"Durante muito tempo a Guerra Civil foi um tabu"
Espanha

Dez anos do fim da ETA. "Desapareceram os olhares de ódio na rua"

O grupo terrorista basco pôs fim à violência há uma década, depois de mais de 3500 atentados e mais de 850 mortos.

Naquele 20 de outubro de 2011, Gorka Landaburu, jornalista, sobrevivente de um atentado da organização terrorista ETA, viajava de carro entre Pamplona e San Sebastián quando ouviu a declaração pela rádio: "A ETA decidiu o fim definitivo da sua atividade armada." Eram sete da tarde, e, com esta declaração histórica, a ETA punha um ponto final a mais de 40 anos de terrorismo, que fizeram mais de 3500 atentados e 354 mortos.

"Senti uma enorme emoção, mas um sentimento agridoce também por todos os amigos que tinham ficado pelo caminho", lembra. "Quando cheguei a casa, a minha filha veio a correr dar-me um abraço e aí sim caíram-me as lágrimas. Isto significava voltar a viver normalmente, sem ter de olhar debaixo do carro, sem ter de olhar à saída do prédio... poder ir tomar uma cerveja, comprar o jornal ou simplesmente o jornal sem ter um senhor à frente e atrás. Eu estive 12 anos com escolta e isso marca muito."

Gorka sabia que era um objetivo do grupo terrorista desde 1998. "Ligou-me o ministro da Administração Interna, Ángel Acebes, para me dizer que aparecia nas listas da ETA e que me iam pôr escoltas", conta. A partir desse dia a vida nunca mais foi igual. "Acabas por te habituar mas é estranho, claro. Eu tentei sempre fazer uma vida o mais normal possível para não ter essa sensação de falta de liberdade. Nunca deixei de sair para beber um copo com os meus amigos, ou jantar fora... os escoltas iam comigo para todo o lado. Tentava viver da forma mais normal possível dentro da anormalidade da situação... e isso salvou-me de de muitas coisas", recorda.

Uma vigilância apertada mas que, ainda assim, não foi capaz de impedir o atentado. A 15 de maio de 2001, Gorka recebeu um embrulho armadilhado em casa. Abriu-o e a bomba explodiu. "Apanharam-me. Foi a primeira coisa que pensei", explica. "Mutilaram-me, destroçaram-me as mãos, deixaram-me cego do olho esquerdo, deixaram-me surdo e com cicatrizes por todo o corpo, mas não me cortaram a língua e eu sou jornalista. Ainda na cama do hospital decidi que eu não me ia embora. Não iam conseguir expulsar-me do meu país."

Gorka conhecia demasiado bem o exílio. Nasceu em Paris, em 1951 e só voltou a Espanha com 21 anos. O seu pai, Francisco Javier Landaburu, foi vice-presidente do Governo basco durante a II República espanhola. Perseguido pelo franquismo, teve de fugir para Paris, onde se exilou durante quase 30 anos, até à sua morte em 1963. "O meu pai nunca pôde voltar à sua Vitoria natal. Morreu no exílio, criou a sua família no exílio e eu não ia passar pelo mesmo. Não. Eu ia ficar no País Basco até conseguir a paz."

Paz e perdão

Essa paz chegou há 10 anos. E 10 anos demorou também o pedido de desculpas que muitos esperavam da boca de Arnaldo Otegi, coordenador geral do Bildu, a coligação basca que integra os herdeiros do Herri Batasuna, antigo braço político da ETA. "Queremos fazer uma menção especial e específica às vítimas provocadas pela violência da ETA. Lamentamos a sua dor e afirmamos que nunca deveria ter acontecido", disse Otegi esta segunda-feira.

Landaburu valoriza o passo: "Reconhecer o dano causado e que a violência nunca deveria ter existido tem uma relevância especial. Há muito que esperávamos este dia. Agora falta a outra parte, fazer uma autocrítica política de todo o seu passado, passar das palavras aos atos, fomentar a empatia, apostar pela convivência... mas é um passo importante."

Ao longo dos anos, a legitimidade do Bildu como partido político, sempre foi questionada. Todas as semanas, no Congresso dos Deputados, a oposição ataca o Governo de Pedro Sánchez por se apoiar "nos votos dos herdeiros da ETA" para manter a estabilidade da legislatura.

Para Landaburu, é um debate estéril: "Estivemos anos a repetir a mesma frase: "bombas ou votos". Agora já não existem as bombas, existem os votos. E em democracia, todas as ideias se podem defender sem violência. Gostemos ou não, o Bildu é um interlocutor válido. É um partido legalizado depois do fim da ETA, que condena a violência que, efetivamente, tem um passado escuro, mas é uma formação política tão válida como as outras. E, além disso, não nos esqueçamos que é a segunda força política no País Basco, com muita relevância."

O jornalista critica ainda quem continua a usar o terrorismo para enlamear o debate político. "Não aceito que se continue a usar este tema por interesses políticos. Não aceito que o Pablo Casado esteja todas as quartas-feiras no Congresso a falar da ETA e dos herdeiros da violência, quando já não existe terrorismo, é tudo por interesse político. O voto do deputado do Bildu é o mesmo voto do deputado do partido socialista, do partido popular ou mesmo do Vox", denuncia.

Gorka Landaburu é um sobrevivente. Ou uma "vítima privilegiada", como gosta de dizer, porque "não me conseguiram matar". Em 2012, quis a reunir-se na prisão com terroristas arrependidos, dois deles, parte do comando que organizou o seu atentado. "Eu queria saber... e, nesse caso, acho que foi mais o meu instinto jornalístico que me guiou. Estive com sete membros da ETA numa sala da prisão e falámos durante duas horas e meia sobre a inutilidade da violência", lembra. "No final da conversa, vieram dois etarras e disseram-me: 'nós fazemos parte do comando que te mandou a carta armadilhada a casa; não participámos diretamente nessa ação mas pedimos-te perdão'."

Gorka estendeu-lhes a mão. "Surpreendeu-me. Disse-lhes que me parecia uma atitude muito corajosa, que depois de tudo o que me tinham contado, sair de uma organização como a ETA é um caminho difícil e que, a partir de então, eu faria o que pudesse para que conseguissem sair o mais depressa possível."

Reconhecimento e memória

Não há ódio nem rancor nas palavras de Gorka Landaburu. "O ódio fica contigo. É a segunda vitória do terrorista, depois do atentado, e eu não lhes queria dar mais essa vitória." E impressiona a empatia que consegue demonstrar com quem lhe provocou tanto sofrimento. Por isso defende que os presos, muitos deles dispersos pelo país, a centenas de quilómetros das suas famílias, sejam transferidos a prisões da sua área de residência, como aconteceu com Oskarbi Jauregi, uma das colaboradoras do seu atentado.

"Não fico feliz por ela, mas sim pela sua família. Não se trata de ter empatia com os terroristas, mas sim com as famílias. O que não se pode fazer é castigar as famílias a fazerem mais de 2000 quilómetros de ida e volta para verem o filho. Mesmo que o filho seja um terrorista. Os pais não têm culpa", explica. "Temos que avançar, temos que continuar a viver todos e conseguir uma boa convivência a dispersão dos presos não serve para nada, só para crispar o ambiente."

Convivência. Gorka repete esta palavra uma e outra vez. No País Basco ainda há muitas feridas sem cicatrizar, lembranças de um tempo em que os olhares se evitavam e os encontros se faziam de costas voltadas. "O País Basco é um sítio pequeno, conhecemo-nos todos, e não há nenhuma família que não tenha uma vítima da ETA, ou uma vítima da violência policial, torturas... O que eu noto é que agora se começam a cumprimentar pessoas que antes não se cumprimentavam e desapareceram os olhares de ódio na rua. Isso foi o que conseguimos nestes 10 anos", conta.

Para os próximos dez, Gorka Landaburu pede reconhecimento e memória, para que a historia não se volte a repetir. "Aqui, desde o ano 1936 até 2011 vivemos com a violência. Primeiro com a ditadura de Franco e depois com a ditadura da ETA, que matou mais em democracia do que durante a ditadura. E não podemos permitir que isto caia no esquecimento", avisa.

"Durante muito tempo a Guerra Civil foi um tabu. Temos ainda cem mil pessoas em valas comuns, a quem fomos incapazes de dar uma sepultura digna. E isto não pode acontecer com o terrorismo. A ETA acabou anteontem e é inadmissível que um miúdo de 10 ou 11 anos não saiba o que aconteceu", continua.

Por isso, pede iniciativas educativas que transmitam aos mais jovens o passado recente de um país que conviveu mais de 40 anos com o terrorismo. "Construir a paz é mais difícil do que fazer a guerra. E temos obrigação de educar os mais jovens, de lhes contar o que aconteceu, que percebam a tragédia que vivemos aqui durante anos. É a única forma de impedir que um jovem volte a agarrar numa pistola para defender uma independência qualquer, ou uma ideia, ou uma pátria, ou bandeiras." E conseguir que o terrorismo ocupe apenas as páginas dos livros de História.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de