Trump "sacou o rei e a rainha num só golpe de jogo de xadrez", mas segue-se "uma corrida de resistência e não de velocidade"

Foto: Ronald Pena R/EPA
Milos Alcalay diz que é "é muito difícil prever" o que acontecerá na Venezuela, mas não tem dúvidas de que Donald Trump "sacou o rei e a rainha num só golpe de jogo de xadrez". Para o antigo político e embaixador venezuelano, segue-se "uma corrida de resistência e não de velocidade"
O dia 3 de janeiro marca "o início do fim do regime" de Nicolás Maduro, mas o que virá a seguir é "uma corrida de resistência e não de velocidade", antecipa o antigo político e embaixador venezuelano Milos Alcalay.
Em entrevista à Lusa por WhatsApp, a partir de Caracas, capital da Venezuela, o antigo vice-ministro das Relações Externas e ex-representante permanente nas Nações Unidas reconhece que "é muito difícil prever" o que acontecerá, mas "é evidente" que a operação desencadeada pelos Estados Unidos no sábado, e que resultou na captura e detenção de Nicolás Maduro e da mulher, "marca o início do fim do regime" no poder.
A questão é que hoje, na geopolítica mundial, "o ritmo é diferente" e não há "definições imediatas, golpes de Estado, ações concretas", distingue.
Acresce que os três agentes fundamentais na crise venezuelana têm também "tempos distintos": se a oposição, liderada por María Corina Machado e Edmundo González, quer acabar com a situação atual e "entrar de uma vez na democracia", o regime bolivariano quer "ganhar tempo", porque "quanto mais dure, [mais] tratará de se manter".
Entre estes dois tempos há o tempo da administração Trump, que, com "um estilo muito particular", assente na "imprevisibilidade" e que contraria "a linguagem cartesiana da diplomacia", não se fica apenas por condenações e age, "como fez no Irão".
Se antes, quer os dirigentes dos Estados Unidos, quer os da Europa já haviam considerado inadmissível o regime totalitário de Maduro (e, antes, de Hugo Chávez), mas apenas com "posições declarativas", agora, a atual administração republicana de Trump "faz o que diz".
Por tudo isto, o 3 de janeiro marca "o início do fim do regime, mas em câmara lenta", assinala Milos Alcalay, que foi embaixador da Venezuela em países como Brasil, Israel e Roménia, tendo renunciado à carreira diplomática em 2004, em protesto contra "a orientação ideológica, política, antidemocrática" do regime de Hugo Chávez, o antecessor de Nicolás Maduro.
Uma coisa é certa, após "26 anos de dominação", abre-se "uma etapa completamente nova", nota, comparando: "Ter sacado do poder as duas figuras mais importantes, Maduro e aquela a quem chama primeira combatente, Cilia Flores, é como sacar o rei e a rainha de um só golpe num jogo de xadrez."
O diplomata lembra que a administração Trump disse e reiterou que capturou o Presidente da Venezuela "para combater os problemas de segurança interna dos Estados Unidos", em concreto o narcotráfico, a imigração ilegal, a questão do petróleo e o extremismo que "utiliza a Venezuela como ponte para o Hamas, o Hezbollah", grupos extremistas que atuam no Médio Oriente.
Ou seja, "sempre assinalou que a intervenção na Venezuela não era para mudar o regime". Portanto, "se não é uma mudança de regime, por que apoiaria uma mudança de regime?", questiona Alcalay, justificando assim a desvalorização de Trump em relação à oposição venezuelana, nas declarações após a captura de Maduro.
Milos Alcalay não duvida de que, ainda que na política não haja nada eterno, a oposição continua a identificar-se com a Nobel da Paz María Corina Machado e Edmundo González, que diz ter sido eleito presidente.
Mas, no entendimento do diplomata, "um apoio aberto e categórico" de Trump a María Corina Machado "prejudicaria" a oposição.
Mais: seria "o abraço do urso" e María Corina Machado apareceria como "a candidata de Trump". Ora, "ela não é a candidata de Trump", ainda que olhe "de forma realista" para o peso dos Estados Unidos na ordem mundial.
Esse "abraço" Trump deu a Delcy Rodríguez, a presidente interina, ao dizer que os Estados Unidos mantiveram contacto com ela, germinando "a suspeita interna dentro dos grupos do madurismo", que se perguntarão sobre a ligação entre essa relação e a manutenção da vice-presidente de Maduro no poder.
Além disso, frisa, "não apoiar neste momento um regime que domina tudo" introduziria o "risco de uma guerra civil, o que nenhum venezuelano quer".
Descrevendo o atual poder como "um regime militarista totalitário", apoiado no "culto de personalidade" e na "megalomania" do seu líder, Milos Alcalay assegura que "a imensa maioria dos venezuelanos, de forma cautelosa para não ser alvo de repressão, apoia uma mudança".
E nesses inclui "a imensa maioria" dos que votaram em Hugo Chávez em 1999. É que, desde então, o país empobreceu, viu sair um terço da sua população e assistiu à militarização das suas instituições.
Sobre a reação da comunidade internacional à operação desencadeada pelos Estados Unidos, o ex-representante permanente da Venezuela nas Nações Unidas afirma que, se quisessem ter "uma oposição contundente" e "intervir na Venezuela para salvar Maduro", Rússia, China e outros membros do Conselho de Segurança "tê-lo-iam feito".
Claro que os aliados de Maduro - Brasil, Cuba, Chile e México na região da América Latina e Caraíbas - "continuarão a bradar aos céus que se violou a Carta das Nações Unidas".
Mas essa mesma Carta "é violada pelo regime bolivariano do primeiro ao último artigo", lembra Alcalay, sublinhando que o importante agora é que "a alternativa da transição tenha um maior apoio, não só de Trump, mas do Governo de Portugal, dos governos europeus", dos "aliados que acreditam na democracia".
