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Afirmando que a análise dos vídeos partilhados nas redes sociais revela que, quando os tiros foram disparados, os agentes não poderiam "ter temido razoavelmente a morte ou ferimentos físicos graves", a HRW acusa-os ainda de, após o incidente, terem ficado "em volta do veículo sem fazer qualquer esforço aparente para prestar assistência médica imediata"
A Human Rights Watch (HRW) considera "injustificável" a morte de uma mulher em Minneapolis, na quarta-feira, por um agente federal de imigração dos EUA, afirmando que vídeos do incidente "contradizem claramente" as alegações das autoridades.
"Três vídeos do incidente partilhados nas redes sociais, verificados pela Human Rights Watch e por meios de comunicação social, contradizem claramente as alegações das autoridades federais de que a mulher "usou o seu veículo como arma" ou tentou matar os agentes antes de um agente abrir fogo", sustenta a Organização Não-Governamental (ONG) em comunicado.
A norte-americana Renee Nicole Good foi morta na quarta-feira por um agente dos serviços de imigração e alfândega (ICE), durante uma operação de imigração integrada na campanha do Governo do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, naquela cidade.
A morte provocou forte comoção em Minneapolis, que foi palco de protestos de grande escala em 2020 após a morte de George Floyd durante uma intervenção policial, levando milhares de pessoas a concentrarem-se no local onde Good foi abatida, para prestar homenagem, e centenas a participarem em manifestações que se seguiram.
Citada no comunicado da ONG, a diretora de crises, conflitos e armas da associação refere que, "ao longo do último ano, o ICE e outros agentes federais têm abusado impunemente das comunidades de imigrantes em todos os Estados Unidos".
"Este incidente horrível é o mais recente sinal de que as suas táticas abusivas colocam vidas em risco, incluindo pessoas que não estão sujeitas à aplicação da lei de imigração", sustenta Ida Sawyer.
Afirmando que a análise dos vídeos partilhados nas redes sociais revela que, quando os tiros foram disparados, os agentes não poderiam "ter temido razoavelmente a morte ou ferimentos físicos graves", a HRW acusa-os ainda de, após o incidente, terem ficado "em volta do veículo sem fazer qualquer esforço aparente para prestar assistência médica imediata".
"O governo da cidade de Minneapolis informou que os agentes da polícia que responderam ao incidente encontraram Good com "ferimentos de bala com risco de vida" e que os bombeiros de Minneapolis prestaram assistência médica até a chegada dos paramédicos. Duas testemunhas disseram aos 'media' que os veículos do ICE estacionados na rua impediram a passagem da ambulância, forçando os paramédicos a chegar até Good a pé, vindo do final do quarteirão", relata.
Good acabaria por morrer mais tarde no hospital, tendo o Departamento de Segurança Interna (DHS) emitido uma declaração indicando que tentou matar os agentes do ICE com o seu veículo num "ato de terrorismo doméstico".
Para a HRW, esta versão é "totalmente inconsistente com qualquer análise razoável das imagens de vídeo", encaixando-se a morte de Good "num padrão mais amplo de incidentes envolvendo o uso de armas de fogo em circunstâncias questionáveis durante operações de fiscalização de imigração".
Defendendo que "as autoridades locais e federais devem apoiar os esforços umas das outras para investigar de forma completa e imparcial o assassínio", a ONG enfatiza que, "na ausência de mecanismos internos fortes de supervisão do DHS - que diz terem vindo a ser desmantelados pela administração Trump - as comissões do Congresso responsáveis pelo DHS devem realizar audiências de supervisão".
"A morte de Good é um exemplo horrível dos perigos representados pelas agências de aplicação da lei que têm poderes para agir de forma imprudente e envia uma mensagem ameaçadora e potencialmente assustadora a imigrantes, manifestantes e transeuntes", diz Sawyer, reiterando que "as autoridades devem investigar o homicídio de forma pública e exaustiva e garantir que seja feita justiça".
