Marcelo antevê tarefa longa e difícil recuperação com "desvio de fundos europeus"

Créditos: Paulo Novais/Lusa (arquivo)
O Presidente da República estima que a tarefa ocupará "praticamente a vida de muitos autarcas e uma parte importante da vida do Governo, nos próximos três anos ou quatro"
O Presidente da República anteviu esta quinta-feira que a recuperação dos efeitos das recentes tempestades será uma longa tarefa para autarquias e Governo, com custos mais altos do que inicialmente estimados e que implicará "desvio de fundos europeus".
Em declarações aos jornalistas, no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa comentou que "é dificílimo ser-se Governo nestes tempos de calamidades" e realçou os danos em "infraestruturas importantes" como a A1, um dano que recomendou que seja enfrentado "sem alarmismo, mas sem facilitismo".
"Tudo isso somado exige não só mais dinheiro, mas mais tempo", acrescentou o chefe de Estado, estimando que esta tarefa ocupará "praticamente a vida de muitos autarcas e uma parte importante da vida do Governo, nos próximos três anos ou quatro".
Interrogado se o preocupa a possibilidade de Portugal voltar a ter défice orçamental, o Presidente da República respondeu que isso o "preocupa, neste sentido": já se percebeu que "os municípios não têm dinheiro, sem um reforço apreciável, para enfrentar aquilo que foram as consequências disto" e que "o Estado está a refazer permanentemente" os cálculos dos "montantes necessários para ocorrer a tudo".
"Estamos ainda no começo dos cálculos, em muitos casos", afirmou.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, "como é evidente, há um desvio de fundos europeus que em muitos casos estavam pensados para outras coisas importantes para o crescimento do país" e que vão ser canalizados para a reconstrução das zonas afetadas, incluindo "capacidades empresariais instaladas" que foram atingidas.
Sobre o anúncio pelo primeiro-ministro de um Plano de Recuperação e Resiliência exclusivamente português, a que chamou PTRR, o Presidente da República declarou que "neste momento, e bem" foi pedido aos vários ministérios que deem "elementos para um programa que possa cobrir tudo", com coordenação do chefe do Governo PSD/CDS-PP e da Presidência do Conselho de Ministros.
Questionado se está a ser feito tudo o que era possível, considerou que sim, mas referiu que "há sempre problemas novos que surgem" e "desafios que se colocam todos os dias e, por isso, é um processo".
"Não é um momento. São inúmeros momentos e cada momento está a provocar desafios diferentes", reforçou, frisando que "os montantes necessários para ocorrer a tudo o que no fim é avaliado são diferentes de quando se faz o primeiro cálculo" e até dos cálculos feitos "quinze dias depois".
Quanto à evolução da situação meteorológica, Marcelo Rebelo de Sousa salientou que "vai chover intensamente, ao que parece, durante a noite e durante o dia de amanhã [sexta-feira]" e interrogou-se o que acontecerá nas bacias hidrográficas do Sado, do Tejo e do Mondego.
O chefe de Estado tenciona regressar ao terreno no fim de semana e está "à espera, precisamente, das consequências para saber onde é que elas são mais prementes, mais urgentes" para decidir a que localidades se irá deslocar, "sem perturbar os operacionais".
Sobre a sua deslocação a Coimbra com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na quarta-feira, assinalou que tiveram reuniões, mas depois não ficaram na cidade, "porque era a hora dos operacionais".
"E ainda bem que há operacionais. Foram os operacionais que sugeriram que se recortasse o trânsito na A1 e o Governo, e muito bem, decidiu. Foram os operacionais chamar a atenção para o que se verificou depois no acesso ao viaduto e, muito bem, começou-se a ponderar as consequências disso", congratulou-se.
Relativamente ao abatimento de uma parte da A1 após a rutura de um dique no rio Mondego, defendeu que se deve reagir "com um grande equilíbrio" e procurar "saber tecnicamente o que se passou".
"Nós somos um país com ótimos engenheiros e com um ótimo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), não há nada como ter os especialistas a analisar o mais rápido possível e, na medida em que seja possível, para dar a resposta que permite uma solução que seja adequada para o futuro", acrescentou.
