Do skate ao snowboard em 90 dias: Diogo Carmona é o primeiro português nos Paralímpicos de Inverno

Créditos: Federação Portuguesa Desportos de Inverno
Com 90 dias de treino na neve e muita experiência no skate, o snowboarder Diogo Carmona vai ser o primeiro representante de Portugal nos Jogos Paralímpicos de Inverno. O atleta, que também é ator, perdeu parte de uma perna depois de ter sido atropelado por um comboio em 2019. Conta à TSF que recebeu com emoção o convite para participar nestes Jogos, que vão decorrer em Itália, entre 6 e 15 de março
Como é que surge esta primeira participação nos Jogos Paralímpicos de Inverno?
É uma história peculiar, é uma história muito interessante e curta, porque eu faço snowboard há pouco tempo, e também daí toda a emoção que eu neste momento estou a sentir. Isto surgiu a partir de um convite da Federação de Desportos de Inverno, de um treinador, que me disse que não havia atletas paralímpicos a fazer snowboard e eu ando de skate. Ele viu os meus vídeos e disse: 'Olha, vamos experimentar.' Eu nunca tinha feito snowboard. Isto foi há três anos.
Já começou a fazer snowboard depois do acidente que teve em 2019.
Exatamente. E com esta história parece que o snowboard é fácil, mas não é nada fácil. Acho que não é em três anos que a maioria das pessoas consegue fazer o que eu fiz.
Não é fácil porquê? O que é que diferencia o snowboard dos outros desportos?
O snowboard faz-se com uma prancha que está agarrada aos pés. Faço percursos com saltos e curvas na neve, com uma inclinação de cerca de 45 graus ou se calhar até mais. Conta o tempo mais rápido. Tenho de ir muito rápido. É um desporto perigoso e complicado a nível técnico e, principalmente com o fator de não ter uma perna, torna mais difícil.
É perigoso pelas velocidades que se atingem? Às vezes há acidentes aparatosos...
Sim.
E o Diogo consegue esta qualificação com apenas três anos a treinar?
Sim, com 90 dias de neve, 90 dias de experiência.
Noventa dias de experiência, não são três anos?
Exatamente. São 90 dias. Eu conto os dias de experiência que tenho na neve e foram 90 dias. E, portanto, respondendo à sua primeira pergunta, sem dúvida que aquilo que, como é que isto surgiu, foi muito empenho a nível psicológico, até porque nós, em Portugal, comparativamente com outros países, não temos as condições ideais.
Portanto, acabou por ser um trabalho muito psicológico e tentar aplicar todo o conhecimento que eu fui buscar ao skate também na neve, e tentar tornar eficientes os resultados. Felizmente, correu bem.
E o que é que seriam condições ideais? Ter mais neve? Estar mais desperto para estes desportos na neve?
Sim, mais neve. Nós temos, obviamente, a nossa Serra da Estrela, que dá para a modalidade, mas os outros países que estão mais habituados do que nós a este tipo de desportos têm outras condições. A neve é diferente e têm montanhas com muito mais variedade de percursos.
Já fazia skate antes do acidente?
Já.
Então foi uma readaptação nos últimos anos?
Sim, no skate, sim.
E como é que concilia esta vida de desportista com a vida de ator?
Atualmente estou mais focado enquanto atleta. Tive esta oportunidade e sinto também que, neste momento, a indústria, o ramo de ator em Portugal não está propriamente como eu me identifico. Creio que está a passar por algumas dificuldades e, portanto, neste momento estou mais focado no meu percurso enquanto atleta. No entanto, continuo a ser e serei sempre ator, desde criança.
Quais são os objetivos para os Paralímpicos de Inverno?
Os objetivos, acima de tudo, são deixar Portugal orgulhoso e dar o meu melhor. Saber que fiz o meu melhor, com as condições todas que tenho.
Espera que esta presença nestes jogos de inverno, os paralímpicos, inspire, nomeadamente, as gerações mais novas a superarem limites?
Sim, creio que sim. Creio que a minha ida aos Jogos possa influenciar e mostrar que é possível nós fazermos mais desportos na neve, e também [mostrar às] pessoas que tenham deficiências que é possível chegarmos a este patamar épico que são os Jogos Paralímpicos.
Vai ser a primeira vez que vai estar integrado numa comitiva de paralímpicos. Tem grandes expectativas? Há sempre histórias de superação muito fortes...
Sim, já conheci a maioria dos meus adversários e não olho para eles como tal. Acho que não existe essa mentalidade, mas sim uma mentalidade de camaradagem porque todos nós temos uma história, todos nós superámos uma deficiência, e isso é de louvar. Qualquer atleta paralímpico é uma inspiração.
Tem algum ídolo?
Tenho vários, em vários desportos, mas acima de tudo qualquer pessoa que se supere. E os meus adversários são, sem dúvida, uma inspiração.