CDS corre risco de extinção. "Até hoje foi gerido ao estilo da Coreia do Norte"

Diogo Feio e Hélder Amaral consideram ser séria a derrota do CDS nestas legislativas, e até a extinção do partido pode estar em cima da mesa. Erros de posicionamento, de discurso, mas também a "perseguição" interna podem ter esvaziado a força política fundadora da democracia, lamentam.

Hélder Amaral, antigo presidente da distrital de Viseu do CDS e antigo deputado, e Diogo Feio, do Conselho de Jurisdição do CDS-PP e antigo eurodeputado, veem com tristeza e desalento os resultados eleitorais do partido, e acreditam que o CDS-PP corre mesmo o risco de desaparecer. Os dois centristas já tinham manifestado anteriormente que não se identificavam com o caminho que o partido vinha seguindo nos últimos tempos, mas mantiveram-se firmes no propósito de não abandonar a força política em que militavam.

Hoje, a perceção é ainda mais penosa, admite Hélder Amaral, em entrevista à TSF. "É preciso obviamente apurar responsabilidades e depois repensar, mudar e tentar reerguer o partido, e as responsabilidades vão diretas, não só a Francisco Rodrigues dos Santos - não é o único responsável -, mas todos aqueles que foram empurrando, apoiando até à parede."

O antigo presidente da distrital de Viseu do CDS advoga que não se pode construir um partido "na vingança, na perseguição, em projetos pessoais", e que isso causou a descrença dos eleitores. "Quando um partido faz da exclusão a sua atividade principal, desde logo num grupo parlamentar, num conjunto de deputados, mesmo considerados por toda a gente os melhores, quando em cada concelho, em cada distrito, é perseguido, excluído todos aqueles que no passado fizeram, em muitos casos, trabalho meritório - não estou a falar do meu -, é evidente que o eleitorado não confia."

O também antigo deputado admite que Nuno Melo pode ser "uma solução", mas salienta que há muitas figuras que poderão assumir a liderança, desde que o mote do partido volte a ser baseado na capacidade de ouvir e incluir todos. Ao longo dos meses, Hélder Amaral foi dando vários murros na mesa, contra a liderança do partido com tendência a "fechar-se em si própria, cada vez excluir mais, incentivar o ódio e a perseguição de quem pensa de forma diferente".

"O CDS até hoje foi gerido muito mais ao estilo da Coreia do Norte do que como um partido democrático", diz mesmo o antigo presidente da distrital de Viseu do CDS, que alerta: é este o preço que se paga quando se segue este caminho.

E, neste momento em que o CDS se tornou "o que disse que nunca seria nem queria ser", tudo, até a extinção, é possível, depois de o partido ter perdido a presença parlamentar. "Vejo com enorme tristeza e com uma dor imensa; primeiro, porque há mais de um ano ou ano e meio fiz um grito de alma, que foi dizer que o meu partido estava a morrer e que sentia isso. Infelizmente o pior cenário confirmou-se."

Fica, no entanto, um último reduto de esperança: "Este foi apenas um mau momento. Entre alguns que já existiram este foi o pior do CDS. Quem chegou ao partido com 4%, sem deputado em Viseu, numa mudança geracional - e foi possível fazê-lo... Se foi possível antes, pode ser possível agora." Hélder Amaral pede, por isso, a mesma motivação, para observar e conversar. "Acho que é possível..."

"Parece-me mais do que evidente que é necessário discutir a viabilidade do CDS"

Diogo Feio argumenta que o CDS deve ponderar todos os cenários, passando pelo fim do partido. O antigo dirigente do CDS-PP confessa a tristeza pelo pior resultado de sempre na história do partido. Diogo Feio apela à ponderação, sem pressas, mas com mente aberta para todas as hipóteses, naquele que é um partido fundador da democracia.

O centrista confessa o desânimo face à inexistência de representação parlamentar de um partido que muitas vezes serviu o país na Assembleia da República, e admite que o CDS venha a enfrentar um destino difícil e triste, até porque não há exemplos na história de partidos que percam a sua representação parlamentar e depois retornem à Assembleia da República. É, por isso, necessário, no congresso, ponderar as condições da sua existência enquanto partido, defende. A extinção do partido é, "com certeza, uma possibilidade que poderá estar em cima da mesa".

"Não é preciso tomar decisões, com certeza, a correr, mas é preciso ter todos os cenários em cima da mesa. Parece-me mais do que evidente que é necessário discutir a viabilidade do CDS a partir do resultado eleitoral. Pode haver quem entenda que o CDS pode ter sentido como a mera associação de natureza política, com uma vida triste e difícil. Com toda a sinceridade, parece-me que, se o cenário for meramente esse, deve ponderar-se a questão da existência."

No entanto, Diogo Feio afirma que o CDS pode ser útil para o centro-direita, se afinar uma estratégia que não deu resultados. Para isso, sublinha, impõe-se uma discussão serena sobre o papel que o CDS-PP deverá ter no plano partidário nacional. "Se a posição do CDS puder ser a de ajudar a uma posição federadora no espaço do centro-direita, eu acho que o CDS poderá ter utilidade, tem é de pensar bem naquilo que pretende", analisa.

Reforçando que a estratégia que o CDS seguiu para este ato eleitoral não teve "qualquer espécie de resultado", com erros no posicionamento e no discurso que conduziram ao pior resultado na sua história, Diogo Feio deixa, assim, o futuro totalmente em aberto.

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