
Catarina Martins, candidata a Presidente da República
Pedro Gomes Almeida
Na entrevista TSF/JN, Catarina Martins garante que "uma Presidente de esquerda pode dialogar com um Governo de direita." Ataca Seguro por ter estado do "outro lado" no tempo da troika, pede à esquerda uma reflexão sobre os erros, mas acredita que a política "está a virar"
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O que pode efetivamente fazer um Presidente para intervir no rumo do país, não lhe governar? Tem aludido nas presidências abertas de Mário Soares...
Mário Soares teve um trabalho que é bom lembrar, numa altura em que havia, na área metropolitana de Lisboa, uma série de pessoas a viverem em bairros muito precários, em bairros de barracas. Nós estávamos a dizer que isso foi o passado, não é infelizmente, mas na verdade uma situação com aquela dimensão nós não voltámos a ter. Mário Soares fez com as suas presidências abertas, do direito à Habitação, uma causa muito importante e foi, a partir daí também que houve uma enorme pressão para que o Governo fizesse o Plano Especial de Realojamento, que realojou muitas pessoas e que deu a muitas pessoas pela primeira vez o direito a uma casa. Ou seja, nós temos muitas famílias que não tinham conhecido uma casa. E esse programa fez uma diferença muito, muito grande para uma larga comunidade, parte da população trabalhadora que não tinha arruamentos, ou seja, a magistratura de influência não é uma espécie de comentário permanente do jogo partidário. A magistratura de influência pode ser ir ter com as pessoas, com as causas das pessoas e ser um motor destas grandes transformações. Eu acho que nós hoje estamos a precisar dessa Presidência de causas, causas não no sentido de se substituir ao Parlamento na sua legislação, não no sentido de entrar no jogo partidário da conveniência de cada momento ou do comentário político, mas causas no sentido de fazer com que quem não é ouvido no país seja ouvido e que se possa lançar as pontes para pessoas conversarem sobre soluções para os nossos problemas.
Estamos a precisar dessa Presidência de causas, causas não no sentido de se substituir ao Parlamento na sua legislação, não no sentido de entrar no jogo partidário da conveniência de cada momento ou do comentário político, mas causas no sentido de fazer com que quem não é ouvido no país seja ouvido e que se possa lançar as pontes para pessoas conversarem sobre soluções para os nossos problemas
Tem falado desse "movimento da Presidência, em que é que se pode traduzir na prática, tendo em conta que, como disse, que o Presidente não governa?
Acho que foi importante a postura de Marcelo Rebelo de Sousa em algumas matérias. Lembro, por exemplo, os cuidadores informais em Portugal, que foi um trabalho que com Marisa Matias, também me envolvi bastante e em que Marcelo Rebelo de Sousa esteve envolvido. Foi muito importante e isso mudou. Nós, agora, usamos a expressão cuidadores informais e ainda bem que houve um Presidente da República que se alinhou nesta luta. Tenho muito prazer de a ter feito, lado a lado. Foi muito pouco porque precisamos agora de mais coisas concretas. Mas é também verdade, acho eu, que Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu a envolver-se muito no quotidiano da condução política e até da condução partidária e acho que isso fragiliza a ideia de uma magistratura de influência que sabendo pôr-se à margem dessa disputa, saiba dar mais fogo a uma causa que vem mais da sociedade civil e dar-lhe mais abertura. É por isso que em matérias como a saúde, por exemplo, uma Presidência da República que a assuma como uma causa pode propor formas novas para olhar para o problema, reinventar, usando a comunidade que nós temos. Assim como, por exemplo, para a habitação. Nós precisamos de falar do problema da habitação de uma forma diferente. A política portuguesa está cheia de becos neste momento, ou seja, há muitas conversas que deixaram de ser possíveis e é preciso reinventar.
À esquerda também?
Sim, mas eu acho que a esquerda é parte desse problema e deve perceber e então reinventar-se para o fazer de uma forma diferente. Eu acho que é preciso ouvir muito mais as pessoas. Ou seja, eu acho que nós estamos a sofrer uma transformação muito grande na sociedade que é uma mudança demográfica, é uma mudança fruto de uma revolução tecnológica gigantesca nas nossas vidas, é uma mudança também fruto de um sistema económico que hoje é muito mais agressivo. As pessoas hoje têm vidas muito mais desreguladas, com muito mais trabalho, muito mais horas, com salários muito mais baixos, com muita dificuldade. Precisamos de ouvir muito mais para propor, porque não basta dizer que é preciso travar a destruição que a direita ou a extrema direita estão a tentar impor ao país. É preciso ouvir as pessoas para construir de uma nova forma do que nós achamos que são direitos em comunidade e o que nós achamos que é uma economia que sirva às pessoas e eu acho que uma economia que sirva às pessoas naturalmente é uma economia em que o trabalho é respeitado, em que os salários e as pensões são respeitados, mas é preciso ouvir muito mais e eu acho que no mandato presidencial essa capacidade de ouvir as pessoas e de lhes dar espaço para colocar os problemas de uma nova forma é muito necessária, porque a política está muito fechada sobre si própria e é preciso abri-la.
E nesse sentido seria desejável um reforço dos poderes da Presidência?
Não, eu até acho bizarro, confesso, que discuta os poderes da Presidência, quem se candidata à Presidência da República, por uma razão que eu acho que é simples: quem se candidata, candidata-se para cumprir a Constituição e os poderes presidenciais estão expressos na Constituição. Ou seja, quem se candidata à Assembleia da República pode querer discutir se quer mudar a Constituição, se quer mudar os poderes presidenciais, quem se candidata à Presidência da República candidata-se para cumprir a Constituição, com os poderes exatos que estão na Constituição, nem mais nem menos e tem que vir dizer ao país o que é que com esses poderes pretende fazer. Eu dou duas garantias, com o poder daquilo que em Portugal chamamos de magistratura de influência, ou seja, de criar diálogos no país quero puxar pelas causas, as causas do trabalho digno, do trabalho com um salário que as pessoas percebam que as respeita e que portanto podem ter uma vida que é uma vida em que todos nós temos direito e que as novas gerações também possam querer e possam querer cá ficar. Quero que a casa seja uma causa porque é impossível que as pessoas não tenham direito a uma casa que é só autonomia, é um espaço que possam chamar seu. Quero que a saúde responda. É para isso que serve uma magistratura de influência, para ouvir muito e saber reinventar com o melhor que se faz novas soluções para o país e depois usarei os poderes constitucionais com, julgo eu, a conta peso e medida de conseguir duas coisas, em primeiro lugar equilibrar o país, acho que é muito importante quando há um governo muito à direita, aliás a fazer explícita e implicitamente acordos à extrema direita, que haja uma Presidência à esquerda, acho que isso que equilibra a política, equilibra o país é muito necessário. E o veto político deve ser usado do meu ponto de vista em questões tão fundamentais como alterações ao Código do Trabalho que diminuem os salários, deixam que as pessoas fiquem ainda pior e depois nos poderes como dissolução da Assembleia da República, confesso tenho uma visão muito diferente da que teve Marcelo Rebelo de Sousa. Porque eu acho que se banalizou a dissolução da Assembleia da República para permitir aos governos fazerem mais ou menos uma chantagem contra o Parlamento para verem quando é que lhes dá jeito de ter eleições. Eu aí acho que uma Presidência da República que não entre nesse jogo e que obrigue o Parlamento a encontrar as soluções vai seguramente pôr o Parlamento a discutir muito mais os problemas do país e o que fazer e muito menos as conveniências partidárias.
Catarina Martins foi eleita eurodeputada há apenas um ano, esta candidatura não defrauda de alguma forma a expectativa de quem votou em si?
Repare, enfim, é uma pergunta que pode ser feita à maior parte dos candidatos, alguns foram eleitos há muito menos tempo para a Assembleia da República. É verdade que quando eu me candidatei ao Parlamento Europeu eu não me imaginava a candidatar à Presidência da República e isso é público, eu achei que era bom que houvesse um nome como Sampaio da Nova, mas isso não foi possível. Digo uma coisa, entretanto o país mudou e houve umas eleições legislativas que tornaram muito mais perigosa esta deriva contra quem vive do seu trabalho e eu achei, vendo o panorama que estava nas Presidenciais, que era preciso um contributo para que se dissesse que pode ser diferente, que nós não estamos condenados a viver cada vez pior e a ter um debate político cada vez mais deteriorado, ou seja, o debate político neste momento é um bocadinho sobre a inevitabilidade de cada vez ser tudo pior e modestamente acho que posso dar o meu contributo para que não seja assim, para juntar forças, para fazer pontes. É o que eu fiz toda a minha vida, é o que eu sei fazer e é o que eu espero trazer porque eu acho que precisamos mesmo muito de uma Presidente da República que não desista de Portugal, não desista de quem constrói o país, de quem trabalha, de quem faz, neste país todos os dias, milagres e que precisa seguramente muito de mais aliados na política do que tem tido.
Mas no momento em que tantas políticas são determinadas pela União Europeia, a sua atuação no Parlamento Europeu não seria mais efetiva?
No Parlamento Europeu tenho trabalhado em vários dossiês, sei também que sendo eleita Presidente da República continua a haver uma representação muito importante do meu partido, do Bloco de Esquerda, no Parlamento Europeu, não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Esta é uma candidatura diferente, é uma candidatura pessoal com outro espaço, mas eu acho que não desguarnece em nada o que é o meu compromisso coletivo também. Eu levo muito a sério todos os compromissos que assumo e devo dizer que a experiência que eu tive neste tempo me ajudou. Há duas coisas em que eu acho que foram muito importantes, uma tem a ver e que tem a ver com a nossa articulação a nível global. É claro que há hoje perigos que vêm da União Europeia para o qual é importante também o Presidente da República estar alerta e ter posição. Eu lembro, por exemplo, o projeto da Comissária Europeia Maria Luís Albuquerque de colocar as poupanças em sistemas de pensões privadas e portanto colocar as poupanças das pessoas em mercados financeiros que podem vir a destruir tudo. Isto é muito perigoso, não tem sido debatido em Portugal e eu garanto que quero proteger as pensões e as poupanças das pessoas porque eu levo muito a sério o esforço de quem trabalhou toda a sua vida e quer a sua pensão, e portanto eu acho que é importante vir com essa experiência e dizer que comigo não passará uma transposição de uma lei europeia que ponha em causa as pensões e as poupanças das pessoas, porque eu respeito quem trabalhou muito toda a sua vida e tem direito àquilo que é seu, não pode ser posto no casino dos jogos financeiros, dos mercados financeiros e portanto essa visão dos perigos da Europa é importante e também é importante, acho eu, as articulações que foi possível e com que eu aprendi muito. Eu neste tempo estive por trás da fundação de um partido político que junta partidos da esquerda europeia com um projeto ecologista muito forte, eu acho que isso nós precisamos muito porque não há outro planeta, temos que viver neste e não podemos ter aqueles projetos que, mais ou menos, dizem que vamos fazer uma transição climática deixando para trás as pessoas que trabalham, isso não existe, portanto é bom juntar forças. Assim, como por exemplo, o conhecimento que tenho hoje e que não tinha das questões do leste europeu. Eu estive em Kiev com o movimento social ucraniano, estive com sindicatos que foram proibidos, estive com gente que está na linha da frente a combater Putin e que tem uma visão muito clara dos perigos que há hoje na Europa, nos combates entre as várias oligarquias e fascismos e acho que isso também me prepara para decisões muito complexas que temo, que venham a ser tomadas também em Portugal e prepara-me isso como prepara também conhecer o exemplo de Jorge Sampaio.
Uma Presidente de esquerda pode dialogar com o governo de direita e manter o bom funcionamento das instituições, aliás acho que é quem dá mais garantias que manterá esse bom funcionamento
Mas como dizia há pouco, vivemos agora com um governo mais à direita, como é que seria a sintonia, ou não, de uma Presidente da República, por exemplo na política externa?
Eu acho que quando nós falamos em colocar pensões e poupanças em mercados financeiros, uma dissonância entre a Presidente da República e o governo só pode ajudar as pessoas em Portugal, só pode ajudar os pensionistas, só pode ajudar as pessoas que têm as suas poupanças a proteger o que é seu. Quando temos um governo tão à direita é bom que haja uma Presidente a equilibrar a balança e eu acho que toda a gente percebe isso. Do ponto de vista institucional, eu acho que a colaboração institucional é importante, eu levo muito a sério a democracia, o equilíbrio de poderes e portanto a colaboração institucional ela deve existir como é normal, ou seja, uma Presidente de esquerda pode dialogar com o governo de direita e manter o bom funcionamento das instituições, aliás acho que é quem dá mais garantias que manterá esse bom funcionamento. Em relação à política externa, é definida pelo governo, não é definida pelo Presidente da República.
Mas ter uma Presidente vocal a propósito de algumas coisas...
Mas há matérias que o Presidente da República decide, como decidiu Jorge Sampaio, não enviar tropas para o Iraque e eu aí também garanto que, como Presidente da República, não deixarei que se enviem tropas portuguesas para cenários de guerra que servem os interesses económicos de predação de matérias raras, ou seja o que for, de outros países com falsos pretextos. Claro que eu levo as questões da defesa europeia, do combate ao imperialismo russo e a todos eles muito a sério, ao norte-americano também, mas sei que há neste momento um discurso cheio de mentiras, não é por acaso aliás, que a voz que aparece a dizer que se calhar a União Europeia tem de mandar as tropas para a Ucrânia é a mesma que quis enviar tropas para o Iraque com falsos pretextos, Durão Barroso, é exatamente a mesma voz e eu devo dizer que face a essa voz eu tenho exatamente a mesma posição de Jorge Sampaio que é: não vão. Vou defender a paz e vou defender as vidas.
Enquanto comandante suprema das forças armadas, que seria além de chefe de Estado a ser eleita, atreveria efetivamente o envio de militares portugueses para a Ucrânia?
Neste cenário sim, claro. Neste momento agora por acaso até já foi abandonado, porque neste momento o que há é uma entrega absoluta da Ucrânia e os Estados Unidos e a União Europeia estão aliás a deixar a Ucrânia numa posição muito vulnerável. Mas para dizer o seguinte, eu não tenho por princípio a posição de que as forças armadas portuguesas não devem intervir fora do território português, muito pelo contrário. Tenho um enorme orgulho das missões de interposição de paz que forças portuguesas tiveram e acho que devemos ter todos, acho que devemos ter todos, mas esse é o papel do nosso país. O papel do nosso país não é intervir noutro território para guardar os negócios que Donald Trump queira fazer com os minerais que há na Ucrânia ou noutro sítio e seguramente, nunca mandarei soldados portugueses morrer para guardarem negócios de Donald Trump. Toda a gente seja sossegada sobre isso. Agora, que Portugal pode ter um papel na paz pode, já teve e tem e eu acho que esse é um papel que nos devemos orgulhar.
E opõe-se à imposição da Nato dos 5% de despesa na defesa que o Governo admite de resto?
Sim, porque é absurdo. Repare, os 5% de investimento na Defesa têm dois problemas. Em primeiro lugar, coloca um investimento desproporcionado na Defesa face ao que o nosso país efetivamente necessita e face às necessidades que o nosso país tem na saúde, na educação, na segurança do território, todo ele, enfim, portanto é completamente desproporcionado. E se alguém perguntar 5% porquê, ninguém sabe responder. Assim como houve os 3%, eu ainda não encontrei ninguém que me soubesse responder. Até porque quando nós comparamos os gastos militares da Europa, dos países da Nato que estão na União Europeia, com a Rússia, etc., não há nada que justifique. Não há um único racional, é um número. Foi um número que foi atirado e Donald Trump vai atirar sempre por um número maior. E, portanto, não há lógica, não vamos gastar, temos melhor sítio onde investir o dinheiro e onde é mais necessário. Mas a segunda causa também é muito clara. É que neste momento fazer investimentos de armamento que dependem de Donald Trump e dos Estados Unidos, que obedecem à sua lógica, porque os investimentos na Nato são feitos sempre com a lógica determinada pelos Estados Unidos e comandada por um general norte-americano. E reparem, qual foi o único líder político que ameaçou diretamente países da Nato, o Canadá e a Dinamarca? Foi Donald Trump, não foi mais nenhum. E, portanto, é um bocadinho estranho que o nosso país vá gastar dinheiro para se pôr na boca do lobo, para se pôr numa posição ainda mais frágil.
Há quem fale também em desenvolver a indústria europeia?
A União Europeia pode e deve articular melhor o que faz e tem enormes fragilidades. Nós temos muitas fragilidades, por exemplo, nas questões de comunicações, nas questões digitais e estamos muito vulneráveis nas questões de infraestruturas. E isso é muito investimento público que não é, aliás, só para a defesa, é para as nossas vidas. Nós precisamos dele e estamos a ficar para trás. Nas questões da Defesa, o que a Europa precisa seguramente é de outro tipo de articulação e de uma articulação que não seja dependente dos Estados Unidos, para não ficar na posição triste em que fica neste momento, face, por exemplo, ao que está a acontecer na Ucrânia.
O que o Governo está a propor é que este seja um país de biscateiros qualificados
Falemos então agora do pacote laboral, já tem sido bastante crítica. Há alguma alteração de monta que pudesse tornar este anteprojeto mais aceitável ou é de rejeitar totalmente?
É difícil dizer o que é que podia ser feito, porque todas as propostas do Governo vão no sentido errado. Nós vivemos num país de baixos salários. O que é que o Governo propõe? Uma medida que corta o pagamento de horas extraordinárias à maior parte das pessoas, muitas delas precisam do pagamento das horas extraordinárias para chegarem até ao fim do mês. Nós vivemos num país em que as novas gerações mais jovens sentem muitas vezes que aqui nunca terão um emprego que eles respeitem e que lhes permita sonhar, viver cá. E o que é que propõe o Governo? Que quem nunca teve um contrato sem termo, ou seja, um contrato sério, possa nunca vir a ter e pode saltitar de empresa em empresa toda a vida. Ou seja, o que o Governo está a propor é que este seja um país de biscateiros qualificados. As novas gerações são cada vez mais qualificadas e perdem o direito a terem aquele contrato. Uma pessoa, por exemplo, para comprar um carro, tem que mostrar o contrato de trabalho. Se o contrato de trabalho for a prazo, a empresa não vai dar o crédito, não consegue o crédito para comprar o carro, muito menos uma casa, o salário também não chega lá. Mas o que o Governo está a propor é que isto seja assim para sempre. E depois nas negociações, podia dizer-se que nas negociações o Governo está a recuar e portanto estamos a ver aqui uma luz para o Governo começar a negociar. Mas o Governo foi negociar com a UGT e na contraproposta que faz à UGT, em relação ao pacote inicial, propõe que um trabalhador possa descer de categoria e que para isso basta a ACT não responder a tempo. Quer dizer, se uma empresa inundar a ACT de pedidos para descer trabalhadores de categoria, os trabalhadores vão descer de categoria porque a ACT não teve tempo para responder aos pedidos todos. Portanto é inaceitável. Uma pessoa que já tem um contrato permanente, que acha que está na empresa com uma posição, que trabalhou, que evoluiu na carreira, está lá e depois de repente pode baixar de categoria e provavelmente de salário, porque categoria e salário estão associados. O que nós devíamos estar a discutir é como é que em Portugal temos uma economia qualificada, como é que nós juntamos o que nós podemos fazer de inovação, de regras do trabalho e da economia, de educação, de investigação, para termos uma economia que fosse mais forte.
Um Presidente da República que aceita um pacote laboral, que só propõe que os trabalhadores ganhem menos, tende a recusar, sob pena, de estar a trair todo o país
Mas voltando aquilo que está em cima da mesa...
Pode um Presidente da República aceitar um pacote laboral num país que tem salários tão baixos e casas tão caras? Um Presidente da República que aceita um pacote laboral, que só propõe que os trabalhadores ganhem menos, tende a recusar, sob pena, de estar a trair todo o país, porque o país é construído por quem trabalha.
Mesmo que ele depois venha a ser confirmado pela atual maioria de direita no Parlamento?
Esse risco, só reforça o que tenho vindo a dizer. Faça um governo tão à direita, uma Presidente da esquerda, e que não tenha medo disso ser, não tenha medo de quem defender o trabalho, é uma garantia absoluta e isso é muito importante.
Se o governo recebe, mas depois o que propõe é fazer pior ainda, não significa nada. É até um pouco insultuoso
Como é que vê o facto do Primeiro-Ministro ter aceitado receber a UGT em São Bento?
Às vezes há estes momentos protocolares que podem significar muito ou significar pouco. Se o governo recebe, mas depois o que propõe é fazer pior ainda, não significa nada. É até um pouco insultuoso.
E eu vejo, por exemplo, como a política está a virar e pode virar ainda mais e eu estou cá para virar. Repara que há uns tempos discutiam-se burcas, que era uma coisa absurda no nosso país e agora o que é que nós estamos a discutir? O pagamento das horas extraordinárias, se o despedimento sem justa causa pode ser, se as pessoas podem baixar de categoria, se os jovens devem estar sempre a prazo
Perante um cenário de uma governação extremista, admitiria demitir o Governo?
Eu não estou a ver esse cenário, comigo como Presidente da República e não gosto muito de cenarizar em abstrato, porque isso é só tentar criar a ideia de que nós vamos estar nesse momento. E eu acho que nós não vamos estar neste momento. Eu digo mais, se eu for eleita Presidente da República, quer dizer que esse momento nunca chegará. E eu vejo, por exemplo, como a política está a virar e pode virar ainda mais e eu estou cá para virar. Repara que há uns tempos discutiam-se burcas, que era uma coisa absurda no nosso país e agora o que é que nós estamos a discutir? O pagamento das horas extraordinárias, se o despedimento sem justa causa pode ser, se as pessoas podem baixar de categoria, se os jovens devem estar sempre a prazo, se o outsourcing deve ser a regra do trabalho, está a virar e está a virar, porque há quem não se resigne a um debate político degradado e a um debate político do fatalismo da selva na política e pelo contrário se a gente está a falar do conto da vida das pessoas. E quando eu estou nesta campanha presidencial e quero ser Presidente da República, é porque sei que se fazendo este caminho, isso nunca acontecerá.
Eu acho que a esquerda tem de perceber que não se preparou para o momento político que estamos a viver e que precisa muito de avaliar o que fez, o que não fez, ser capaz de conversar sobre isso e criar novas soluções
Ao longo desta pré-campanha já teve em iniciativas suas dois antigos Ministros do PS, no caso João Costa, da pasta de Educação e Francisca Van Dunem, da Justiça. A intenção é mostrar que a candidatura ultrapassa o espaço do Bloco de Esquerda?
E tenho estado com muitas pessoas que não têm partido nenhum e falo com toda a gente e gosto de o fazer. Eu acho mesmo que conversar, não no sentido de uma conversa que não leva a lado, mas no sentido de pensar, temos aqui um problema que nunca tínhamos visto antes e reconhecer o que é que foi bem feito e o que é que foi mal feito e o que é que tem de ser feito de uma forma diferente e pôr pessoas diferentes a pensar é fundamental na política e na esquerda neste momento. Eu acho que a esquerda tem de perceber que não se preparou para o momento político que estamos a viver e que precisa muito de avaliar o que fez, o que não fez, ser capaz de conversar sobre isso e criar novas soluções. E eu estou cá para falar com toda a gente, claro, do lado que tenha uma visão para um país que se veja como uma comunidade, que integra, que evolui, que tem emprego qualificado, é para isso, não discuto com quem nos quer puxar para baixo, mas gosto muito de o fazer e vou continuar a fazê-lo.
Mas inclui, entre esses erros de que fala a forma como a esquerda tem gerido os processos presidenciais desde Jorge Sampaio?
Tenho pena que não tenha sido possível fazer melhor, mas também tenho consciência que Marcelo Rebelo de Sousa foi um candidato muito forte, com um imenso tempo de exposição televisiva e que isso marcou muito o campo das possibilidades, digamos assim, do debate.
Eu sei que há pessoas que estão no campo do Partido Socialista e que há pessoas que são do Partido Socialista e que vão votar em mim, sim, e houve algumas dessas pessoas que me incentivaram a ser candidata
E acredita que vai buscar votos ao Partido Socialista?
Os votos não são de ninguém, ou seja, cada pessoa tem o seu voto. Eu acho que há muitas pessoas que, eu sei que há pessoas que estão no campo do Partido Socialista e que há pessoas que são do Partido Socialista e que vão votar em mim, sim, e houve algumas dessas pessoas que me incentivaram a ser candidata, sim, é verdade, e gosto muito de conversar com todo esse campo.
António José Seguro quis marcar logo o seu espaço, nunca quis discutir nenhuma solução à esquerda e eu, desse ponto de vista, acho até que é bastante positivo a forma como o Seguro apresentou-se, porque ele quer representar um determinado campo dentro do Partido Socialista, que é o campo que sempre fez acordos com o PSD, que esteve com o PSD na Troika
E porquê que não foi, mais uma vez, possível concentrar votos num candidato único e com melhores hipóteses? Chegou a haver conversas à esquerda e com o PS?
Sim, chegou a haver muitas conversas, isso é público e acho que, ou seja, houve conversas, é sabido, que envolveram pessoas do Bloco de Esquerda, pessoas do LIVRE, pessoas do PCP, pessoas do Partido Socialista, em torno de um nome, por exemplo, como Sampaio da Nova. Também é sabido que mesmo antes de Sampaio da Nova ter dito que não estava disponível, enfim, há uma parte do Partido Socialista que já tinha candidaturas, no terreno. António José Seguro quis marcar logo o seu espaço, nunca quis discutir nenhuma solução à esquerda e eu, desse ponto de vista, acho até que é bastante positivo a forma como o Seguro apresentou-se, porque ele quer representar um determinado campo dentro do Partido Socialista, que é o campo que sempre fez acordos com o PSD, que esteve com o PSD na Troika, e António José Seguro é, desse ponto de vista, muito coerente, isto é, visto que com uma fraqueza eu, por acaso, tendo enorme divergência, acho que a coerência é uma coisa importante e, portanto, está no campo em que esteve sempre. É também sabido que o PCP decidiu apresentar uma candidatura própria sem dizer nada a ninguém, e também está no seu direito, também foi a opção que fez nas autárquicas, acha que neste momento não é o momento certo para a esquerda fazer pontos e para conversar, e eu respeito que pense isso, eu penso de outra forma, mas respeito isso. E depois Sampaio da Nova disse que não avançava, várias pessoas falaram comigo, dizendo que era importante que eu avançasse, "não tenho ninguém em quem votar, e, portanto, preciso que este campo da esquerda que dialoga, que quer novas soluções, que está disposta a reconhecer erros e a pensar de novo, e que nunca deixou de falar uma com a outra, se mantenha presente e continue esta conversa, e com isto tínhamos uma candidatura que possa mudar o país, que possa servir uma nova forma de encararmos a política, ao país, colocarmos outros diálogos, outros termos de debate", e eu apresentei-me nesse cenário, falei com muitas pessoas, assim, avisei da minha reflexão e até questionei se haveria outras soluções, digamos assim, neste largo espaço político que tinha estado a conversar. Na altura não havia mais soluções, não havia outras possibilidades, e eu avancei, mas devo dizer que avanço com toda a convicção, ou seja, fiz um caminho e aqui estou, com a enorme convicção de que a minha experiência a fazer pontos conta, como a esquerda precisa de pontos neste momento em Portugal, com a certeza que a minha experiência política, na definição de políticas públicas, no conhecimento que tenho do país, no conhecimento que tenho da política europeia também conta, e como conta, neste momento complicado em que vamos ter que reinventar tanta coisa e em que há tantos desafios internacionais também, e com a certeza de que há espaço em Portugal para disputar uma Presidência da República que não seja o fatalismo de vivermos cada vez pior ou termos uma política encostada à extrema direita para sempre. Eu acho que é possível fazer diferença e estou cá para isso.
Quando diz que António José Seguro coerentemente se colocou dentro daquele espaço dentro do PS mais à direita, está a afirmar que não será possível fazer uma ponte com António José Seguro numa segunda volta eventual?
Nós agora estamos a tratar da primeira volta. Talvez as pessoas não se lembrem, mas quando António José Seguro era secretário-geral do Partido Socialista viabilizou orçamentos do PSD e CDS, já com a Troika, que até tinham cortes inconstitucionais de salários e pensões. E eu, juntamente com muitas pessoas do Partido Socialista, incluindo Mário Soares, que foi aliás um enorme promotor desses momentos, estive naqueles momentos que uniram as pessoas em torno do cumprimento da Constituição e que o fizeram tanto em sessões públicas que eu acho que tiveram uma enorme importância para abrirem diálogos à esquerda como nunca tinham existido antes. Como também com assinaturas de deputados, em que eu me juntei a tantos deputados do Partido Socialista e também do Partido Comunista Português, para irmos ao Tribunal Constitucional contestar os orçamentos e assim repusemos, efetivamente, pusemos mesmo salário no bolso das pessoas e pensão no bolso das pessoas. E isso foi muito importante. E aí estivemos em campos muito diferentes. E eu acho legítimo esse campo, não é o meu. Não vai ser.
Ou seja, não se vai sentir representada se não estiver numa segunda volta?
Vamos disputar a primeira volta, porque é que há fatalismos sobre o que há de ser a segunda volta? Vamos fazer o nosso trabalho como deve ser feito, vamos conversar, vamos fazer uma campanha forte, vamos dizer que é possível viver muito melhor em Portugal e veremos em que condições se disputam a primeira volta.
Mas não teme que a maior crise de sempre no Bloco de Esquerda possa contaminar o impacto da sua candidatura nestas presidenciais?
Repare, as candidaturas presidenciais são pessoais, eu não escondo o espaço político de onde venho, em que tive enormes responsabilidades, também não escondo que sou uma das razões porque sou candidata presidencial, não é seguramente uma questão partidária, não teria sentido, se fosse por isso, então, não me tinha apresentado, não teria nenhum sentido, não valeria a pena, mas é porque acho que a esquerda precisa de conversar e cá estou eu. E entre as metas, tendo em conta Marisa Matias, que foi dos 10% até depois aos 4%, também sob sua liderança o Bloco atingiu o melhor resultado de sempre e depois também caiu, não estabelece nenhuma fasquia agora para esta?
Eu nunca estabeleci em nenhuma eleição, portanto..
Mas secretamente terá uma meta na sua cabeça..
Sobretudo eu quero que esta campanha seja contra a inevitabilidade, e vai ser, porque se a esquerda acreditar que não tem espaço, que nós não podemos defender o salário, que nós não podemos defender a casa, a saúde, que está tudo perdido, bem, então desistimos. Eu não desisto do meu país, eu gosto de Portugal, gosto de cá viver, quero que as minhas filhas queiram cá viver e este tipo de derrotismo da esquerda, deixar de falar das coisas ou se encolher porque está difícil, é inaceitável e eu não recuo.
Mas com o eleitorado a inclinar-se para a direita, será mais difícil a eleição de uma presidente com o selo da esquerda?
Talvez, lutemos mais.
Temos convenção do Bloco de Esquerda marcado para este fim de semana, com a saída de Mariana Mortágua. Teria sido possível fazer melhor nas circunstâncias em que a liderança do Bloco trabalhou nos últimos tempos?
Eu tenho tido o cuidado que eu acho que me perceberão de não confundir as presidenciais com as questões internas do Bloco, por duas razões. Para já porque são mesmo diferentes, eu sou candidata, em segundo lugar, porque eu tenho um dever de gratidão e de solidariedade com os meus camaradas de partido, que é muito sentido e que eu acho que tem muito lugar na minha vida, mas não tem lugar nesta campanha.