"Primeira coisa que fazem é acusar a vítima." Angola marcha contra agressão sexual de mulheres

Foto: Pixabay (arquivo)
Em declarações à TSF, a ativista Arminda Ernesto refere que a iniciativa surge como uma "resposta cívica, pacífica e legítima da sociedade civil"
Numa altura em que a violência de género continua a preocupar o mundo, representantes da sociedade civil de Angola anunciaram para este sábado uma marcha nacional contra o abuso sexual de meninas e mulheres e em solidariedade para com uma jovem de 15 anos recentemente vítima de agressões sexuais.
Em declarações à TSF, a ativista Arminda Ernesto, que faz parte da organização da marcha, assegura que o país vive "um momento crítico marcado pelo aumento de casos de violência sexual, física e feminicídio". Em resposta a este cenário, a iniciativa surge como uma contestação "cívica, pacífica e legítima" de toda a comunidade angolana.
Arminda Ernesto alerta também que muitos destes casos acontecem em ambientes familiares "por pais de família, na igreja ou na escola".
As autoridades competentes angolanas notificam os casos que lhes chegam, mas "anualmente nunca trazem um balanço ou apresentam dados". Este também é, na perspetiva da ativista, um trabalho a ser feito pela sociedade civil: "Procurar os dados, quantas mulheres morrem anualmente ou sofrem abusos sexuais?"
Embora sem números concretos, garante que o ano passado foi um dos piores dos últimos tempos.
Na origem desta marcha nacional angolana está o mais recente caso de abusos a uma jovem de 15 anos e que deixou o país em choque. O crime foi gravado e, posteriormente, partilhado nas redes sociais pelos agressores. Este acontecimento "trouxe mais vontade de lutar pela justiça", refere a ativista, considerando que "não se pode normalizar a violência".
"As pessoas estão a aprender a viver com a violência e isso é perigoso", sublinha.
A organizadora desta marcha entende que, nestas situações, as leis do país "foram feitas para proteger os gatunos". Isto porque, "na prática, não funcionam". Arminda Ernesto adianta que, na eventualidade de uma mulher apresentar queixa numa esquadra, "a primeira coisa que fazem é acusar a vítima".
"Estavas a andar [na rua] fora de horas, estavas a usar roupas curtas", exemplifica.
A ativista pede ajuda às "mulheres que estão no Parlamento" e que "têm cargos de destaque", uma vez que considera ser "necessário fazer sentir o [que é] ser mulher", numa sociedade marcada por um "sistema machista".
As concentrações vão acontecer em Luanda, Benguela, Uíje e outras províncias.