A guerra na Síria ficou para trás, mas as lutas em Portugal são ainda constantes
Reportagem TSF

A guerra na Síria ficou para trás, mas as lutas em Portugal são ainda constantes

Depois da guerra na Síria lhe ter roubado a mulher e o filho num bombardeamento, Fawzi Rashed chegou a Portugal há cinco anos, após passar pela Turquia, Grécia e Roménia. A guerra ficou para trás, mas as lutas continuam a ser constantes em Portugal: para conseguir um emprego, para arrendar uma casa ou para obter a cidadania.

Os primeiros 18 meses ao abrigo de um programa de inserção foram mais fáceis, permitiram começar a aprender a língua e pagar as contas, mas, um dia depois destes 18 meses, estava por conta própria.

Vive em Miranda do Corvo, no interior do distrito de Coimbra, com a atual mulher e garante que é aqui que quer ficar e aqui educar as duas filhas que já nasceram em Portugal e a terceira que vem a caminho.

Fawzi Rashed deixa-nos entrar em sua casa. À nossa espera estão a esposa Nora e as filhas Lucinda e Luísa. Nora está grávida da terceira filha, que se vai chamar Marina, em homenagem à médica de família, que está sempre disponível e que "tem sido muito atenciosa" com a família.

A casa é pequena. Ao início, era mais do que suficiente para o casal e foi arrendada a um preço que conseguem pagar do próprio bolso, 180 euros por mês. Mas tem apenas dois quartos, um deles não pode ser utilizado por causa da humidade, e tornou-se pequena demais para uma família de cinco pessoas.

Fawzi tem agora outro problema em mãos, pois, depois de três anos de contrato, foi despedido e está no desemprego. Trabalhou para a Fundação ADFP, de Miranda do Corvo. Diz-nos que fez contrato anual, que foi renovado, mas que, ao fim de três anos, não teve continuidade. Está agora a receber subsídio de desemprego, embora tenha consciência que só dará para onze meses e, por isso, procura emprego. Uma dupla procura: trabalho e outra casa.

Não há casas decentes a um preço que consiga pagar. Refere que contactou a Câmara de Miranda, que lhe disse não ter habitação social disponível, e há depois mesmo senhorios que se recusam a alugar casa por ser um refugiado. Está disposto a mudar de sítio, ou para um local em que tenha trabalho e possa pagar a casa, ou para um município que tenha uma habitação social disponível para acolher a sua família.

A experiência que traz da Síria é de torneiro mecânico, mas, por cá, diz que faz qualquer coisa, quer é um ordenado para continuar a pagar as contas e a sustentar a família. Já tentou até sair, deixando a família ligeiramente para trás, mas as portas têm-se fechado. "Liguei para Lisboa porque precisavam de pessoas para cuidar de doentes com Covid-19 e eu pensei em deixar a família para ir lá trabalhar, mas não aceitaram por ser refugiado", conta.

Na Síria, Fawzi Rashed era dono de uma fábrica, tinha casa própria e dois carros. Um bombardeamento levou-lhe tudo, mas sobretudo o que tinha de mais importante: a mulher e o filho. "Quando cheguei não havia nada, estava tudo no chão. Metade da cabeça do meu filho e um braço nem sequer consegui retirar [debaixo dos escombros]. Peguei nele e gritava por um carro para conseguir levá-lo ao hospital", conta, com lamento na voz, que era o choque que o levava a querer ir com o filho morto para um hospital. A esposa nunca a chegou a ver debaixo dos escombros. E, nesse dia, começou a pensar em sair do país. "Se quisesse ficar, também ia morrer, de certeza, porque só se pode andar em grupos ou seremos mortos. Eu não quero matar alguém nem que alguém me mate a mim", explica.

Sem cidadania síria e sem cidadania portuguesa: as lutas são diárias

A guerra ficou para trás, mas as lutas continuam em Portugal. Daqui a dois meses têm direito a pedir a cidadania portuguesa porque faz cinco anos que cá estão, mas há dois entraves: o valor a pagar - mais de 200 euros por pessoa, e depois a burocracia. Em Portugal, exige-se um registo criminal da Síria, algo que se pode revelar uma tarefa impossível por causa da guerra, que já leva dez anos. Não é garantido que se consigam encontrar os registos e, mesmo que existam, o trajeto da cidade onde ainda tem família até à cidade onde estão os registos pode ser fatal para o irmão. "Tu não podes andar porque há sempre uma arma ou uma bomba. Quem apanha os curdos quer matá-los, por isso é impossível mandar o meu irmão a Alepo para morrer lá para eu ser português aqui."

Por isso, recusa-se a mandar a família diretamente para a morte e apela a que o Governo português tenha isso em conta, até porque,, sendo curdo na Síria e com cartão de identidade sírio caducado, hoje sente-se como sendo de parte incerta. "Se terminar a guerra e Bashar Al-Assad estiver ainda no governo, quem lá voltar volta como refugiado, porque, antes da guerra, nós também já éramos refugiados, não éramos sírios, somos curdos e não podíamos ler na nossa língua original nem ter direitos como têm outros árabes lá", conta.

Com a perseguição interna aos curdos e sem nacionalidade síria oficial, "o melhor é viver aqui e passar a vida aqui", mesmo depois de terminada a guerra.

A Alemanha está parecida com a Síria

À TSF, Fawzi Rashed explicou ainda porque não querem, de todo, ir para a Alemanha, embora saibam que os portugueses têm esse preconceito em relação aos refugiados sírios. "A Alemanha está como a Síria, há a rua dos árabes, dos turcos ou dos curdos", diz. E os próprios alemães olham para os refugiados "como olham para ratos".

Fawzi Rashed afirma que na Alemanha não sabem o verdadeiro significado da palavra "refugiado" e refere que em Portugal os casos de discriminação ou os problemas que têm na rua, em sociedade, são pontuais. "Se quisesse ter mais dinheiro, se calhar ia para a Alemanha, para ganhar dinheiro, mas eu não vim atrás de dinheiro, eu vim atrás de um país mais calmo", acrescenta.

Também tem noção que o custo de vida é bem maior na Alemanha do que em Portugal. Dá até o exemplo do preço de um garrafão de azeite, que em Portugal custa cerca de 20 euros e que na Alemanha é, pelo menos, o dobro.

Pode trocar de local de residência para arranjar trabalho e casa, mas sempre dentro do território português. Quer uma casa melhor para ver crescer as três filhas, que espera que venham a ter nacionalidade portuguesa e que aqui possam andar na escola e está até mesmo combinado com a esposa que, para elas, para as mais pequenas, até é melhor que não saibam nunca o que se passou e passa na Síria, tudo para que possam ser mais felizes.

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