"Podem vir a ser cruciais." Portugal na vanguarda científica das técnicas de conservação do lince ibérico

Um lince ibérico com uma coleira emissora
ICNF
Nuno Neves, veterinário do ICNF, revela à TSF que em Silves está a ser estudada a possibilidade de inseminação artificial para acelerar a reprodução da espécie
"Podem vir a ser cruciais para o seguimento da espécie." É no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), localizado em Silves, no Algarve, que estão a ser estudadas ferramentas para a preservação do lince ibérico, tal como se faz em Espanha.
No seguimento do anúncio, esta segunda-feira, de que cientistas num laboratório em Espanha criaram pela primeira vez embriões da espécie através de fertilização in vitro, a TSF apurou agora que o caminho também já se faz em Portugal.
Nuno Neves, veterinário do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que esteve envolvido na campanha de monitorização da espécie no Vale do Guadiana este ano, avançou à TSF que no CNRLI está a ser estudada a possibilidade de inseminação artificial. Assevera, porém, que os resultados vão chegar "no tempo da ciência".
"É uma espécie muito particular na sua fisiologia e as técnicas atuais não eram adequadas", explica o veterinário. Por essa razão, refere, "tem se trabalhado muito no aperfeiçoamento das mesmas".
Após um avanço significativo na técnica de fertilização in vitro e o estudo da opção de inseminação artificial, Nuno Neves considera também que estão encaminhadas "duas ferramentas importantíssimas para a contribuição genética de uma população que pode vir a sofrer muito com a sua pouca variabilidade".
A campanha anual de monitorização está integrada no projeto LIFE Lynxconnect, uma iniciativa conjunta de Portugal e Espanha. O objetivo passou por verificar o estado da população de linces ibéricos em Portugal, num panorama que o veterinário considera já "muito positivo".
Em 26 dias de ação no terreno, os profissionais, entre os quais técnicos, vigilantes da natureza e agentes florestais, conseguiram um número recorde de capturas para recolha de informação: 35 linces ibéricos.
"Optámos por este número alto porque a população está a crescer e é preciso reter uma quantidade relevante de informação que possa extrapolar para o resto da mesma", esclarece Nuno Neves, não deixando de felicitar toda a equipa: "Conseguimos chegar lá fruto de uma série de bons trabalhos."
Passado mais de dez anos desde a primeira libertação de alguns linces ibéricos criados em cativeiro, o CNRLI considera que o "crescimento tem sido exponencial, com 350 indivíduos a ocupar uma extensão de área de 1000 km²" atualmente.
No momento da captura dos exemplares adultos é colocada uma coleira emissora que, entre várias funções, localiza os linces ibéricos. Esta inovação permite que seja lançado um alerta na aplicação para condutores Waze, evitando acidentes com estes animais.
"Há dois anos começámos com esta experiência. Aliás, Portugal é inovador neste sistema", aponta o expecialista, revelando que "vários países já pediram informações sobre o mesmo".
Em 2023, esta inovação teve um período experimental em que os especialistas "conseguiram ter alertas de animais, principalmente no IP27", mas "eram poucos emissores". "Este ano conseguimos colocar 22 emissores que vão permitir um aumento na informação e a redução da mortalidade", sendo que a técnica está garantida "perto de vias de acesso e estradas com movimento", explica.
Ainda assim, o veterinário diz existirem "zonas remotas que ainda não estão completamente cobertas [pelas antenas que permitem a emissão de avisos]", mas garante que o ICNF "está a trabalhar nisso".
O projeto LIFE Lynxconnect é financiado pela União Europeia até março de 2026. Perto da data do fim, os cientistas ainda não estão certos do futuro da investigação, mas Nuno Neves assegura que, de momento, o instituto está "focado em fechar este projeto em vigor e cumprir os objetivos que tem". Acima disso, pretendem ainda "confirmar que a população se mantém estável".