Grândola, Vila Morena: "Tenho muito respeito com o que significa para Portugal"

Honrada e consciente da importância para Portugal, Cecilia Krull canta a canção de Zeca Afonso para a mais recente temporada da Casa de Papel. A música da revolução portuguesa ganha alcance global.

Nascida no dia 29 de junho de 1986, em Madrid, com músicos na família mais próxima e uma carreira que começou em menina para produções da Disney, Cecilia Krull López canta um dos temas mais ouvidos na atualidade. "My Life Is Going On" é a faixa principal da série "Casa de Papel", com imagens em Portugal. Mas nas últimas semanas e meses, é conhecida entre nós por cantar, para a mesma banda sonora, uma versão da Grândola, Vila Morena. Entrevista ao "O Estado do Sítio", na TSF.

Cecília, já conhecia a canção, a Grândola, antes do convite para a cantar para a banda sonora da nova série da Casa de Papel?

Sim eu conhecia-a. Conhecia-a através dos meus pais. Não posso dizer que a ouvimos muito, mas conhecia-a.

Ficou a conhecer a importância da música para Portugal?

Sim, sei que é sinónimo, bem mais do que um sinónimo, sei que está ligada a revolução dos cravos. Tem uma mensagem muito importante. Uma mensagem muito bonita e representativa desta revolução dos cravos de 1974.

Cantar esta música levou-a a procurar conhecer outras coisas da obra e do trabalho de José Afonso?

Bem, tudo foi um processo. Primeiro o criador da casa de papel lembrou-se da Grândola Vila Morena. Ele transmitiu isso ao responsável pela banda sonora da Casa de Papel e muitas outras. E foi com o Manel com quem eu falei e que me disse dessa decisão de fazermos com a Grândola Vila Morena e que era eu a cantar. Tenho muito respeito para com o que significa a canção para Portugal e para os cantores portugueses e também a toda a tradição do fado. Quer dizer, eu fiquei muito feliz de me terem convidado, mas é uma grande responsabilidade e perguntei-me porque é que não convidavam uma cantora portuguesa, já que há várias maravilhosas. Mas pronto, sou como que a cantora oficial da série e quiseram que fosse eu a cantar esta. O Manuel (Manel Santisteban, o produtor) e eu estivermos a trabalhar, ouvimos várias versões do Grândola, várias músicas do Zeca. Ouvimos a Amália Rodrigues e fizemos a nossa investigação.

Faz ideia de quantas visualizações a sua versão já teve no YouTube?

Não, no Youtube não sei. Não ligo muito a isso. No Spotify, por exemplo, acho que ultrapassamos o milhão de reproduções, mas sou sincera, eu não ligo muito aos números. Eu gosto da canção e canto-a. Fico muito contente, mas todo esse tema... Bem, é como com "My Life is Going On" a canção de abertura que teve um boom, mas eu não sei os números porque já tem três anos. Mas sim, sei que grande teve um grande impacto em todo mundo. Números exatos não, e prefiro assim porque fico nervosa.

Como foram as reações quando mostrou a música aos seus amigos mais próximos?

Bem a minha família e os meus amigos mais íntimos que são as únicas pessoas a quem poderia mostrar a canção... Reação foi... houve lágrimas... pele de galinha... e muita emoção. É uma canção especial e não foi fácil. Desde logo pela pronúncia portuguesa que é bem diferente da espanhola: como "esquina", "terra"... eu nem sabia bem como dizer "terra da fraternidade" que em Espanha dizemos de forma diferente. São coisas que tive que estudar para as dizer bem. Mas foi muito bom canta-la e interpretá-la. Foi uma prenda para mim.

Sei que a música esta na sua vida desde pequena... E que os seus cantores preferidos são Stevie Wonder e Erykah Badu... O seu avô tocava acordeão, pai pianista... No caso da Grândola apenas cantou a canção, não é propriamente a realizadora da série, mas não lhe faz confusão que uma canção associada a uma revolução praticamente pacífica seja associada a imagens em que se vê sobretudo violência, sangue, morte?

Essa é a única contradição. Mas isto é algo que nas séries se utiliza muito, esse contraste. O contraste entre as imagens e aquilo que se está a ouvir é um recurso que é muito utilizado nos filmes e nas séries. E eu penso que é por aí. Parte de uma revolução que foi pacífica, sem armas, e depois é esse contraste com a Casa de Papel que é violenta, que tem armas. Mas eu acho que aquilo que prevalece é mesmo a mensagem da Grândola. A nível visual e emotivo, eu acho que aquilo que o realizador quis foi um contraste.

Preferia ver a sua versão da canção mais associada a cenas de superação, de triunfo, de solidariedade e liberdade coletiva?

Bem, eu acho que no contexto do Alex também tem esse significado. Porque, no fundo, está a falar da resistência, está a falar da unidade, do companheirismo. Está a falar da fraternidade, da liberdade do ponto de vista deste grupo, desta equipa não muito pacífica, mas que se converteu num fenómeno... Em muitos países e para muitas pessoas que se identificam com eles.

Parece que é a primeira vez que os maus são os bons. Ou que os bons não são tão queridos...

Exatamente, exatamente, e então eu acho que o Alex com a Grândola... Bom, talvez fosse melhor perguntar-lhe a ele, mas eu acho que ele procurou esse contraste e essa emoção que tem a Grândola.

"My Life Is Going On" é a faixa-tema da série "Casa de Papel", é uma das canções mais ouvidas na atualidade. Era aquilo que lhe faltava para dar uma escala mais global à sua carreira?

Bem, eu não estava consciente, quando fiz a canção, daquilo que viria a acontecer. Que houve um antes e um depois na minha carreira, isso é mais do que evidente. Porque eu antes era uma cantora de Madrid, que tinha algum reconhecimento porque já há 12 anos que fazia canções para séries e filmes, mas a repercussão que teve o My life Is Going On... graças à Casa de Papel, foi mundial e é evidente houve um antes e um depois... brutal. Tanto na minha carreia como na minha vida pessoal porque ao fim ao cabo, eu não sou uma atriz, eu não sou uma personagem... Quando canto, sou eu. Portanto, não sabia que isto ia acontecer. Não fazia a mais pequena ideia. Foi um sonho tornado realidade, mas sempre com os pés na terra e a fazer música com o coração e a trabalhar. Estes êxitos podem ser muito efémeros. Portanto, estou muito agradecida. E trabalho diariamente para aproveitar este momento, para trabalhar no meu disco e para gravar novas canções, por exemplo, o Grândola. Quem sabe se agora, na segunda parte, em dezembro, não acontecem coisas novas com música e comigo. Não sabemos.

Tem planos já confirmados para concertos em Portugal?

Eu sonho com isso em cada entrevista. Eu imploro para o fazer. Estou a morrer de vontade de ir a Portugal! Há 2 anos fiz vários concertos em Portugal. Eu tenho uma grande história com Portugal. Os meus dois singles depois de "Life is going on" , "Hard" e "Losing my Mind", foram gravados em Portugal, com produtores portugueses. O Pablo Alboran, com quem fiz uma das versões do Grândola (há duas versões: o Requiem, que sou eu com o Pablo Alboran, a outra é a War Version... Porque é a que aparece nas lutas), ao Pablo eu conheci-o no Porto!

Como foi trabalhar com o Pablo?

Foi uma experiência mágica. Porque eu às vezes penso que as pessoas são como cantam e de facto é assim. Sabe como ele canta assim tão bonito? Pois, ele é mesmo assim tão bonito. É um tipo simples humilde, normal, profissional, calmo, carinhoso, é espetacular. Foi um sonho trabalhar com ele e agradeço muito ao destino. Porque foi o destino. Conheci-o no Porto, em Portugal! Fomos os dois cantar no mesmo festival na praia de Matosinhos e três anos mais tarde, cantamos o Grândola Vila Morena juntos em português. É alucinante.

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