Solidariedade resiste em São Simão de Litém: sem telhas na própria casa, Francelino ajuda quem vive pior

Créditos: António Pedro Santos/Lusa (arquivo)
Lonas "levantadas pelo vento" e portas fechadas "por causa dos assaltos": estes são apenas alguns dos muitos desafios encontrados pelos voluntários no terreno, como conta à TSF Janina Silva
No concelho de Pombal, há quem tenha a casa sem telhas mas se ofereça como voluntário para ajudar outras populações, porque há sempre alguém que está a viver pior. É o caso de Francelino Gameiro, voluntário em São Simão de Litém, freguesia distante e rural deste concelho, que não ficou alheio ao receio pela intempérie, que continua e pode piorar.
Francelino Gameiro está a carregar telhas para dentro de uma carrinha. Há já vários dias que tem trabalhado para ajudar a reerguer a freguesia de São Simão de Litém. "Isto é tudo doado. As pessoas vêm e trazem telhas, inclusivamente do Algarve e de outros lados - não importa de qual parte do país -, simplesmente por solidariedade para para connosco, porque, se você for por aqui acima, isto aqui até Leiria é Jesus do céu", conta à TSF.
A procura de telhas não pára, com a certeza de que não é fácil arranjar as que são mais adequadas, nem tão pouco quem faça o serviço. As equipas que têm andado em cima dos telhados a colocar lonas também têm visto o seu trabalho deitado por terra.
"Essas mesmas lonas que foram colocadas, foram levantadas pelo vento esta noite. Hoje de manhã, aqui, tivemos de acalmar as pessoas porque começaram a entrar em pânico porque a chuva não está a parar, não há tréguas. E as pessoas vieram aqui de manhã querem telhas", revela também à TSF Janina Silva, professora na Marinha Grande, que também está em São Simão de Litém para fazer voluntariado.
Nestas redondezas, diz, a população já começou a ter receio de abrir as portas aos voluntários que vêm de fora, porque já há quem se comece a aproveitar da desgraça alheia.
"As pessoas já não estão a abrir as portas com medo por causa dos assaltos, porque há pessoas a fazerem-se passar por pessoas da junta de freguesia. Neste momento, não está fácil darmos a cara, nós, porque somos poucos hoje no terreno. Ontem éramos muitos", lamenta.
Mas ontem era domingo. Hoje, como é segunda-feira, muitos voluntários tiveram de voltar a casa para regressarem aos seus empregos.
"E dá-me pena porque há crianças que estão a ter necessidades, que não têm roupa, que têm as casas todas molhadas, os móveis e os colchões a ficarem encharcados, não têm telhas. E não temos equipas para para poder ajudar tantas pessoas. É impossível", completa Janina Silva.
A chuva continua a cair e a não dar tréguas a quem já só pede para ter uma casa onde não caia água do teto.
Quinze pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.