Do domínio de Ventura e Cotrim ao distanciamento de Seguro do PS: o que dizem as redes sociais sobre a campanha

André Ventura, António José Seguro e João Cotrim Figueiredo
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Depois de analisar 52 mil publicações nas redes sociais e cruzar dados com os resultados das presidenciais, o relatório da ALL Comunicação conclui que André Ventura foi quem mais cresceu (teve quase 2 milhões de interações no Facebook). No Instagram Cotrim liderou, Seguro teve "subida exponencial". A palavra "Governo" foi a mais mencionada
Ao longo da campanha da primeira volta, foi visível o esforço de António José Seguro de se demarcar do PS, tentando alargar a base eleitoral e isso parece ter resultado, pelo menos a julgar pelas conclusões do relatório da ALL Comunicação que analisou 52 mil publicações nas redes sociais, cruzando os dados com os resultados da primeira volta das eleições presidenciais.
José Pedro Mozos, especialista em Comunicação Política e diretor de Assuntos Públicos da ALL Comunicação, explica que enquanto André Ventura surge totalmente alinhado com o partido Chega, António José Seguro e o Partido Socialista (PS) parecem estar "em frequências diferentes" em relação aos temas abordados, não se misturando "como água e azeite".
"É um bocado como se António José Seguro estivesse a falar em AM e o PS em FM , ou ao contrário. Quando se falou de António José Seguro falou-se muito, por exemplo, de termos como sondagem, de saúde, poderes presidenciais, mas depois, quando analisamos o Partido Socialista, os temas são outros, são sobretudo a imigração, educação ganha mais preponderância."
A conclusão retirada é que "pelo menos as pessoas que nas redes sociais quiseram debater o tema das Presidenciais não têm a imagem de António José Seguro associada à imagem do PS", enquanto o inverso acontece no caso do Chega e de André Ventura: "Essa sintonia (entre temas) é quase perfeita."
Já a palavra "Governo" foi a mais utilizada nas redes sociais para discutir estas eleições presidenciais.
O relatório conclui ainda que apesar do "domínio nacional" de António José Seguro, uma leitura mais fina ao nível concelhio mostra uma penetração significativa de André Ventura em várias zonas do interior do país - do Alentejo ao Centro e Norte - bem como na Margem Sul e em partes do Ribatejo.
"André Ventura ganhou de norte a sul do país e do litoral ao centro em vários concelhos, desde o concelho mais a norte, como o concelho mais a sul tem bons resultados," sublinha José Pedro Mozos que arrisca dizer que "a penetração de André Ventura no eleitorado é muito mais sólida e tem raízes muito mais profundas do que uma leitura mais simples e meramente distrital podia indicar."
Analisados os resultados da primeira volta e as publicações nas redes sociais, o relatório aponta para uma eleição marcada "menos por entusiasmos mobilizadores e mais por escolhas estratégicas e defensivas", como explica José Pedro Mozos.
"Eu acho que é mais fácil mobilizar por ação do que por defesa, e essa dicotomia vai ser um grande desafio, sobretudo para António José Seguro, que já teve muitos eleitores defensivos, como nós lhe chamámos nesta primeira volta. Vai ser necessário tirá-los do sofá novamente no dia 8 de fevereiro e mobilizá-los para voltarem a votar em António José Seguro, porque não basta apenas tentar convencer os 19 pontos percentuais que o separam de uma maioria. É preciso levar os 31% que já votaram nele novamente às urnas e novamente a António José Seguro," avisa.
Já sobre André Ventura, tendo um discurso "tendencialmente mais mobilizador", poderá quebrar uma barreira psicológica e ter muitos eleitores que depositarão um voto por ele pela primeira vez".
O relatório destaca ainda um curioso paralelismo entre as menções e os resultados eleitorais: "Os três candidatos mais mencionados na pesquisa (André Ventura, António José Seguro, e Cotrim Figueiredo) coincidem com os três candidatos mais votados na primeira volta, com inversão de lugar entre António José Seguro, mais votado, e André Ventura, mais mencionado."
Já o domínio nas redes sociais pertence a André Ventura que foi "quem mais fez crescer o número de fãs no Facebook, apesar de ser o candidato que partiu com maior número de seguidores nas diversas redes sociais".
"É impressionante, por exemplo, o número de interações que André Ventura gerou no Facebook em apenas duas semanas, foram quase dois milhões de interações com a sua conta. Portanto, é sintomático de uma campanha que aposta quase tanto no digital como na rua", vinca José Pedro Mozos.
Já no Instagram, João Cotrim de Figueiredo terminou como o candidato que mais aumentou a sua rede de seguidores com uma campanha nas redes sociais e digital "que apostou muito no vídeo e muito profissional". "E mesmo António José Seguro tem um crescimento muito interessante, obviamente em números muito mais modestos, mas nas duas últimas semanas duplicou o número de seguidores no Instagram e isso não deixa de ser de assinalar."
O relatório da ALL Comunicação sugere que a segunda volta será "altamente polarizada" e onde "o voto útil, o medo do extremo oposto e a capacidade de mobilização dos eleitorados moderados serão determinantes", concluindo que "é nesse equilíbrio delicado entre mobilização, rejeição e moderação que se jogará a decisão final".