
TSF/Artur Carvalho
Ainda na sombra da tragédia com o avião da Germanwings que aconteceu há três semanas, a TSF foi saber como é feito o exame médico regular necessário para a renovação dos certificados de voo dos pilotos em Portugal.
Foi no dia 24 de março que o aparelho da companhia alemã se despenhou nos Alpes, provocando a morte a 150 pessoas.
A tese ainda não definitiva mas que continua a ser mais consistente é a de que terá sido o copiloto que propositadamente fez o Airbus A320 chocar no solo. Terá sido um ato de alguém que se suspeita sofria de doença psiquiátrica grave. Descobriu-se, aliás, que Andreas Lubitz teve há dois anos uma depressão profunda.
A vigilância regular a que os pilotos são sujeitos pelas autoridades de aviação civil não incluem obrigatoriamente a realização de exames do foro psicológico. E é também esse o caso em Portugal.
No Porto, no Hospital Lusíadas, funciona um centro de medicina aeronáutica, por onde, anualmente, passam mais de 500 pilotos, profissionais e particulares, e também controladores de tráfego aéreo.
À primeira vista, é um exame regular de saúde, um "check-up" igual a tantos outros. Mede-se a tensão, faz-se auscultação, verifica-se o estado da visão. Mas a consulta começa com o médico Armindo Santo, chefe do serviço, a pedir ao examinado o preenchimento de um formulário.
«É-lhe perguntado se está a tomar medicamentos, ou se nota alguma alteração no estado de saúde. Por exemplo, se já teve algum pensamento suicida. É claro que ele pode dizer que não, faltando à verdade, mas a responsabilidade é do piloto. Nós depois só temos de confirmar ou não».
Os exames que se seguem não incluem uma avaliação do foro mental específica, mas o especialista diz que mesmo assim podem ser detetados sinais de alerta : «Se houver alterações, enviamos imediatamente para o especialista, para o psicólogo ou para o psiquiatra», e tem enviado pilotos para consultas do foro mental? «Não, ainda não. Nunca aconteceu», responde o médico.
Sem este "check-up", com aprovação do médico examinador, o Instituto Nacional de Aviação Civil não renova os certificados dos pilotos. Armindo Santo considera que os exames são suficientes para uma avaliação sólida, que baste, das condições dos profissionais. Mas também não faria mal algum, antes pelo contrário, se passassem a incluir uma consulta de Psicologia.
«Conforme a validade dos certificados, que têm intervalos variados, podiam, eventualmente, ser sujeitos à avaliação de um psicólogo, ficando obrigados a uma consulta dessa especialidade. Os pilotos teriam de realizar testes psicológicos, mas que teriam de ser blindados a fraudes, à dissimulação de algum problema, o que pode acontecer», diz Armindo Santo.
Quem estava a ser examinado ao mesmo tempo que decorria a conversa é Joaquim Manuel Ferreira, piloto de helicóptero desde 1997. Agora, com mais de quarenta anos, ele tem de fazer esta consulta de seis em seis meses. Diz que vem de bom grado, e acredita que a classe tem consciência do benefício de fazer estes testes.
Não vê, contudo, necessidade de uma avaliação psicológica regular e obrigatória: «Não encontro necessidade disso. Até porque, se um piloto está mal, a própria organização acaba por dar conta de uma alteração de hábitos ou comportamentos. Isso também não passará despercebido aos colegas, que não deixarão de o assinalar ao empregador».
É uma convicção que o acidente de há três semanas não abala. Para este piloto de helicóptero, essa foi só uma exceção trágica que não chega para arrasar a regra.