Tensão militar com EUA "preocupa" portugueses na Venezuela, que estão "preparados para qualquer coisa"

Neil Constantine/Nurphoto Via AFP
Fernando Campos, conselheiro da comunidade portuguesa na Venezuela, vive há 46 anos no país sul-americano e admite abandonar o país se houver um agravamento da tensão militar e do custo de vida
O conselheiro da comunidade portuguesa na Venezuela, Fernando Campos, afirma que acompanha com "grande preocupação" as últimas movimentações norte-americanas em torno do país, confessando acreditar que esta é uma medida que só serve "para criar ansiedade".
À TSF, o Fernando Campos começa por explicar que é difícil ter noção do perigo a que estão sujeitos, tendo em conta a falta de informação independente. Ainda assim, Fernando Campos diz que não dá para fugir ao que se passa na região.
"Temos fé de que isto não passará a coisas maiores, porque com certeza que nos preocupa muito a situação", assume.
Refere, contudo, que a corre a "firme sensação" de que as novas operações anunciadas pelos EUA na Venezuela são apenas uma medida para "criar alguma ansiedade e ver se há algum descuido da parte do Governo venezuelano".
"Custa-nos um bocadinho acreditar que os Estados Unidos possam fazer algum tipo de intervenção. (...) Mas com certeza que estamos preparados para qualquer coisa. Temos de estar atentos a qualquer coisa que se suceda. A situação do país é difícil", reconhece.
Por causa da tensão com os EUA e também devido à frágil situação económica do país, Fernando Campos diz que todos os dias há portugueses que ponderam abandonar a Venezuela.
"As pessoas têm muitas dificuldades: do ponto de vista de apoio social, apoio médico, medicamentos, incluso para a alimentação. Sobretudo as notícias na televisão passam a comunidade portuguesa na Venezuela que há gente de muito sucesso - e sem dúvida que é a nossa comunidade visível -, mas aquela que não se vê, que não é tão visível, está a atravessar dificuldades muito grandes", denuncia.
E destaca, particularmente, que há portugueses a passar "grandes necessidades do ponto de vista alimentar e médico", devido à escassez de medicação. "E as pessoas vêm falar connosco, com os conselheiros, como se nós tivéssemos uma varinha mágica para resolver essa situação", assinala.
A TAP e outras companhias áreas suspenderam os voos de e para a Venezuela na sequência da informação das autoridades aeronáuticas dos Estados Unidos sobre não estarem garantidas as condições de segurança no espaço aéreo do país. Ainda que note que a medida possa ser "temporária", Fernando Campos sublinha que esta situação motiva um aumento da apreensão devido ao aproximar do Natal e da passagem de ano.
"Perante uma situação de dificuldade, o que é que as pessoas podem pensar? É querer sair do país. E, se não há voos, como é que saímos? (...) Sem dúvida que há uma preocupação muito grande e [ainda para mais] mais nesta altura próxima ao Natal, em que as pessoas estão a pensar ir passar o Natal a Portugal com a família, com os filhos que têm fora. Isso cria muita, muita soçobra nas pessoas", garante.
O conselheiro da comunidade portuguesa na Venezuela considera ainda que a maioria do povo venezuelano não está unida em torno do Governo de Nicólas Maduro.
"Há muita gente que estará com o Governo, porque também não conheceram outra coisa. Já passaram 25 anos desde que entrou este Governo e, então, mais que não seja, o homem é um animal de costumes. Acostuma-se a viver assim e não conhece outras coisas. Mas não posso acreditar que a grande maioria dos venezuelanos esteja a apoiar este Governo", confessa.
A Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA emitiu no domingo um aviso instando os voos comerciais a "extremar a precaução" ao sobrevoarem a Venezuela e o sul das Caraíbas, devido ao que considera "uma situação potencialmente perigosa na região". O alerta surgiu num momento em que os Estados Unido têm um forte destacamento militar na zona para pressionar o Governo do Presidente venezuelano.
A FAA emitiu uma comunicação na qual advertiu "sobre uma situação potencialmente perigosa na região de informação de voo de Maiquetía", que corresponde ao espaço aéreo controlado pela Venezuela, que inclui também parte das Caraíbas sul e oriental.
Washington sustenta que o contingente procura combater o narcotráfico e assegura que o Governo de Maduro, que considera Presidente ilegítimo da Venezuela, é parte integrante do tráfico de drogas na zona.
No âmbito desta operação, os EUA destruíram cerca de duas dezenas de lanchas aparentemente carregadas com drogas, tanto nas Caraíbas como no Pacífico, provocando a morte de pelo menos 83 dos seus ocupantes.
