Um médico apenas para 179 doentes numa noite: crise nas urgências "não é culpa da gripe"

Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)
Críticas à atuação do Governo na área da Saúde marcaram o Fórum TSF desta terça-feira. Dirigentes de associações e sindicatos questionam tanto as medidas que "não cumprem o propósito", como as que "continuam por concretizar"
Depois de a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, ter afirmado que a situação nos tempos de espera dos serviços de urgência é "muito crítica" e que não deverá melhorar durante esta semana, o Fórum TSF analisou o problema.
O bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, considerou que os planos de contingência para o verão e para o inverno "sistematicamente não cumprem o seu propósito", o que se verifica pelos "tempos de espera e pressão nas urgências".
"Tem de haver a coragem de repensar todo o sistema", frisou na TSF, especificando a necessidade de "perceber muito bem como fazer planos de contingência".
Ainda assim, para o bastonário, há um aspeto que é "o centro de todos os problemas": a "falta de profissionais no Serviço Nacional de Saúde [SNS], nomeadamente de médicos".
Já o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, listou várias questões para o Governo responder: desafiou o Executivo a decidir o "investimento que pretende fazer no SNS em 2026", visto que "o definido para 2025 ficou muito aquém daquilo que estava previsto".
O presidente da APAH criticou também os critérios de nomeação das chefias, que não se podem basear na "confiança política", mas sim na "capacidade técnica".
Ainda sobre contratações, Xavier Barreto vincou que, "ao que parece, existe uma limitação imposta pelo Ministério das Finanças para, por exemplo, o número de pessoas que vão ser contratadas em 2026", sugerindo que estão a pôr um limite às contratações para o SNS.
O "problema que se repete todos os invernos" nas urgências são, para Bruno Moreno, vice-presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, resultado do "desinvestimento". No caso dos cuidados primários, Bruno Moreno apontou para a "falta de médicos, enfermeiros e secretários clínicos".
Os cuidados de saúde primários são, sublinhou o vice-presidente, "o primeiro contacto do doente com o SNS" e podem "ser a solução para a resposta à doença aguda".
Por seu lado, a presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), Joana Bordalo e Sá, responsabilizou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, pelo "caos nos serviços de urgência" - que, considerou, "não é culpa da gripe".
A presidente da FNAM exemplificou com "o concreto que é devastador": "No Hospital Amadora-Sintra, a partir da meia-noite de sexta-feira, estava escalado apenas um médico do quadro na área ambulatória. Nessa noite, havia 179 doentes em circulação, dos quais 157 eram para medicina interna."
Já o presidente do Sindicato Independente de Médicos (SIM), Nuno Rodrigues, defendeu que o atual sistema de contratação de médicos é "retrógrado" e "obsoleto".
"Enquanto só houver dois concursos anuais, obviamente que o SNS continuará a perder oportunidades de fixar e manter especialistas", sublinhou. A solução, segundo o presidente do SIM, está na "agilização e abertura regular de concursos": "Como é que um concurso pode demorar dois anos?"
Por sua vez, Guadalupe Simões, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros, recordou o que, para si, são as promessas do Governo que continuam por cumprir. "As listas de espera estão a aumentar, nomeadamente para exames complementares de diagnóstico", mas "o Governo dizia que era seu objetivo internalizar estes exames", sendo que "assistimos ao contrário", acusou a dirigente sindical.
No âmbito do financiamento do Plano de Resolução e Resiliência, afirmou ainda Guadalupe Simões, "estava dinheiro consagrado para aumentar a oferta pública de unidades de cuidados continuados", mas "esse dinheiro não foi utilizado" e "em outubro passado foi transferido para o Banco Português de Fomento".