Entrudo Chocalheiro de Podence cativa milhares de visitantes durante quatro dias

Créditos: Fernando Pires
Esta terça-feira de Carnaval, cerca de uma centena de caretos de Podence, em Macedo de Cavaleiros, voltam às ruas daquela aldeia do distrito de Bragança para chocalhar quem lá passe. É um ritual que se repete desde o passado sábado e que termina esta tarde, com a queima do entrudo.
Com cerca de 200 habitantes, a aldeia de Podence tem acolhido milhares de visitantes para assistir ao tradicional Entrudo Chocalheiro, reconhecido, em 2019, pela UNESCO, como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
De chocalhos à cintura e vara na mão, os caretos - personagens com fatos preenchidos com franjas de lã colorida, máscaras de lata ou couro - têm o diabo no corpo. Correm, saltam, dançam, perseguem as raparigas solteiras, intimidam visitantes.
É assim o Carnaval de Podence, também conhecido como Entrudo Chocalheiro. Quem veste o traje de careto é gente da terra que quer manter bem viva a tradição de chocalhar e passa de geração em geração.
Rodrigo Teixeira tem apenas 19 anos, vive no Porto, mas os avós e os pais são de Podence. Todos os anos veste o traje de careto com muito orgulho. "É como se fosse uma descarga de energia. Quando vestimos o fato, não sentimos mais nada. Podemos estar doentes, mas quando vestimos o fato parece que desaparece tudo", diz.
E as pessoas acham piada. "Antigamente tinham medo, agora são as próprias pessoas que nos pedem que chocalhemos", conta o jovem careto.
Mas há também quem entre na folia mesmo sem qualquer ligação à terra. É o caso de João Marques, natural de Guimarães, que desde 2023 veste, anualmente, o traje de careto. "Para mim, foi algo que me trouxe liberdade e uma sensação indescritível de poder libertar a energia que guardo o ano todo e chegar aqui a Podence e poder soltar tudo", descreve.
A participação neste ritual começa mesmo na infância, quando as crianças vestem fatos semelhantes aos dos caretos e imitam o seu comportamento. São os facanitos, os aspirantes a caretos. "Andamos à volta do careto grande, que vai ser queimado na terça e vamos chocalhar as mulheres", conta Letícia, de apenas 12 anos.

E quem vai uma vez ao Entrudo chocalheiro fica com vontade de repetir. É o caso de Lúcia Moniz, que vive em Fafe. "É tradição, é uma festa genuína e acho que toda a gente devia vir. Já há muitos anos que venho aqui e está cada vez melhor", afirma.
Já as irmãs Mariana e Carolina vieram propositadamente de Sesimbra, pela primeira vez, e já foram "praxadas" com os chocalhos. "Estamos a adorar. Está a ser giro, sim. É uma experiência nova", dizem.
Os dias do entrudo são aproveitados pelos habitantes de Podence para abrir garagens e adegas, transformando-os numa espécie de tabernas para que os milhares de visitantes possam degustar a gastronomia transmontana.
Desde sábado, chegaram milhares de visitantes de todo o lado. "Veio muita gente e ontem [segunda-feira] foi mesmo uma das maiores enchentes em Podence. Gente de todo o território a nível nacional, da vizinha Espanha, dos Estados Unidos, de todo o mundo, pode-se dizer. O entrudo chocalheiro é um evento diferenciador", diz o presidente da Associação dos Caretos de Podence, admitindo que o evento começou a ter maior visibilidade desde que foi reconhecido como património cultural imaterial da humanidade. "A Unesco não nos dá nenhum cheque bancário, não nos dá nenhum troféu, dá-nos acima de tudo responsabilidade e visibilidade a nível do mundo. É isso que nós estamos aqui para dar continuidade", acrescenta António Carneiro.
Ao final da tarde desta terça-feira, o Carnaval termina com a queima do entrudo na Eira do Careto e nova multidão deve rumar à aldeia transmontana. "Vai ser o ponto alto, a partir das 17h30, que simboliza o queimar de velho, que é partir para um novo ciclo, que é a primavera", explica.
Ainda está a tempo de visitar Podence e ser chocalhado pelos caretos numa folia que junta tradições ancestrais, mas também algumas "modernices".
