Miguel Poiares Maduro

O preço de trazer radicais ao governo

Subitamente, o país parece à beira de uma crise política. A verdade, no entanto, é que não sabemos se esta crise não é apenas mais um capítulo da farsa em que se transformou o debate orçamental em Portugal. Todos os anos, os partidos da esquerda mais radical que suportam o governo ameaçam reprovar o orçamento. Depois, um misto de ficção e realidade conduz ao acordo orçamental. Por um lado, o governo apresenta aumentos de despesa e investimento que nunca virão a ser executados, mas satisfazem, artificialmente, os seus parceiros políticos. Os orçamentos de Estado tornaram-se uma ficção que permite ao governo anunciar regulamente aumentos de investimento que nunca serão realidade. Por outro lado, o governo faz concessões, para lá do orçamento, revertendo ou adiando reformas que os seus parceiros políticos radicais não aceitam. Neste caso, a falta de reformismo dos governos de António Costa é o preço a pagar às forças conservadoras de esquerda, sendo que esse preço tem vindo a aumentar. O governo transformou os orçamentos em propaganda e moeda de troca da sua sobrevivência política.