"Está quase tudo por fazer." Associação defende formação das pessoas para situações de calamidade

Créditos: Paulo Cunha/Lusa
Perante as catástrofes causadas pelas tempestades que têm abalado o país nas últimas semanas, a Associação de Proteção Civil volta a defender que a população devia receber formação sobre como agir perante situações de calamidade. Uma ideia já proposta há quase dez anos, como sublinha à TSF o presidente da associação, João Saraiva, considerando que estes cursos preparatórios fazem todo o sentido
A Associação de Proteção Civil (APROSOC) defende que faz "todo o sentido" a população receber formação prévia sobre como preparar-se e agir perante situações de calamidade, como tempestades, incêndios e riscos pandémicos.
Numa altura em que Portugal sofre com os efeitos de várias tempestades seguidas, o presidente da associação, João Saraiva, adianta à TSF que a proposta de formar os cidadãos já tinha sido entregue há quase dez anos ao Governo que estava em funções. Esse Executivo ficou conhecido como a "geringonça" e era liderado pelo Partido Socialista e suportado pelo Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português e o Partido Ecologista Os Verdes.
"Em 2017, aquando dos incêndios, elaborámos um estudo e um plano que foi entregue na altura, em mãos, a António Costa. Na altura, idealizámos aquele plano de preparação que foi o primeiro encontro para a autoproteção da resiliência das populações. Portanto, idealizámos o plano não apenas a pensar nos incêndios, mas a pensar nos restantes riscos, os mais e os menos falados. Ou seja, riscos como, por exemplo, pandemias, que viemos a conhecer posteriormente, as cheias, as inundações", esclarece à TSF.
João Saraiva lamenta que nem tudo o que estava incluído nesse plano tenha sido aplicado, acusando o Governo da "geringonça" de ter outros interesses. "Parte dessa proposta viu a luz do dia, é aquilo que conhecemos hoje como 'Aldeia Segura, Pessoas Seguras.' Contudo, o Governo de então apenas implementou aquilo que era possível ser feito pelos amigos. E, portanto, os interesses instalados prevaleceram", critica.
"Houve, de facto, essa implementação, houve escolas que abriram cursos baseados no nosso programa. O porquê de não se ter implementado tudo, eventualmente, não haveria capacidade. Aliás, ficou de ser financiado pelo fundo que existia e que estava a ser gerido pela Associação das Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande, em articulação com a Fundação Calouste Gulbenkian. Fundo esse que, mais tarde, ao que sabemos, acabou por ser nacionalizado. Foi para os cofres do Estado. Ou seja, não foi aplicado, não houve investimento", lamenta.
O programa dos cursos
Para evitar que as pessoas entrem em pânico e que se ponham em risco, ou que corram para comprar equipamentos como geradores, o presidente da APROSOC fala dos conteúdos que devem estar incluídos nestes cursos.
"Os primeiros socorros, a gestão das reservas de emergência - quer seja água, quer sejam alimentos, energias alternativas, uma série de equipamentos -, mas também o planeamento familiar de emergência para as diferentes situações", afirma.
Este planeamento familiar de emergência é um documento que agrega um conjunto de medidas para prever, planear e preparar os membros do agregado familiar, em casos de desastres como sismos, inundações e incêndios. O plano inclui, por exemplo, kits de emergência e normas de evacuação.
João Saraiva sublinha que não há uma solução de planeamento que sirva para todos os casos, o que torna a formação ainda mais importante. "O planeamento familiar de emergência para incêndio é diferente do de cheias ou inundações, é diferente da invasão de Portugal por um país qualquer, portanto, de uma situação de guerra. As pessoas têm de ser preparadas a pensar naquelas que são as géneses dos desastres possíveis de ocorrer."
"Há aqui muito a fazer, está quase tudo por fazer e dizia eu que tudo isto está legalmente previsto", avisa.
Quanto a quem deve ser responsável pelos conteúdos programáticos, o presidente da APROSOC não tem dúvidas: "Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, em articulação com as organizações da sociedade civil, no sentido de que estes conteúdos programáticos sejam realistas e não dentro daquela bolha em que algumas pessoas vivem. E, depois, isto deve ser delegado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, nos serviços municipais de Proteção Civil e, por sua vez, nas unidades locais de Proteção Civil, que são as que estão mais próximas dos cidadãos."
Desde 28 de janeiro, na sequência das tempestades Kristin, Leonardo e Marta, 16 pessoas morreram e há centenas de feridos e desalojados, com as regiões de Leiria e Coimbra a serem as mais afetadas.
