"Tenho medo que o divórcio das nações seja consumado, litigioso e até mesmo traumático"

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"O Divórcio das Nações - O Colapso da Ordem Mundial Vista Por Dentro": é o livro de memórias e reflexões do antigo embaixador na UE, ONU e Reino Unido, João Vale de Almeida. Uma análise geopolítica dos tempos modernos, com base em 40 anos de experiência política e diplomática. Esta é uma grande entrevista na TSF
Este "Divórcio das Nações" é um divórcio amigável ou estamos a caminhar por um conflito demorado?
Eu espero que seja um divórcio que não chegue a ser divórcio, mas tenho medo que possa vir a ser um divórcio consumado e talvez um divórcio litigioso e até mesmo traumático. Espero que não, mas se continuarmos nesta via, receio que sim.
A ordem mundial está já em colapso ou o subtítulo do seu livro é mais um alerta para o que pode vir a acontecer?
Este livro é um alerta, por um lado, é também a minha maneira de retribuir, de alguma maneira, à sociedade e à Europa e a Portugal aquilo que me foi proporcionado. Mas é sobretudo um testemunho de um tempo, sobretudo dos últimos 25 anos, ou seja, dos primeiros 25 anos deste século, onde me parece que aconteceram uma série de coisas importantes, reveladoras, preocupantes e que determinam onde é que estamos hoje no mundo. E é uma contribuição modesta para uma melhor consciência dos riscos que corremos de um divórcio global, mas também de um divórcio dentro de cada uma das nações. No fundo eu falo de dois divórcios, de divórcio ao nível global entre as nações, mas também de um divórcio dentro de cada uma das nações, com a questão do populismo e da intolerância e da polarização. E os dois divórcios interagem e um complica mais o outro e vice-versa.
É um livro que resulta, portanto, da sua experiência profissional como diplomata nos vários contextos em que esteve, das reuniões, das conversas, daquilo que viu, do contacto que teve com tantas personalidades internacionais de relevo. Há alguém que o tenha marcado especialmente pela positiva e especialmente pela negativa?
Eu sempre abordei este contacto direto com líderes de uma forma modesta, não é? Quer dizer, eu reconheço que para ser um líder mundial é preciso ter uma série de características, é o produto de uma série de condições e, portanto, eu era um modesto diplomata profissional a acompanhar esses líderes e o meu livro reflete um bocadinho as impressões que eu tive, as opiniões que tive sobre eles. Há uma série deles que para mim são animais políticos mais naturais que outros. Eu distinguiria talvez o Tony Blair e o Bill Clinton como sendo, digamos, aqueles que melhor personificam os animais políticos naturais, se quiser. Depois há uma série de líderes que me impressionaram por diversas razões, Angela Merkel, Emmanuel Macron, mas também outros que às vezes são subestimados, como George W. Bush, por exemplo, que muitas vezes é subestimado mas que é um homem muito interessante e com um percurso engraçado, a maneira como ele não se relaciona com o Sr. Trump, por exemplo, é interessante. Barack Obama, intelectualmente brilhante mas mais frio do que as pessoas pensam em termos do contacto humano. Boris Johnson, que eu conheço há 35 anos e de quem me considero ainda amigo e que é uma personagem fascinante, mas a quem eu, enfim, não confiaria os meus netos, digamos, mas a quem reconheço um brilhantismo intelectual e cultural e uma verve quase única. Fez muito mal ao seu país, muito mal à Europa, ao meu ver, mas não deixo de reconhecer nele algumas características interessantes, e por aí fora, Já para não falar o Sr. Vladimir Putin, que talvez tenha sido o líder que eu, digamos, encontrei mais vezes e que, por todas as razões que conhecemos, mais me impressionou. Portanto, há aqui um conjunto, e obviamente não estou a falar das pessoas com quem trabalhei, que apreciei imenso, e em particular o José Manuel Durão Barroso.
Eu queria mesmo voltar ao Vladimir Putin. No livro revela as inúmeras vezes em que participou em encontros com Vladimir Putin e os primeiros sinais de alerta e queixas que o líder russo manifestou bem antes da invasão da Ucrânia em 2022. Que queixas eram essas, João Vale de Almeida?
Eu descrevo no livro particularmente uma reunião que tivemos em 2006, numa residência do Presidente Putin nos arredores de Moscovo, onde estava só eu e o Presidente da Comissão na altura, o José Manuel Barroso, e foi uma reunião de quatro horas, incluindo um jantar, onde, a meu ver, ficaram plasmados todos os argumentos e as frustrações e as acusações do senhor Putin em relação ao Ocidente. Eu acho que há nele, sobretudo, um grande trauma com o fim da União Soviética, que ele considera, aliás, uma grande desgraça do século XX, um sentimento de humilhação, de não reconhecimento pelo Ocidente do papel da Rússia. Ele fala muito de cristandade e do facto da Rússia ser a projeção da cristandade até ao Pacífico, e que tal não é reconhecido pelo Ocidente. Também acusa o Ocidente de não perceber quão difícil é gerir um país tão grande e tão diversificado como a Federação Russa. Tudo isso estava plasmado nessa conversa de 2006. O que eu acho é que a personalidade do senhor Putin se tornou cada vez mais sombria, que ele se tornou cada vez mais alguém isolado no topo do poder, sem checks and balances, sem contraditório, rodeado de yes-men e de um sistema que girava à volta dele, e isso não pode dar bons resultados, não é? Mas, se quiser, o essencial já estava, digamos, visível nessa altura em 2006, 2005, quando eu comecei a ter um contato mais direto com ele.
Mas, pelas palavras dele, já se antecipava que o que poderia vir a acontecer na Geórgia e depois na Crimeia?
Não posso dizer isso, porque se dissesse isso estava a criticar-nos a nós por não termos atuado nessa altura. Não, os elementos estavam aí, agora a evolução que ele teve e como isso se produziu na prática, nos factos, não podia prever na altura, aliás, eu reli as minhas notas da altura e isso não estava previsto, não estava escrito, o que eu me lembro da altura e confirmo na minha visão retrospectiva hoje, era que esses elementos estavam lá. O que nós tentámos, e é preciso que se diga isso também, o que a Europa tentou, foi no fundo transformar essas frustrações em algo positivo, ou seja, se o senhor acha que nós não reconhecemos a importância da Rússia, vamos então aprofundar a nossa relação, vamos tornar esta relação UE-Rússia uma relação mais ambiciosa e fizemos, e nessa própria reunião o Presidente Barroso falou claramente disso, vamos fazer aqui uma agenda positiva, as nossas economias são complementares, vocês têm matérias-prima, nós temos mercado e tecnologia, vamos aqui acertar alguns princípios sobre os quais vamos trabalhar e vamos consolidar esta relação. Essa era a atitude europeia nesses anos. Nós tínhamos duas cimeiras anuais com a Rússia, era o único país com o qual tínhamos essa relação tão intensa, daí o número de vezes que eu estive com o senhor Putin, que eu calculo à volta das 15, porque tínhamos as reuniões formais de cimeiras, depois tínhamos algumas reuniões informais com esta que eu descrevo, e depois tínhamos as cimeiras do G8. A Rússia estava no G7, que é agora o G7, preciso não esquecer, tivemos uma cimeira em São Petersburgo que eu também falo no livro, e depois tínhamos desde o início da crise financeira as cimeiras do G20, onde a Rússia também estava, daí o número enorme de encontros com o senhor Putin que tivemos na altura e com o senhor Medvedev quando ele esteve temporariamente no poder, a nossa intenção era tornar esta relação numa relação positiva e não numa relação negativa.
O senhor Putin, com a evolução dos acontecimentos, optou, como eu costumo dizer, pelo lado sombrio da Rússia e pelo lado sombrio da história, e optou por aquilo que nós vemos atualmente. Tenho muita pena que isso tenha acontecido, e que ele não tenha sido capaz de ver, digamos, a dimensão positiva que poderia ter, ou retirar, de uma relação diferente com a União Europeia.
Como é que observa, até em face a isso, o atual momento de tentativa de chegar a um acordo que acabe com a guerra?
Com algum ceticismo, devo lhe dizer. Com alguma esperança, obviamente, tudo o que seja acabar com a mortandade na Ucrânia é bom, mas não vejo, não tenho grande esperança que isso possa acontecer na situação atual. Eu acho que é de saudar o investimento dos EUA na procura de uma solução, primeiro ponto. Mas é de criticar a maneira como os EUA estão a tentar encontrar essa solução, porque se aqueles 28 pontos tiveram alguma maneira o beneplácito do lado americano ou do Sr. Trump, isso é muito mau sinal, porque quer dizer que é uma quase capitulação em relação ao Sr. Putin. O que me parece é que não estão, a meu ver, reunidas ainda as condições para o fim da guerra. As guerras terminam quando algum dos lados, ou os dois, consideram que já não têm condições para ganhar, e não me parece que estejamos aí nesse estado ainda. Eu acho que vamos continuar com uma guerra de attrition, como se diz no jargão em inglês, uma guerra de atrito, se quiser, ou então vamos descambar num conflito congelado. Não estou a ver como é que se pode ir muito para além disto. Penso que a esperança é que se consiga um entendimento que preserva a paz, que instale o cessar-fogo, que lance um processo de negociação, que poderá demorar algum tempo. Não me parece, mas posso estar totalmente errado, que já estejam reunidas as condições para se dar um salto qualitativo. Vamos ver, espero que sim, mas não estou muito convencido disso.
Donald Trump acabou de prometer uma ação sobre a Venezuela muito em breve. Temos então mais uma guerra no horizonte? Como é que vê estas oscilações da atual política externa americana?
Eu sou muito crítico do senhor Trump, como imaginará. O meu livro fala disso. Eu acho que o senhor Trump é causa e é sintoma. É causa de um agravamento muito claro da instabilidade, é causa da diminuição, digamos, dos valores de decência na política, acentua o que eu chamo de divórcio dentro de cada nação e dentro dos EUA em particular, mas com implicações para o estrangeiro, e também acentua o divórcio entre as nações a nível global.
Retirou-se do acordo sobre o Irão, retirou-se do acordo sobre o clima, retirou-se uma série de organizações das Nações Unidas, enfim. Não esteve no G20, não esteve na COP30, quer dizer, tudo isso são sinais muito negativos da contribuição dos EUA para evitar o tal divórcio entre as nações, portanto acho que é uma atuação globalmente muito negativa, mas não posso deixar de saudar alguns esforços em termos da paz em Gaza ou da tentativa na Ucrânia. Tudo o que os EUA façam para resolver problemas a nível mundial, ao meu ver, é bem vindo, desde que sejam com o espírito construtivo de criar soluções Agora, outras atitudes, e no meu livro falo disso, do exercício do poder americano de forma discricionária, são naturalmente criticáveis, não é? E portanto, o que eu vejo nessa situação da Venezuela é um bocadinho a aplicação da velha doutrina Monroe, de que os EUA são no fundo a potência dominante no que eles chamam de hemisfério ocidental, que é um termo que não usamos muito na Europa, mas para eles é a metade deles do mundo. As manifestações em relação à Venezuela, como antes em relação ao canal do Paramá, ou até em relação à Grunlandia, são exemplos de uma atitude que é preocupante e que pode ter a ver com o que é, no meu ver, uma dimensão das mais importantes da situação atual: a ideia de que o mundo pode ser dividido em zonas de influência, em esferas de influência, em que a China terá uma, os Estados Unidos terão outra e eventualmente a Rússia terá outra.
Isto é um retrocesso histórico considerável e que no passado não deu bons resultados e que põe, por exemplo, a Europa numa situação muito difícil e muito frágil. Eu espero que estas movimentações em torno da Venezuela não sejam uma manifestação desse objetivo mais vasto.
Escreve no livro: "Os céus da governança global e nacional continuam carregados, pertencendo-se a uma espécie de tentação pelo abismo. Alguns dos principais líderes mundiais parecem mais apostados em esticar a corda que os separa do que em aliviar a tensão no ar que respiram." Portanto, chegamos a este estado. É culpa de quem governa, de quem se opõe a quem governa ou nossa, eleitores?
Eu acho que é de todos. Eu acho que é de todos. Ninguém se pode ilibar de alguma culpa no estado atual das coisas. No fundo, Ricardo, a culpa é de líderes fortes e de líderes fracos. Os líderes fortes porque acham que podem dominar o mundo e que o mundo deve ser controlado por pessoas como eles. Os líderes fracos porque se opõem pouco ou porque não conseguem estabelecer consensos nacionais que permitam contrariar esse tipo de situações. E é de nós todos, eleitores, votantes, nos países onde se pode votar, não é? Porque alguns destes atores, os seus eleitores, não têm voto na matéria. Mas onde podemos votar, de alguma maneira, também não assumimos as nossas responsabilidades. Aí entra aquela noção dos dois divórcios, o divórcio à escala global e o divórcio em cada país, onde as forças populistas aproveitam todas as dificuldades de uma forma demagógica para criar ainda mais divisão, ainda mais tensão, ainda mais polarização. E os eleitores muitas vezes sempre têm-se tentados a segui-los. Eu acho que isso aí é culpa nossa enquanto eleitores. Eu não voto em populistas, mas aqueles que votam estão também a assumir alguma parte dessa responsabilidade. Os outros, que não votam nos populistas, as forças políticas moderadas de centro-esquerda e centro-direita, têm que acordar para uma realidade que é perigosa e têm que assumir a sua responsabilidade, têm que combater o populismo, mas não combater os votantes do populismo. Ou seja, reconhecer que se as pessoas votam por essas forças é porque têm alguma frustração, é porque algumas das suas dificuldades não estão a ser bem geridas e bem respondidas pelas forças políticas mais tradicionais. Portanto, aí há uma responsabilidade, como eu dizia no início da minha resposta, uma responsabilidade coletiva.
Por isso é que eu escolhi este título para o livro, o Divórcio das Nações, que é um duplo divórcio, porque acho que é a minha responsabilidade também, porque tive o privilégio de ter contato com esta realidade mais do que outras pessoas, de partilhar a minha experiência, de alertar para os riscos que estamos a correr. Eu acho que é a situação geopolítica e geoeconómica em consequência, mais difícil que estamos a viver desde o fim da Guerra Fria, claramente.
E fala num divórcio tanto dentro das nações como entre elas e entre a espécie humana e o planeta Terra. Tem respostas para as perguntas que faz a seguir? Como e porquê aconteceu isto? Onde é que errámos tão grosseiramente?
Eu partilho as perguntas com os meus leitores e com os jornalistas que me fazem perguntas, porque obviamente não tenho todas as respostas. Veja os últimos acontecimentos, as últimas cimeiras internacionais. O G20 na África do Sul e o COP30 em Belém do Pará, no Brasil. Em ambos, os Estados Unidos estavam literalmente ausentes, não estava lá ninguém dos EUA.
Por outro lado, em ambas faltaram muitos líderes mundiais. Por exemplo, a China não esteve em nenhum deles. Já não falo do presidente Putin, que tem o mandato do Tribunal Penal Internacional, portanto é melhor não viajar muito, em alguns países. Mas são duas cimeiras fundamentais onde temos razões para duvidar que os líderes mundiais estejam a investir o suficiente nelas para elas poderem dar resultados. Portanto, isto é um sintoma, digamos, da profunda crise do multilateralismo, da profunda crise das Nações Unidas, enquanto tal, a começar pelo seu Conselho de Segurança, e portanto tudo isso contribui para a ideia de que há um divórcio entre as nações, um divórcio dentro de cada nação e até um divórcio entre nós todos e o planeta Terra, porque a questão do clima, a questão da biodiversidade, mas também, se quisermos falar do G20, que há alguns temas que lá foram tratados, da questão das grandes desigualdades internacionais, da questão da dívida dos países em vírus de desenvolvimento, enfim, tudo isso.
Pensa que a irrelevância é um risco sério que a ONU corre?
Eu acho que sim, infelizmente, porque eu sou um grande multilateralista e fui embaixador das Nações Unidas e acho que o perigo agora, atualmente, é nós, de alguma maneira, atirarmos o bebê com a água do banho. Portanto, as Nações Unidas estão em crise, pode haver uma tendência de dizer que elas já não são precisas, que já não são eficazes, portanto esqueça-se das Nações Unidas. Ora, eu pergunto: o que é que nós conseguimos fazer em substituição das Nações Unidas? Portanto, a minha ideia é de que temos que preservar o bebê, mesmo que deitemos a água do banho, que é a situação, o contexto atual onde estamos e que não está a funcionar, se nós quiséssemos recriar as Nações Unidas hoje, não conseguimos. E não me parece que tenhamos uma alternativa melhor. Temos é que olhar para os problemas das Nações Unidas, para as fraquezas, para as contradições, para as incongruências, olhar atentamente o que são as Nações Unidas hoje.
Como se sabe, tudo parte do Conselho de Segurança. O Conselho de Segurança é a instituição central das Nações Unidas. É a partir daí que as Nações Unidas têm a sua capacidade de atuar, sobretudo em termos de prevenção e gestão de conflitos, mas não só. Ora, o Conselho de Segurança está em profunda crise, porque alguns dos seus membros permanentes estão claramente a violar a Carta das Nações Unidas, o entendimento do Conselho de Segurança na prática está largamente paralisado, daí também um enfraquecimento da capacidade do Secretário-Geral. É uma ilusão pensar que o Secretário-Geral da ONU, seja ele quem for, tem capacidade de atuar se não tiver o apoio do Conselho de Segurança. Ora, neste momento esse apoio não existe, essa direção e orientação do Conselho de Segurança não existem, e portanto isso é um problema fundamental das Nações Unidas atualmente, ao qual se acresce o desinvestimento dos Estados Unidos, que desinvestiram financeiramente e politicamente na ONU. Obviamente que sem esse investimento americano as Nações Unidas têm muito menos capacidade de atuar. Portanto, há uma tendência perigosa para a irrelevância e uma urgência de reforçarmos as Nações Unidas, a bem da comunidade internacional.
Escreveu no Expresso e recorda no livro que "o regresso de Trump à Casa Branca significaria o fim da decência e o princípio da incerteza". Diz que acertou na natureza do projeto, mas subestimou a intensidade da implementação. Em que medida?
Eu acho que acertei, não estou a reivindicar nada que outros não tenham também escrito, mas eu acho que há aqui uma dimensão que, a meu ver, é das mais importantes influências negativas do Presidente Trump, que é, no fundo, baixar todos os estándares, todos os padrões de decência na política. Ora, o Sr. Trump, os exemplos que ele está a dar, são muito negativos. Se é assim que as pessoas devem tratar os seus iguais, se é assim que devem tratar as mulheres, se é assim que devem tratar os seus opositores, estamos mal, não é? Porque o exemplo não é bom. E a mensagem que é mandada de Washington para o resto do mundo é uma mensagem muito negativa sobre como se deve comportar em sociedade, se quiser, em termos da sociedade das nações. Tudo isso é negativo, portanto o fim da decência, a meu ver, estava correto. O princípio da incerteza, eu queria dizer, sobretudo, que vai à imprevisibilidade na cena internacional, eu acho que isso se confirmou nas duas dimensões. Trump, no fundo, foi ainda além daquilo que eu receava, em termos do primeiro ano do seu mandato. Vamos ver onde é que isto nos leva, mas, por enquanto, estou bastante cético em relação a isso.
Xi Jinping e Putin aproveitaram para cavalgar mais a onda onde já surfavam, se me permite a expressão?
Absolutamente, quer dizer, sabe que em relações internacionais há vasos comunicantes muito claros, não é? Quando existem vácuos, esses vácuos são imediatamente preenchidos por outras potências, por outras forças, por outros líderes, e o que de facto aconteceu desde o início do mandato do Sr. Trump, mas mesmo antes, com uma certa retirada dos EUA, e eu cito algumas situações anteriores, quer durante o mandato de George W. Bush, quer durante o mandato do Sr. Obama, em que, por razões diversas, os EUA perderam influência, perderam reputação, perderam capacidade de jogar o papel que terão jogado anteriormente, e outras potências aproveitam-se disso.
E sobre a situação atual, muitas vezes nós dizemos que Putin está isolado na cena internacional. Eu não acho nada que o Sr. Putin esteja isolado na cena internacional, antes pelo contrário, eu cito algumas situações no livro, uma cimeira em Kazan, na Rússia, no final do ano passado, onde, a propósito de uma cimeira dos BRICS, o Sr. Putin reúne 40 e tal líderes mundiais, incluindo o Xi e Modi, e muitos outros, até um membro da NATO, a Turquia, mas penso também na parada militar de Pequim em setembro passado, onde claramente esses líderes, e o Sr. Putin e o senhor Xi em particular, lançam uma mensagem para o Ocidente a dizer que nada será como dantes. Portanto, eu que sou um defensor dos padrões euro-atlânticos, assumidamente, sou um europeísta convicto, como sou também um transatlanticista convicto, se posso dizer assim, acho que este conjunto de países têm que acordar para uma nova realidade em que os novos equilíbrios de poder implicam que assumamos em conjunto novas responsabilidades. A chegada ao poder, ou a regresso ao poder do Sr. Trump complica as coisas, mas não podemos deixar de ter uma consciência clara que a Europa, o Reino Unido, os países do G7, no seu conjunto, têm que atuar perante este novo contexto.
Está ameaçada a democracia e a ordem internacional baseada em regras, no meio disto tudo as pressões populistas e nacionalistas dentro dos países europeus. Neste quadro, o que é que pensa que é possível fazer?
Eu acho que é possível, ao nível europeu, assumir que estamos num novo ciclo. O nosso projeto inicial continua a ser, e sempre foi, um projeto de paz dentro da União Europeia, ou seja, não ter guerras entre os países europeus. E conseguimos, foi um grande sucesso, parámos com séculos de guerras civis europeias. O novo projeto tem que ser continuar a garantir esse primeiro projeto de paz entre os europeus, mas também garantir paz na vizinhança da Europa. Na vizinhança continental da Europa, mas também para além da Europa. Portanto, é muito difícil a União Europeia sobreviver num mundo em que impera a lei do mais forte. Porque isso é a antítese do que nós somos enquanto projeto europeu. Portanto, temos que projetar o nosso projeto de paz dentro da Europa para um projeto de paz na nossa vizinhança e potencialmente à escala global. Ou seja, uma alteração qualitativa do projeto europeu, que passa, por exemplo, por uma nova capacitação em termos de defesa e segurança, que não é um luxo, que não é um capricho, é uma absoluta necessidade. Se nós queremos preservar aquilo que construímos até hoje. E os europeus têm que perceber que se querem garantir o seu sistema de economia social de mercado, de proteção social avançada, que se querem proteger as suas pensões, se querem proteger o futuro dos seus filhos e dos seus netos, isso pode passar no contexto atual por um reforço da nossa capacidade de nos defendermos a nós próprios e de contribuirmos para a paz, não só na nossa vizinhança, mas para um contexto pacífico à escala global.
E Portugal neste contexto de divórcio das nações, como é que fica?
Portugal, eu acho que este contexto reforça claramente a validade e a bondade da nossa opção euroatlântica. Não há dúvidas hoje que neste contexto ainda tem mais valor a opção que fizemos de integrar a Nato e a opção que fizemos de integrar a União Europeia. Imagine-se o que seria o estado de Portugal no contexto atual, com um país isolado, periférico, pobre, orgulhosamente só. Não, essa não é, de todo, a alternativa. Agora como é que temos que atuar neste contexto dentro da Nato, dentro da União Europeia, na nossa relação transatlântica, na nossa relação com a África e com a América do Sul? Eu acho que temos que assumir sempre uma posição de linha de frente, de estar entre os primeiros que querem reforçar a União Europeia, que querem o alargamento da União Europeia para que a União Europeia seja ainda mais forte e seja mais credível na escala internacional, um país que quer o reforço da NATO e uma efetiva atuação da NATO enquanto aliança defensiva, que quer reforçar, apesar do Sr. Trump, e para além do Sr. Trump, a relação transatlântica, que quer reforçar a relação entre a Europa e a África e entre a Europa e a América do Sul, através, por exemplo, do acordo do Mercosul, mas não só. Essa tem que ser a posição de Portugal, sempre na linha da frente da consolidação daquelas alianças que, no fundo, servem aos nossos interesses. E ao mesmo tempo, no plano interno, não quero entrar muito por aí, mas basicamente também ser credível através de uma boa gestão dos nossos recursos, da nossa gestão financeira, da nossa competitividade, ser fortes a cá adentro para podermos ser também um parceiro mais forte lá fora.
No livro fala-nos também em "altos níveis de desigualdade pelos quais foram culpabilizados o comércio livre e a distribuição não equitativa da riqueza, tornaram-se intoleráveis para muitos, desencadearam o sentimento da antiglobalização". Fala nas guerras culturais "alimentadas por redes sociais tantas vezes manipuladas, que exacerbam tensões, preconceitos e violência nas nossas sociedades". Pergunto-lhe se estaremos a precisar de um movimento de desdigitalização, de voltarmos a ser mais analógicos na forma de viver?
Olhe, eu já tenho quase 70 anos, portanto sou um grande fã do analógico, mas eu reconheço que o digital está aí para ficar e temos que nos adaptar certamente. O que eu acho fundamental é mantermo-nos muita alerta para as ameaças que esse novo contexto comporta, de nos mantermos muito conscientes de que muitos atores nos tentam instrumentalizar a todos os níveis e manter uma consciência individual e uma consciência coletiva enquanto país, de que temos que ser resilientes, temos que ser serenos, temos que ter uma visão clara para onde é que queremos ir, e sobretudo evitar o aprofundar da intolerância e da divisão. O Ricardo falava da questão da desigualdade e da percepção da desigualdade, ligada muito à globalização; afinal sabemos que o senhor Trump foi eleito em larga medida por pessoas que estavam frustradas com os efeitos da globalização, como o Brexit também resultou em grande parte disso, como nos nossos países as forças populistas também se alimentam da frustração de parte da população. Portanto tudo isto está ligado, daí que eu fale de dois divórcios que têm que ser considerados no seu conjunto, mas acho que as pessoas mais informadas e mais educadas, mais atentas, têm que ter um papel de reconhecimento dos perigos que existem atualmente na nossa sociedade e à escala mundial, e fazer o possível para alertar os outros para essa realidade. Enfim, eu escrevi o livro em parte para partilhar a minha experiência e pô-lo à disposição de outros e para provocar conversas como esta sobre estes problemas vistos, talvez, de uma forma um bocadinho mais global.
