"Defender os comboios é defender o país", um lema que vem de dentro das oficinas da CP
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"Defender os comboios é defender o país", um lema que vem de dentro das oficinas da CP

2021 é o ano europeu da Ferrovia e Portugal tenta apanhar o comboio dos investimentos ferroviários, que estão a acontecer um pouco por toda a Europa.

O ministro Pedro NunoSantos anunciou, recentemente, a maior compra de sempre em material circulante: 117 automotoras elétricas, que se encaixam nos investimentos que integram o Plano Nacional de Investimento, o PNI 2030, que conta com 8795 milhões de euros para modernizar a rede de linhas de comboio em Portugal.

A TSF partiu de mochila às costas e bilhetes na mão, para percorrer, sobretudo, linhas regionais portuguesas e perceber o que está já a ser intervencionado, o que ainda não tem obra à vista e o que pode estar a ser deixado para trás.

Na Grande Reportagem da TSF - "Próxima Estação - viagem pela ferrovia nacional" -, vamos percorrer as obras da linha da Beira Alta, a reabertura e eletrificação da linha da Beira Baixa, o único comboio regional de passageiros que resiste na linha do Leste. Viveremos várias escalas para atravessar o Alentejo (onde se aguarda pelos prometidos investimentos e se quer chegar a Lisboa ou ao Algarve de forma mais célere), a minimalista eletrificação da linha do Algarve (sem correções de traçados e sem aproximação às localidade mais populosas), a linha do Oeste com sinalização e cruzamento de comboios ao estilo da tecnologia do século XIX e do início da ferrovia em Portugal, terminando em Coimbra, cidade "voltada de costas para a ferrovia", que perdeu o Ramal da Lousã, que aguarda há muito uma estação moderna e intermodal de Coimbra B, que se prepara para encerrar Coimbra A e quebrar a ligação anual, por ferrovia, de mais de três milhões de pessoas à baixa da cidade.

Até que não cheguem comboios novos, a aposta recente da Comboios de Portugal (CP) tem sido a requalificação de material que estava encostado. Em Contumil, no Porto, José Carlos Barbosa, diretor de engenharia e manutenção da Comboios de Portugal, descreve, como exemplo, a intervenção que foi feita ao nível da série 2600 e 2620. "Esta equipa continua a fazer manutenção e alocou alguns elementos para a recuperação das 2600, que eram locomotivas que estavam abandonadas."

Para os menos entendidos nesta matéria, são as máquinas de comboios elétricas, laranjas e listadas de branco, fabricadas pela Alsthom, nos finais das décadas de 70 e inícios da década de 80, habitualmente vistas nos serviços de longo curso, sobretudo até à entrada ao serviço dos comboios Alfa Pendular.

Há registos que comprovam como estavam encostadas no Entroncamento, desde que foram abatidas ao serviço em 2012. Dez locomotivas elétricas, passíveis de serem recuperadas, necessárias e que estavam simplesmente encostadas. José Carlos Barbosa garante que, para esta recuperação, não houve recurso ao outsourcing. Foi tudo com mão-de-obra interna da CP. Máquinas que já circulam, sobretudo nos serviços da linha do Minho, depois da eletrificação entre Nine - Viana do Castelo e Valença, uma obra do Ferrovia 2020, no valor de cerca de 36 milhões de euros.

Eletrificações idênticas são esperadas para as linhas do Oeste, do Alentejo, do Algarve, do Vouga e do Douro, mas não estão todas no mesmo ponto de partida: a reportagem "Próxima Estação - a viagem pela ferrovia nacional", que emitimos esta sexta-feira, dá conta disso mesmo.

Até lá, sem eletrificação ampla, Portugal continua a pagar, e a pagar caro, pelo aluguer de automotoras a Espanha. São cerca de sete milhões de euros anuais que se pagam há 10 anos. Feitas as contas, 70 milhões de euros que poderiam ter sido investidos em sete novos comboios. Estas UTD fazem a sua manutenção em Contumil, na mesma oficina em que fazem manutenção os comboios suburbanos do Porto. "[A manutenção de] 95% destas automotoras alugadas a Espanha é feita aqui, e agora há uma pequena percentagem feita na Figueira da Foz", conta José Carlos Barbosa.

As oficinas da Figueira da Foz foram reabertas, tal como foram as oficinas de Guifões. Estas últimas, de muito maior dimensão, servem agora para recuperar as 50 carruagens ARCO compradas à espanhola RENFE, como já noticiou também a TSF. Já as da Figueira da Foz, encerradas desde 2011, servem para manutenção do material circulante a gasóleo da linha do OESTE. "É uma oficina mais próxima da linha para evitar as supressões e aquelas reparações ligadas ao conforto dos passageiros. Faz uma revisão de menor número de quilómetros. Ainda não faz uma manutenção mais profunda porque, neste momento, estamos numa fase de formação aos técnicos de manutenção da Figueira da Foz", explica.

No dia em que fomos às oficinas de Contumil, no Porto, era feriado de São João. As oficinas não param, mas nem sempre foi assim. Hermano Mota e Carlos Machado dão voz a um grupo de trabalhadores que se junta na hora de almoço para falar com a TSF e contam como era trabalhar nas oficinas há dez anos, na altura em que se vivia (dizem) uma desaposta total na ferrovia e agora que "não há mãos a medir para tanto trabalho".

Os dois funcionários avançam mesmo o nome dos "culpados" por estas situações: o "culpado" do marasmo de 2011 e o "culpado" da dinâmica e movimento atual das oficinas.

O lema, para estes trabalhadores, é fácil de assumir: "Temos de defender os comboios, porque defender os comboios é defender o país".

Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas, anunciou os investimentos que o PNI 2030 - o Plano Nacional de Investimento - vai fazer para a ferrovia: 8795 milhões de euros, um valor a somar às obras do ferrovia 2020, algumas ainda a decorrer.

Se a execução não ficar pelo caminho, é o maior investimento em ferrovia de há muitas décadas. Espera-se que, até 2030, Portugal eletrifique grande parte das suas linhas de comboio e, anunciou o ministro, o país compre 117 novas automotoras elétricas.

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