americano falou em conferência de imprensa sobre o ataque à Venezuela, onde garantiu que os EUA vão governar o país até "haver uma transição segura, adequada e séria". Disse ainda que o petróleo da Venezuela foi uma peça chave na montagem do ataque que, classificou, foi "o mais espetacular desde a Segunda Guerra Mundial.
Neste contexto de forte tensão regional, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, deixou também um aviso ao Governo cubano: "Se eu vivesse em Havana e fizesse parte do Governo, estaria pelo menos um pouco preocupado."
Várias foram as reações pelo mundo e apelos ao respeito pelo direito internacional. A América Latina, o Brasil, o Chile, a Colômbia, o México e Uruguai, mais a Espanha, rejeitaram, num comunicado conjunto, "qualquer tentativa de controlo" sobre a Venezuela. Por parte de Portugal, foi acordado levar o tema ao Conselho de Estado de sexta-feira.
O MNE português não respondeu diretamente se o Governo acha ou não a intervenção ilegítima e questionou: "Qual é a solução? É evidente que ninguém quer o regresso de Maduro. (...) É preciso iniciar um processo de transição para a democracia." Para Paulo Rangel, Edmundo González "é a opção preferível".
Já este domingo e sem descartar a possibilidade de um novo ataque, Donald Trump ameaçou a vice-presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez: "Se não fizer o que deve, pagará mais caro do que Maduro." Cresceram ainda as preocupações por parte da Dinamarca, que pede aos EUA para que pare com as ameaças "contra um aliado histórico" por causa da Gronelândia.
Em Caracas, milhares de pessoas saíram à rua em para protestar contra a captura de Nicolás Maduro. Os manifestantes desfilaram na capital venezuelana a exigir respeito pela soberania do país e o regresso do Presidente e da mulher, apelidando os Estados Unidos de "o império que sequestrou" Maduro.
Trump "sacou o rei e a rainha num só golpe de jogo de xadrez", mas segue-se "uma corrida de resistência e não de velocidade"
Em entrevista à Lusa por WhatsApp, a partir de Caracas, capital da Venezuela, o antigo vice-ministro das Relações Externas e ex-representante permanente nas Nações Unidas reconheceu que "é muito difícil prever" o que acontecerá, mas "é evidente" que a operação desencadeada pelos Estados Unidos no sábado, e que resultou na captura e detenção de Nicolás Maduro e da mulher, "marca o início do fim do regime" no poder.
A questão é que hoje, na geopolítica mundial, "o ritmo é diferente" e não há "definições imediatas, golpes de Estado, ações concretas", distinguiu.
Acresce que os três agentes fundamentais na crise venezuelana têm também "tempos distintos": se a oposição, liderada por María Corina Machado e Edmundo González, quer acabar com a situação atual e "entrar de uma vez na democracia", o regime bolivariano quer "ganhar tempo", porque "quanto mais dure, [mais] tratará de se manter".
Entre estes dois tempos há o tempo da administração Trump, que, com "um estilo muito particular", assente na "imprevisibilidade" e que contraria "a linguagem cartesiana da diplomacia", não se fica apenas por condenações e age, "como fez no Irão".
Se antes, quer os dirigentes dos Estados Unidos, quer os da Europa já haviam considerado inadmissível o regime totalitário de Maduro (e, antes, de Hugo Chávez), mas apenas com "posições declarativas", agora, a atual administração republicana de Trump "faz o que diz".
Por tudo isto, o 3 de janeiro marca "o início do fim do regime, mas em câmara lenta", assinalou Milos Alcalay, que foi embaixador da Venezuela em países como Brasil, Israel e Roménia, tendo renunciado à carreira diplomática em 2004, em protesto contra "a orientação ideológica, política, antidemocrática" do regime de Hugo Chávez, o antecessor de Nicolás Maduro.
Uma coisa é certa, após "26 anos de dominação", abre-se "uma etapa completamente nova", notou, comparando: "Ter sacado do poder as duas figuras mais importantes, Maduro e aquela a quem chama primeira combatente, Cilia Flores, é como sacar o rei e a rainha de um só golpe num jogo de xadrez."
