"A política continua a contar." Estudo mostra que Covid-19 não influenciou abstenção

Depois de analisar 36 atos eleitorais, em 26 países, o estudo "A Abstenção no período da Pandemia Covid-19 conclui que a pandemia teve "pouca influência em termos globais, na taxa de participação eleitoral". Portugal foi um dos dez países onde a abstenção caiu.

Mais do que eventuais medidas para facilitar o voto, o que contou, na hora de votar, em tempos de pandemia, foi a motivação política. A conclusão é do estudo "A Abstenção no período da Pandemia Covid-19 , 2020-2022 , da autoria do Observatório Eleitoral Internacional da Universidade Lusíada.

Este estudo, coordenado por Manuel Monteiro, analisou 36 atos eleitorais realizados em 26 países de vários continentes, para tentar perceber se a participação eleitoral desceu durante a pandemia face às duas últimas eleições pré-Covid.

As conclusões, como explicou à TSF Manuel Monteiro, mostram que as medidas adotadas por causa da Covid-19 tiveram pouca influência, em termos globais, na taxa de participação eleitoral.

"Ao contrário da nossa própria expectativa inicial, a Covid-19 não teve a influência que se julgava na taxa de participação dos eleitores dos 26 Estados que nós observámos", constata Manuel Monteiro, sublinhando que as eventuais medidas adotadas também não foram determinantes.

"Independentemente dessas medidas percebemos que o voto foi determinado ou não, essencialmente em função de motivos de interesse político. Em vários estados observados por nós, como no caso da Moldova ou da Albânia, onde praticamente não foram adotadas medidas preventivas ou para facilitar o exercício do direito de voto, a taxa de abstenção também desceu. Isto veio demonstrar que a participação é maior ou menor dos eleitores depende da sua empatia com o momento político do país e não propriamente com circunstâncias laterais, nomeadamente graves, como esta que aconteceu da pandemia", explica Manuel Monteiro.

Neste estudo, Portugal está entre os dez estados (Alemanha, Japão, Polónia, Chéquia, Nova Zelândia, Albânia, Chile, Moldova e São Tomé e Príncipe) que registaram uma redução da abstenção, embora tenha tido um comportamento diferente, consoante a eleição foi presidencial ou legislativa.

"Nós temos aqui um exemplo muito concreto do mesmo país que, em dois atos eleitorais sucessivos, com as mesmas medidas preventivas, num caso, teve uma taxa de abstenção superior, no caso das presidenciais, porque seguramente os portugueses entendiam que era uma eleição sem grande história e isso terá contribuído para uma certa desmobilização. Em contrapartida, contra todas as expectativas, nas eleições legislativas, com uma taxa de infeções e de confinamento muito superior, a taxa de abstenção desceu", nota o coordenador do estudo.

Manuel Monteiro relativiza, por isso, as medidas tomadas e cita o exemplo do Canadá onde "a taxa de abstenção subiu, mas os inquéritos feitos à população canadiana demonstraram que os canadianos disseram 'nós não fomos votar porque estávamos desinteressados do ato eleitoral e não por causa da pandemia' e portanto não deixa de ser curioso perceber que quando os eleitores estão motivados para a causa pública e para a vida política participam, independentemente de todos os constrangimentos".

Para o coordenador deste estudo a conclusão é clara: "A política continua a contar, pode contar para o bem, ou pode contar para o mal, ou seja, pode contar muito ou pode contar pouco, mas a política continua a contar."

O estudo "A Abstenção no período da Pandemia Covid-19" vai ser apresentado na próxima quarta-feira, na conferência "As legislativas de 2022 e a reforma do sistema eleitoral português", na Universidade Lusíada, em Lisboa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de